quinta-feira, dezembro 30, 2010

"black swan" ou um cisne das penas muito brancas

Pode a análise de um filme falar sobretudo de outros filmes? Pode um filme elogiado transversalmente - das listas populares e "popularuchas" aos críticos afamados -, deixar-me com um sentimento de desilusão? Pode um cisne preto ser mais branco que outra coisa?
Primeiro aspecto a realçar, Black Swan está já e vai ganhar ainda inúmeros prémios. Óscares incluído. É uma película evidentemente acessível para o grande público, tem uma envolvente banda sonora, alguns bons planos. Tem tudo para ser um dos filmes do ano. Contudo...

Sexto Sentido, Clube de Combate, A Mosca, ou O Exorcista pareceram-me estar ali como referência, e isso não é obrigatoriamente bom. "Ah, afinal era tudo falso." ou "Era tudo na cabeça dela, quem diria?" é um volte-face fascinante, mas previsível desde o Clube de Combate ou do Perdidos. Depois, confesso que aqueles efeitos especiais pareceram-me quase sempre muito "manhosos". OK, era a loucura da menina mas mesmo assim... Mesmo assim aqueles trinta segundos em que saem penas das costas da Nina parecem apenas A Mosca dos tempos modernos, e pouco depois a torção total da tíbia é tão verossímil e importante para todo o enredo como o virar de cabeça e vomitar no Exorcista.

Mas, há sobretudo um filme que esteve nas "entrelinhas" o tempo todo, A Pianista de M. Haneke. Antes de mais, ambos têm como personagens principais artistas solitárias. Pianista e Bailarina. A busca da perfeição é o único objectivo de ambas e, todavia, como é dito logo no início deste filme "Perfection is not just about control, it's also about letting go." Os dois filmes apresentam também duas mães, cada uma à sua maneira. Obsessivas, controladoras e amargas, elas são apesar de tudo o pé na terra das duas artistas "sonhadoras". Dois homens, esses sim bastante diferentes, marcam ainda o enredo. E neste caso confesso que tenho que assumir que tanto o papel como o actor (Vicent Cassel) são muito mais importantes para a trama e, sobretudo, para o desenlace. O terceiro personagem em comum entre os dois filmes é o "sexo" ou a tensão sexual. Ele será até, muito provavelmente, um catalisador tão importante na história como a procura de perfeição de bailarina e artista.

Confesso que fiz esta análise demasiado a quente. Não deixei respirar, nem pousar o filme. Mal pensei as cenas, as interpretações, a outra vida do filme. E, após ter explicado este pormenor, termino com algumas considerações: a música de Schubert é mais envolvente e quase demente do que Tchaikovsky; Portman é bem mais bonita do que Hubert, mas ainda é menos actriz; Haneke mostrou uma loucura mais psicológica, doentia até, do que a demência demasiado visual e visível de Aronofsky, e tal como Hitchcock dizia: o mais assustador é o que não se vê. Em conclusão, sinto em Black Swan um sabor a quase. Quase um grande filme. Quase uma interpretação memorável. Quase... Diria mesmo que a este Cisne falta evidentemente um golpe de asa.

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