sábado, dezembro 31, 2011

quinta-feira, dezembro 29, 2011

O Diabo está nos pormenores

Um ano do caraças
Se há ano que fez por ser lembrado, foi este, 2011. Deixem-me consultar a mnemónica: Bin Laden, Kadhafi e Kim Jong-il, triplo AAA e triplo desastre japonês, Steve Jobs, novela trágica de Rosalina e novela de alcova de Strauss-Kahn, Murdoch e os seus jornais, Presidenta Dilma, indignados e Primaveras Árabes, Barcelona de Messi... A minha mnemónica 2011 é como aquelas de cábulas de liceu, em acordeão para lembrar muito e só com vago rastilho para instigar a memória. Cada nome faz explodir um romance, evoca a milenar história dos homens (e o seu rosário de sangue, sexo e dinheiro, e também a sua antologia de vontade e talento), multiplica pistas e deixa-nos derreados por tanta coisa num ano só. 2011 foi do caraças!

Kadhafi-2011, por exemplo, foi como passar de sócio a pária. De convidado que até impunha como devia ser recebido, de tenda, a abandonado à turba - "não sabem o que é compaixão?", disse a alguém, momentos antes de ser empalado. Terão esses momentos horríveis a ver com a classificação esperançosa, "Primaveras", que damos às revoltas árabes? Certamente que sim, porque os homens não mudam ao som de cânticos celestiais, por mais que evoquem o Céu quando se manifestam. Mas, atenção, a Praça Tahrir pôde passar o ano com enchentes sucessivas e, apesar do sucesso mundial das retransmissões, não ter nada para anunciar - aquela jovem blogger cairota que mostra o corpo, e de quem já nos esquecemos o nome, fosse ela a vencedora de 2011, a Primavera Árabe poderia ser já proclamada. Isto para dizer que, se o ano foi enorme, talvez não seja onde julgamos. Outras vezes, porém, as câmaras souberam acertar com o acontecimento: morre uma inexistência, o tal Kim n.º 2, e vimos, na dor aviltante de um povo, a morte definitiva do comunismo.

Muitos dirão que 2011 foi o ano da crise do euro. Não acho, felizmente, aí, o ano falhou. Aí, 2011 ficará como bem-intencionado e teimoso (tanta cimeira), mas desconseguido. O acontecimento do ano foi o escândalo Murdoch. O maior patrão de imprensa mundial (Times, Wall Street Journal, Sun, New York Post...) tinha um jornal que vasculhou no telemóvel de Milly Dowler, de 13 anos, raptada e assassinada. O Diabo está nos pormenores.

Ferreira Fernandes in DN, 29 XII 11

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Animal rit

Le monde rit,
Le monde est heureux, content et joyeux
La bouche s’ouvre, ouvre ses ailes et retombe.
Les bouches jeunes retombent,
Les bouches vieilles retombent.

Un animal rit aussi,

Étendant la joie de ses contorsions.
Dans tous les endroits de la terre
Le poil remue, la laine danse
Et les oiseaux perdent leurs plumes.

Un animal rit aussi

Et saute loin de lui-même.
Le monde rit,
Un animal rit aussi,
Un animal s’enfuit.


Paul Éluard, Les Animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux (1920)

terça-feira, dezembro 27, 2011

ou como recomeça tudo

este é um fim! daqueles que traz sempre tanta mudança atrás.
é sempre assim. acaba o ano tal como começou. os dias vão se seguindo, e eu e tu ficamos mais velhos. já não saímos. já não viajamos. tu és o teu trabalho repetitivo e eu a inconstância de um amanhã na rua. a fábrica veio comigo para casa e só lá ficaram as máquinas. que são apenas isso: objectos solitários.
este é um fim! daqueles que traz sempre tanta novidade atrás.
amanhã há uma longa fila à minha espera no centro de emprego e duas velhas-que-não-são-assim-tão-velhas oferecer-me-ão uns bolos. com alguma sorte ainda estarão quentes. ouvirei os problemas delas enquanto espero a minha vez. será tão repetitivo como a rebarbadeira da minha oficina e, contudo, será uma música nova.
este é um fim! e mesmo que tu digas que se acabaram os pontos de exclamação no nosso amor, negarei os pontos de interrogação que trouxeste para as conversas de lençóis. desculpa, querida. mas estou farto destas reticências...

terra velha, sons novos.


Adounia, by Bombino

Is Your Money Killing You?

Berlim 10

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Calem-se. Calem-se. Calem-se. Calem-se.

Para um governante, hoje, só soletrar a palavra "emigração" é tolice. Sobre o assunto, calem-se. E não me culpem da estreiteza do facto, não fui eu que escolhi ser político, não fui eu que escolhi uma profissão onde o parecer quase vale o ser. Eu posso escrever aqui: "Portugueses, suicidem-se!", só me comprometo a mim, permitindo que me despeçam porque uma coluna de jornal não é para parvos. Mas os governantes são mais do que eles. As suas palavras não podem ser entendidas como uma ofensa àqueles a quem eles devem o que são. Ora esta questão foi tratada (ou assim legitimamente entendida) como um convite à emigração. Já o disse aqui duas vezes e vou repetir a obviedade: os portugueses não precisam que lhes indiquem quando e se devem emigrar - tal como respirar está-lhes no ADN. Os portugueses estão acabrunhados e com medo do amanhã, a última coisa que precisam é que os empurrem para fora do seu país. Eles irão ou não, como entenderem. Eles. Os governantes que se candidataram, ainda há pouco, a governá-los a todos, não podem, agora, querer descartar parte deles. O número e a qualidade dos governantes que caíram na tolice revelam uma estratégia de comunicação: pois despeçam os estrategas. E, sobre a emigração, calem-se. Também já aqui o disse, até há o que fazer para ajudar os portugueses que queiram emigrar. O que fazer, há; de conversa, nada. Calem-se. Digo-o tão repetidamente porque preciso que governem.

Ferreira Fernandes in DN, 22.XII.11

domingo, dezembro 18, 2011

Partida


Cesária Évora (1941-2011)

Nota: Vi-a apenas uma vez. Paris. 2007. A sala não tinha o calor que ela esperava e parecia mesmo que iria ser um concerto morno. Nada disso. Cesária Évora aqueceu o público francês e eu fiquei um pouco mais deslumbrado.

Nota 2: E agora? Quem se segue? Eu adoro a Mayra Andrade. Já a vi três vezes e verei muitas mais. Lura e Sara Tavares (cada uma no seu estilo) também são fortes hipóteses. Pode parecer ridículo este exercício do Público, eu digo que não. Não acho que Amália Rodrigues seja a melhor voz portuguesa da história, todavia marcou uma época e abriu caminho a outros. Escolher uma voz que marque um país é, sobretudo, uma janela que se abre sobre culturas mais ou menos desconhecidas.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Oportunidade de negócio


Este é o anúncio ideal para esta funerária (link).

Nota: Obrigado pela dica, Paula

a justiça tem nome

Eduardo Lourenço é o Prémio Pessoa 2011

O filósofo e ensaísta Eduardo Lourenço foi hoje distinguido com o Prémio Pessoa que desde 1987 premeia figuras com um papel relevante no ano anterior nas áreas da cultura e da ciência.

O anúncio foi feito, como habitualmente, no Palácio de Seteais em Sintra por Francisco Pinto Balsemão, que preside ao júri também constituído, entre outros, por Antonio Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Eduardo Souto de Moura, João Lobo Antunes, Mário Soares, Miguel Veiga.

O prémio, de 60 mil euros, é uma iniciativa do jornal “Expresso” (do grupo Impresa de que é presidente executivo Pinto Balsemão) e tem o patrocínio da Caixa Geral dos Depósitos.

Os escritores Herberto Hélder, Vasco Graça Moura, a pianista Maria Joao Pires ou o bispo D. Manuel Clemente foram alguns dos nomes premiados com o galardão que comemora este ano o 25º aniversário. A vencedora do ano passado foi a cientista Maria do Carmo Fonseca, directora executiva do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa. O júri – que diz querer ir contra “uma velha tradição nacional” de apenas reconhecer postumamente os autores de grandes obras e promover o seu reconhecimento em vida – destacou a sua “cultura de rigor”.

in Público

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Pai Natal Digital 2.0


via Mary.

nota: tem alguns bons momentos, mas não há dúvida que o do ano passado era melhor.
nota 2: o email da oprah não é aquele. não vale a pena tentarem.
nota 3: já se pode desejar bom natal?

quarta-feira, dezembro 14, 2011

SMILE



don't it make you smile?
don't it make you smile?
when the sun don't shine? (shine at all)
don't it make you smile?
don't it make you smile?
don't it make me smile?
when the sun don't shine, it don't shine at all
don't it make me smile?
i miss you already... i miss you always
i miss you already... i miss you all day
this is how i feel...
i miss you already... i miss you always
three crooked hearts and swirls all around... i miss you all day.

beijo ;-)

terça-feira, dezembro 13, 2011

olé! sou muito macho...

São os homens que lêem mais ebooks e o aparelho preferido é o Kindle.

São homens, têm entre os 18 e os 44 anos, e preferem os livros electrónicos porque são mais práticos, pesam e ocupam menos espaço que os livros em papel. Esta é a conclusão de um estudo da Deco, publicado esta terça-feira, e que traça o perfil dos leitores portugueses de livros electrónicos. O Kindle é o aparelho de eleição.

Através de um questionário enviado por email a leitores de livros electrónicos, não só de Portugal mas também de Espanha, Itália, Bélgica e Brasil, a Deco concluiu, através das 823 respostas obtidas, que os homens são quem mais lêem ebooks. O estudo, que quis perceber quais os principais motivos para comprar um leitor de ebooks e os seus hábitos de utilização, permitiu não só definir um perfil dos leitores como comparar a realidade portuguesa com a de outros países.

Em Portugal, a maioria que respondeu que lê livros electrónicos é do sexo masculino (65%) e tem entre 18 e 44 anos (74%) e o aparelho que mais usa é o Kindle 2 da Amazon. Segundo os dados revelados pela Deco, 15% dos inquiridos têm um aparelho destes, surgindo em segundo lugar a primeira versão do Kindle (11% ainda têm este leitor). A empresa lançou já a quarta geração deste aparelho, que não figura nas respostas obtidas pela Deco, uma vez que na altura em que o estudo foi lançado ainda não tinha sido lançado o aparelho.

Com o crescimento da leitura e compra de ebooks e com a entrada da Apple no negócio dos livros electrónicos, o mercado livreiro sofreu uma grande alteração, representando os ebooks 2,9% das vendas de livros em todo o mundo, estimando-se que este valor cresça até 12,7% em 2015.

No estudo da Deco, 44% dos inquiridos responderam preferir o leitor de ebooks para a leitura dos livros a qualquer outro aparelho electrónico, como um computador, um smartphone ou um tablet, e quase 70% fá-lo pelo menos uma vez por dia. Cerca de 41% dos leitores usa os aparelhos várias vezes ao dia. Com estes dados, os leitores portugueses destacam-se dos restantes do estudo, onde só a Espanha se aproxima, com 40% dos entrevistados a responderem que usam o dispositivo uma vez por dia. Na Bélgica e no Brasil só em 33% e 34% dos casos é que isto acontece e na Itália apenas 26% dos utilizadores pega no aparelho uma vez por dia.

Entre os países analisados, apenas em Espanha e Itália a maioria dos inquiridos comprou o aparelho numa loja. Em Portugal, Bélgica e Brasil, a maioria comprou o leitor de ebooks na Internet, gastando em média 126 euros no aparelho.

Entre os motivos de preferência por este meio, 79% justificaram a escolha com o lado prático do aparelho, que ocupa menos espaço e é mais fácil de transportar do que uma pilha de livros. Entre outras razões para comprar, há a prenda para o companheiro/a (6%) e a utilização no trabalho (4%). Da análise, ficou claro que os inquiridos não consideram o dispositivo adequado para crianças.

Além do aparelho, a Amazon surge neste estudo também como a plataforma preferida para a compra dos livros, sendo escolhida por 48% dos inquiridos. Atrás surge a loja iBooks, da Apple, a Mediabooks, do grupo Leya, e a Wook, da Porto Editora (cada uma com 5,4%).

Nos últimos três meses, 75% dos leitores compraram pelo menos um livro na sua língua materna. Contabilizando todos os livros electrónicos adquiridos ou arquivados, independentemente do idioma, cada entrevistado português regista uma média de 16 títulos nos últimos três meses. Quanto às temáticas preferidas em Portugal, a ficção (48%) e a literatura contemporânea e clássica (ambas com 46%) lideram as preferências.

via Público, 13.12.11

a Deolinda anda na má vida!



Foram cerca de 25 minutos de Deolinda na Pensão Amor. Uma louca!

Toca e Foge - Canal Q, 12.XII.11

Sócrates disse o óbvio

"As dívidas dos Estados são, por definição, eternas. As dívidas gerem-se." São eternas porque, ao contrário das pessoas, os Estados não morrem. Nunca nenhum País decidiu ficar com as suas dívidas a zero. A questão é sempre e apenas se pode continuar a pagá-las. Se os juros praticados são suportáveis e o seu crescimento económico permite cobrir os custos da dívida. E por isso são geridas. O que José Sócrates disse, para qualquer pessoa minimamente informada e que esteja de boa-fé nem merece debate. Não é matéria de opinião e ou de confronto ideológico.

No entanto, bastou o ex-primeiro-ministro afirmar uma ululante evidência para que se instalasse a indignação do costume. "Esta declaração do engenheiro José Sócrates explica porque é que afinal a bomba lhe rebentou nas mão e ele nos conduziu para a tragédia em que nos encontramos. Se as dividas não são para pagar e se foi isso que ele enteu dos estudos que fez de economia e finanças então está explicado porque ele não se preocupou que Portugal tivesse cada vez mais dívidas e não as pagasse." A frase é do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates, Freitas do Amaral, que teve simpatia pelo antigo regime antes do 25 de Abril, foi democrata depois dele, de direita quando a direita chegou ao poder, apoiante e governante do PS quando o PS ganhou as eleições e é agora entusiasta apoiante de Passos Coelho. Trata-se de um fenómeno que desafia as leis física: como pode alguém sem espinha dorsal manter-se de pé? Neste caso é fácil explicar a falta de honestidade intelectual. Noutros, é bem mais preocupante.

É fácil acreditar na ideia de que a nossa situação atual se deve a um homem. Mesmo que tudo nos demonstre o absurdo de tese. Sócrates não conseguiu, apesar de tudo, governar Portugal, a Grécia, a Irlanda, Itália e a Espanha em simultâneo. E mesmo os nossos problemas - dívida externa, desigualdade na distribuição de rendimentos, crescimento cronicamente baixo, desequilíbrio da balança de pagamentos, uma moeda demasiado forte, distorções no mercado de arrendamento, falta de competitividade da nossa produção, erros crassos no nosso modelo de desenvolvimento - não têm seis anos. Só que resumir tudo à dívida pública e a um homem dispensam-nos de qualquer reflexão mais profunda. Há um culpado e a coisa está feita. E tem outra utilidade: sendo a culpa do primeiro-ministro anterior só nos resta aceitar tudo o que seja decidido agora. Afinal de contas, Passos Coelho está apenas a resolver os problemas deixados pelo seu antecessor.

Sócrates foi, na minha opinião, logo depois de Cavaco Silva (que desperdiçou uma oportunidade histórica), o pior primeiro-ministro eleito da nossa democracia. Mas nem por isso dispenso a honestidade intelectual e o rigor na análise. Nem por isso aceito a estupidificação coletiva na interpretação de uma frase óbvia. Nem por isso aceito o simplismo político. Nem por isso resumo o debate à demonização de uma só pessoa. Que políticos ressabiados ou gente que se quer pôr em bicos de pés o façam - e não posso deixar de assinalar que Pedro Passos Coelho se recusou a entrar na gritaria e encerrou o assunto com um "acho que ninguém pode discordar" - não me espanta. Já acho mais perturbante que economistas e jornalistas de economia embarquem em tão rasteiro expediente argumentativo. Torna-se difícil dar crédito a qualquer opinião que emitam sobre qualquer outro assunto.

Escrevi-o antes das eleições em que o PS foi julgado pela democracia e escrevo-o de novo: se os problemas portugueses e europeus tivessem começado e acabado em José Sócrates bem mais fácil seria a nossa vida. E nem o confronto político desculpa a desonestidade intelectual da indignação que se instalou com a afirmação do óbvio.

Daniel Oliveira via Expresso

segunda-feira, dezembro 12, 2011

como nas fotografias

«Às vezes, dava jeito conseguirmos ver a realidade a preto e branco, sem nos deixarmos distrair pelas cores.»

Maria João Freitas via a namorada de wittgenstein

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Esta vida assim assim

Ainda nos poder inventar o mar
é maneira única de dizer o que por ora temos
e nem temos outra coisa e nem queremos
Trazia-te os olhos nos meus
entretanto certa sorte de os saber nos meus
à moda de coreto num dia à tarde
e agora devagarinho
agora dando de beber nos meus
tem um encantamento que avalia isto de ser assim
e mais não ter que uma vontadinha
ou forma contente de somente agradecer
Ainda nos podem afinal inventar o mar
Do meu lugar ao teu é esta vida assim assim
um redondo de por aí ir querendo rebolando
de ainda se ser assim assim
assim tão nos teus meus olhos
que a própria natureza de rebolar
não escolhe vagas nem encolhe portos
é pateta e é coisa nossa, gente do mar.

Hugo Milhanas Machado in Roupas beras, 2010
(poema presente no #9 do PROJECTO10)

O que um livro pode

"O processo de editar"

Mesa redonda com José Bártolo, Mário Moura, Sofia Gonçalves, Joana Sobral

Dia 10 DEZ'11 — 17h — ATELIER REAL — R. Poço dos Negros 55

e há mais de 8 a 11 de Dezembro. Ver AQUI.

Facebook is watching you

Max Schrems é um estudante de direito, austríaco, de 24 anos. Por curiosidade, fez o que a nenhum de nós ocorreu:quis saber que informações tinha a empresa Facebook sobre ele, mesmo depois de ter deixado de ser membro daquela rede social. Ou seja, depois de sair da rede, o que lá tinha ficado.

Os seus piores receios foram largamente ultrapassados pela realidade: estava lá tudo. Depois de muitas pressões e ameaças recebeu, talvez por desleixo, diretamente da Califórnia, um CD com toda as informações que a empresa mantinha: 1.200 páginas (quando impressas) de dados pessoais, divididos por 57 categorias, recolhidos ao longo dos três anos em que esteve na rede. Como o próprio recorda, nem a CIA ou o KGB alguma vez tiveram tanta informação sobre um cidadão comum.

Até mensagens trocadas com outros utilizadores, que ele entretanto apagara e julgava terem desaparecido, lá estavam, guardadas na base de dados da empresa. É como se um Estado abrisse toda a correspondência dos seus cidadãos e fosse guardando todas as informações. Tudo, desde que alguma vez tenha sido referido (em público ou em mensagens privadas), podia ser encontrado. Desde a orientação sexual à participação em manifestações políticas. Basta procurar através de palavras-chave. Multipliquem isto por 800 milhões de utilizadores em todo o Mundo. E lembrem-se que a timeline recentemente criada por Zuckerberg reduziu ainda mais a privacidade destas pessoas.

É claro que tudo isto viola as leis europeias para bases de dados. Não seria um problema para a empresa, já que as leis americanas dão menos garantias na defesa do direito à privacidade dos cidadãos. Acontece que o Facebook tem, provavelmente para fugir aos impostos (que na Irlanda são muito "simpáticos" para as empresas), uma segunda sede em Dublin. Ou seja, pelo menos os usuários europeus estão defendidos pelas leis da União. Por isso, o jovem Max recolheu, na sua página Europe versus Facebook, 22 queixas contra a empresa e enviou-as à Autoridade Irlandesa de Proteção de Dados. E tem uma base legal sólida: nenhuma empresa pode guardar informação que foi apagada pelos seus detentores legais (que é cada um de nós). E a prova de que o faz tem Max Schrems naquele CD. Garante a empresa que terá sido um engano. O comissário irlandês para a proteção de dados está a investigar se aconteceu a extraordinária coincidência da única pessoas que conseguiu a informação armazenada sobre si ter recebido tão exaustivo material sobre a sua própria vida.

Diz-se, com razão, que manter uma ditadura é mais difícil na era da Internet. Basta ver a recente onda de liberdade que varreu o mundo árabe para o confirmar. A censura (recordo a Wikileaks, que também mostrou as enormes fragilidades da segurança e da privacidade na Internet) é mais difícil, assim como a manipulação política. Mas tudo tem o reverso da medalha. Se é verdade que a liberdade de expressão nunca teve tão poderoso instrumento nas mãos, as tentações securitárias também não. Nem a STASI, uma das mais meticulosas polícias políticas da história, conseguiu alguma vez saber tanto sobre os cidadãos como algumas das empresas em que parecemos depositar tanta confiança.

A esmagadora maioria das empresas não se regem pelo respeito pela democracia, pelos direitos cívicos ou por quaisquer valores políticos e morais. E estão dispostas a abdicar de quase tudo se o seu lucro estiver em perigo. Basta recordar como, durante demasiado tempo, a Google colaborou com a censura na China e como só a pressão de muitos "clientes" a levaram a recuar para não depositar grandes esperanças nestas multinacionais da era moderna. Não sei se alguma vez as informações que o Facebook tem sobre centenas de milhões de cidadãos serão fornecidas a Estados, anunciantes ou seguradoras. Sei que o mesmo poder que recusamos a Estados democráticos, sujeitos a leis e ao escrutínio público, temos de recusar, por maioria de razão, a qualquer empresa.

É claro que já não dispensamos o uso da Internet e das redes sociais. Mas temos de aprender a viver com elas.Obrigando estas empresas a cumprir as mesmas leis que exigimos a todos e deixando de viver na ilusão de que estes espaços públicos, detidos por empresas, são privados. Ou um dia ainda nos arrependeremos amargamente da nossa tonta boa-fé.

Daniel Oliveira publicado no Expresso Online, via Arrastão.

quando o direto


...é mais direto. e é mais meu.

Benfica 1-0 Otelul; 08.12.11

«Cardozo ajudou a fazer história. O avançado marcou na fria noite de ontem e fez algo que não acontecia na Luz há 17 anos, tinha Cardozo 11 anos. Em 1994-95 os “encarnados” terminaram a fase de grupos na frente, superiores a Hadjuk Split, Anderlecht e Steaua Bucareste. Seriam eliminados na fase seguinte pelo Milan, adversário que pode calhar em sorte novamente às “águias”. Na altura, Artur Jorge tinha Isaías, Edilson ou Stanic, agora Jesus conta com Rodrigo, Nolito e, claro, Cardozo.» in Público

terça-feira, dezembro 06, 2011

um lugar como qualquer outro

miguel gosta do cheiro da relva molhada.
gosta das vozes que não se calam por um minuto.
gosta das luzes que acendem a noite.
miguel gosta da pressão e o futebol é a sua paixão. e gosta de rimas tão fáceis como as tabelas que procura.
pelo amor à redondinha abdicou de ser mais um imprevisível adolescente, tornou-se metódico e pragmático.
hoje é um verdadeiro estratega. elogiam-lhe a maturidade, a garra e a inteligência.
ele é um jogador completo.
miguel gosta do apito inicial.
gosta de ver os seus colegas a rasgarem o campo.
de ler as jogadas que se desenham e de imaginar os passes que ficam em falta no jogo.
o som da bola a saltar ou do ferro a tremer são um prazer único.
e é assim desde novo.
mas, agora, miguel é apenas um jogador que espera pelos últimos dias do calendário.
o tempo não perdoa e hoje dói-lhe aquele lugar.
ali tudo acontece na primeira fila e, contudo, sabe que nem fará uma corrida para aquecer esta noite fria. miguel envelheceu assim... de repente.
é toda uma carreira passada a layoff pelas lacónicas palavras do seu treinador: «miguel é um jogador muito importante no balneário.»
que se lixe o impessoal balneário.
miguel apenas quer os calções sujos de relva e uma salva de palmas que não cesse nunca.
hoje é domingo e é dia de taça. miguel fartou-se de tudo isto, levantou-se, olhou para o treinador, depois para os colegas e sorriu.
miguel correu para a baliza perante o olhar surpreendido do árbitro. e rasgou-a.
como uma bola.
era o seu fim.
na manhã seguinte os jornais dirão que essa fora a última corrida de miguel.
talvez.
mas soube tão bem como a primeira.

long, long time ago


19 short movies about Paris from 1900 ( Live soundtrack for rare movies ) from Projeto Axial on Vimeo.
via Há vida em Marta

Os cangalheiros da União Europeia

Há meses que se vêm multiplicando opiniões e artigos repetindo a mesma ideia: as acções de Merkel e de Sarkozy estão a levar ao fim do Euro e, na pior das hipóteses, da integração europeia. Há quem sugira até que a paz do continente, construída sobre os escombros da Segunda Guerra Mundial, também está em risco. Basta olhar para a História para se perceber que não será uma ideia completamente absurda. A ascensão de Hitler na Alemanha foi precedida por uma instabilidade política crescente na Europa e por uma crise financeira de proporções mundiais, semelhante à de 2008. A instabilidade social será cada mais acentuada e as convulsões políticas irão suceder em catadupa. Isto numa área geográfica onde continuam a existir países - a Espanha, a Itália, a Bélgica, as nações da antiga Jugoslávia - assentes em frágeis uniões políticas de povos e culturas muito diferentes. Um barril de pólvora.
Mas Merkel não quer saber disso. A Alemanha - e o seu superavit - vai crescendo à conta dos défices dos países em dificuldades (sobre o tema, ver este esclarecedor artigo de Paul Krugman). A crise, de Natureza sistémica, alastra progressiva, inevitavelmente, sem poupar economias fortes e consolidadas. A culpa não é, definitivamente, dos PIIGs. Nem sequer das dívidas públicas ou dos défices dos Estados. As agências de notação, como Helena Garrido faz notar neste artigo, já perceberam qual a origem da doença e ameaçam baixar a classificação dos países mais ricos da UE. O problema já não é financeiro, muito menos económico. É político. Como sempre foi, de resto - a economia não é uma entidade independente da vontade dos políticos, das decisões que os Governos tomam. Não adianta colocar tecnocratas não-eleitos nos países mais facilmente controláveis. Mais certo ou mais tarde, as contradições de um rumo errado e perigoso irão bater à porta dos seus responsáveis.
 
O problema da União Europeia é simples: Merkel e Sarkozy, estranhamente recordando alianças franco-alemãs de outras eras. Não queria ir ao ponto de comparar esta dupla com a dupla Hitler-Pétain. No fim de contas, Merkel e Sarkozy foram eleitos democraticamente (sim, eu sei que Hitler também foi). E, dentro de pouco tempo, serão os dois corridos do lugar que ocupam. Mas as semelhanças não deixam de ser extraordinárias: um líder alemão forte e um francês fraco, que capitula perante a vontade e o poder germânicos, apesar de, potencialmente, a França ser tão importante como a Alemanha no mapa mundial. Se durante algum tempo poder-se-ia pensar que a condução desta dupla era simplesmente incompetente, agora podemos ter a certeza que as decisões são intencionais: os bancos alemães e franceses continuam a lucrar com as crises dos periféricos e com as regras de funcionamento do BCE, que impede que os países possam obter empréstimos directos a 1%, e as economias dos dois países são robustas. Os dois pouco têm a perder, qualquer que seja o desfecho da crise: se o Euro sobreviver, acontecerá sempre sobre o dictat alemão; se a moeda única desaparecer dos países incumpridores, e ficar restringida a um núcleo duro no Norte e Centro da Europa, melhor, não há problema com os "indisciplinados do Sul"; e, se tudo implodir, incluindo a UE, das cinzas se reerguerá uma moeda alemã fortíssima.
Não, não é erro, não é uma desastrosa condução da crise; é intencional, deliberado, uma jogada de génio na óptica dos interesses franco-alemães. Criminoso. Os países mais fracos já deveriam ter começado a fazer o que se impõe: recuperar a soberania e, sobretudo, o orgulho nacional. Tem de haver limites para a humilhação que um país e o seu povo podem sofrer.

Sérgio Lavos in Arrastão

Nota: Um pouco exagerado ou nem por isso?

o atlântico está cada vez mais pequeno

Taxas moderadoras na saúde passam a custar o dobro                           

O ministro da Saúde, Paulo Macedo, revelou nesta segunda-feira à noite que as taxas moderadoras para as urgências polivalentes vão passar a custar 20 euros.
Paulo Macedo fez esta revelação no programa Prós e Contras, da RTP1, acrescentando que as taxas moderadoras nos centros de saúde vão subir para cinco euros ( actualmente são 2,25 euros).
Quer nas urgências, quer nos centros de saúde, as novas taxas moderadoras passam a ser o dobro das cobradas actualmente.
Paulo Macedo assegurou que ninguém deixará de ser atendido no Serviço Nacional de Saúde se não tiver dinheiro para pagar as taxas moderadoras, garantido que o número de pessoas isentas vai aumentar, passando de 4,4 milhões para 5,1 milhões.
O ministro da Saúde comprometeu-se também a garantir um médico de família para todos os portugueses até ao final da legislatura.
Paulo Macedo afirmou ainda não estar ainda decidido o futuro da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, assegurando que o seu encerramento não pode ser dado como garantido.

 
nota: o atlântico está cada vez mais pequeno. não são as placas em movimento, é a política em acção. sim, sim, os estados unidos estão já ali ao virar da barcaça.
que se lixe o ensino tendencialmente gratuito. que se dane o serviço nacional de saúde. se podíamos cortar nas gorduras do ministério da saúde e alguns gastos injustificados? podíamos mas...é mais fácil aumentar a receita. e assim ficamos um pouco mais americanos.
dizem que o número de pessoas isentas aumentará meio milhão. não chega.
dizem que há excesso de pessoas nas urgências hospitalares. concordo. porém, poderíamos dotar os centros de saúde de melhores condições para o hospital não parecer a única solução possível.
dizem que os gastos são excessivos. talvez. não conheço os números. nem o ministro, que só é especialista no sector privado.
dizem que nascem crianças a mais. não dizem? mas parece.
e sinceramente acho que é sintomático do estilo e nível de um governo quando se use um programa de informação (de qualidade discutível) para anunciar medidas. big brother is watching you.
uma última observação: tenho seguro de saúde através do trabalho. antes tive acesso a um pelo emprego da minha mãe. mais do que isso, raramente fico doente, creio mesmo que a última vez que estive num hospital foi em 2008, em frança. o que pretendo com tudo isto? que o particular seja a excepção, não a norma.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

as tuas escolhas. são tão tuas.


És um rei. Vive só. Escolhe um caminho livre
E segue por onde te levar tua mente livre;
Aperfeiçoa os frutos das ideias que te são caras,
Sem nada esperar por teus nobres feitos.
Em ti estão as recompensas. De ti és o juiz supremo.
Ninguém, com mais rigor, julgará tua obra.
Judicioso artista, isso te apraz?


Alexander Pushkin (1799-1837)

Andrei Tarkovski, «Esculpir o Tempo», Martins Fontes, 1998

via Trama

Bourdain em Lisboa comeu bifanas, conheceu pescadores e conversou com Lobo Antunes

Numa conferência de imprensa hoje em Lisboa, no final de uma semana de filmagens (a equipa parte amanhã), Bourdain falou sobre o que veio à procura – e o que encontrou. Não estamos aqui para mostrar de forma imparcial os melhores lugares de Lisboa, nem para dar a última palavra em televisão sobre os sítios mais importantes e mais pitorescos. Há outros programas de viagem que fazem isso. O que nos interessa é saber onde é que vocês vão às duas da manhã quando estão bêbados.”

Para saber isso, arranjam contactos em cada cidade que visitam e pedem sugestões. Primeiro, Bourdain, ele próprio um chef (embora tenha trocado a cozinha do restaurante Les Halles, em Nova Iorque, pelas viagens à volta do mundo para o No Reservations), fala com os outros cozinheiros. “Ser chef é como pertencer a uma máfia. Tenho esse luxo de poder falar com outros chefs e dizer ‘estamos a pensar ir a Lisboa, onde é que acham que devíamos ir? Onde é que devemos comer? Onde é que vocês vão quando estão com os copos?’”.

As outras pistas são dadas pelos tais contactos – os fixers – que têm uma tarefa difícil: perceber exactamente o que é que Bourdain e a sua equipa procuram. Em Lisboa, Bourdain sabia que queria falar com António Lobo Antunes. “É um autor que admiro muito”, explica. “E sinto-me muito honrado por ele aceitar. [No encontro, numa casa de fados] esqueci-me completamente das câmaras – só queria falar com o tipo que escreveu alguns livros que eu considero clássicos magníficos e intemporais. É uma conversa que hei-de recordar a vida toda.”

O outro encontro perfeito foi com a banda musical Dead Combo. Aí, Bourdain seguiu a sugestão das pessoas que contratou em Lisboa para o ajudar. “Quando falamos com essas pessoas, tentamos saber se elas entendem realmente o que estamos à procura. E perguntamos-lhes, por exemplo, se conhecem uma banda que seja perfeita para nós. Eles arranjaram uma óptima: os Dead Combo são exactamente a banda com a qual deveríamos estar.”

Quanto à comida, ficou-lhe na memória o polvo que foi pescar e comer com uma família de pescadores – “comemo-lo grelhado, com batatas cozidas, azeite, um pouco de alho, e vinho barato mas delicioso”. Camarões grelhados com sal e azeite – “de cortar a respiração”. E, claro, as bifanas de porco. “Mas também comi coisas óptimas, feitas por chefes modernos, que estão a tentar levar a comida portuguesa para o futuro, mas ao mesmo tempo honrando as tradições”, contou. “E isso é algo que, onde quer que eu esteja no mundo, me interessa muito: como é que se honra o passado nas tradições culinárias”.
Alexandra Prado Coelho in Público

Nota: Bourdain é isto mesmo. Aliás, muito do que se lê no Cozinha Confidencial não mudou com o tempo. Comer e beber bem, é o mote de vida. E depois procurar experiências novas e inovadoras. E depois... Bourdain é isto tudo. E muito mais. É um chef de topo empratado numa personalidade singular. Uma referência!

domingo, dezembro 04, 2011

no sábado a bola rolou até ao apito final

Sábado foi non stop:

O sacana do Filho da Mãe é muito bom. A sala da Sociedade de Geografia é sublime e Rui Carvalho um intérprete de luxo. Só me apetecia fechar os olhos e ouvir atentamente cada dedilhado. Para ver em concerto exclusivo.

Old Jerusalem. Francisco Silva podia ser um malvado personagem no Duarte & Companhia. Cabelo palha, óculos à anos 80 e uma voz singular. E, de repente, começa a música e a igreja enche-se de vida. A linguagem que as suas canções trazem parece de um outro mundo, bem longe do nosso. Uma América profunda em plena Igreja se São Luís dos Franceses fascina qualquer um.


Dead Combo. São muito provavelmente a banda portuguesa com maior potencial internacional. São óptimos executantes e tem uma imagem própria muito boa e bem definida. O concerto foi grandioso. Como já havia sido no clube do Intendente. E o público não arredou pé. Por Dead Combo ou à espera de James Blake? Prefiro pensar que foi pelo primeiro motivo.

3 Rapidinhas: Oh Land. Quando crescer quero ser uma Bjork. Até esse dia chegar, tenho uma boa voz, presença e muita garra. Já chega para animar uma festa, sem dúvida. Aquaparque. Quando crescer quero ser uma fusão de Heróis do Mar com XX. Até esse dia chegar, não tenho boa voz, quase nenhuma presença e não sei o que é ter garra. Nem chegam para encher uma sala pequena. Já tive festas de aniversário com mais convidados, já vi o estádio do Restelo com mais público. We Trust. Meio mundo à espera da música da moda e eu cheio de medo que o tecto da Casa do Alentejo caísse. Não caiu... E isso é que me interessa.

Toro y Moi. Música eletrónica nunca será a minha preferida mas quando ela é boa, eu gosto. Chazwick Bundick é bom. Mexe-se pouco mas deixa todo o público com dança e ritmo nas pernas. Um contra: pediu palminhas. Really? Mas não andas a ler o meu facebook? Apesar disso, sai do Mexefest com um sinal mais.

Para o ano há mais... Mas antes temos Primavera Sound e Alive, por isso vira o disco e toca novo.

«Doutor Futebol»

 
Nunca encontrei nenhuma pessoa com quem não aprendesse qualquer coisa. A frase é de Sócrates, filósofo grego, mas pode ser utilizada para definir a personalidade de outro Sócrates, o médico futebolista, que esteve no futebol como na vida. Formou-se em medicina aos 24 anos, mas o seu sucesso nos relvados levou-o a largar a medicina para se dedicar por inteiro ao futebol, no Corinthias e, claro, na selecção brasileira, foi muitas vezes capitão de equipa. Seria ele, no inicio dos anos 80, o grande impulsionador, entre os jogadores, da célebre Democracia Corintiana.
Quase 20 anos depois sente ter deixado nesse tempo de fascinação o melhor da sua vida terrena, mesmo dizendo agora que futebol nunca mais. Na profundeza de Ribeirão Preto, encostou a bola num canto do jardim de sua casa e, com 47 anos, mergulhou na outra face da sua vocação humana, a medicina. Conserva, porém, a mesma barba de culto esquerdista, simpatizante do PT, o partido de Lula, engordou um pouco, fuma para pensar melhor e confessa que, hoje, quase todos os seus amigos nada tem a ver com o futebol.
Nos relvados, Sócrates, famoso pelos seus toques de calcanhar, sempre transmitiu serenidade. Quando a bola ia parar a seus pés, parecia que o jogo ficava em slow-motion. Num ápice, porém, quando a começava a tocar, colocava a técnica ao serviço do espirito e levantava o Estádio. Quando chegou ao Corinthias, em 1978, apenas erguia um braço para comemorar seus golos. Depois, na euforia do Parque São Jorge vibrava como ninguém.  
Fez 294 jogos e 168 golos, entre 78 e 84. F oi 3 vezes campeão paulista, 79, 82 e 83. Nos anos do bicampeonato, foi ele a grande estrela, marcando 39 golos e liderando o grupo, dentro e fora da quatro linhas. Jogou no Corinthias até 1984, ano em que se transferiu para a Fiorentina. Em Itália, no entanto, nunca foi o mesmo que brilhara no Mundial-82. Realizou, uma pálida época, em 84/85, 25 jogos e 6 golos, regressando ao Brasil, para jogar no Flamengo, após um discreto Mundial-86. Tinha então 32 anos.
No futebol carioca, porém pareceu sempre desmotivado e acabou por abandonar os relvados mais cedo do previsto. Tinha a festa de despedida marcada para 15 de Setembro. Abandonou cinco meses antes, cansado do futebol.
Em finais de 1999, reapareceu, já com a barba mais branca, na Região dos Lagos, no litoral do Rio, num paraíso chamado Cabo Frio, como treinador de uma equipa da segunda divisão do futebol carioca: O Cabo Frio Futebol Clube. Levou como seu adjunto Leandro, o lateral direito da selecção de 82, e instaurou naquele pequeno clube uma filosofia que fazia lembrar os saudosos tempos da democracia corinthiana.  
Para começar, Sócrates libertou os jogadores dos estágios, coisa que ele sempre detestou nos seus tempos de futebolista e estimulou a discussão em grupo, realizando plebiscitos entre os jogadores sobre várias questões, consulta que estendeu á cidade para toda a população escolher as cores da nova camisola do Cabo Frio. Outra iniciativa foi colocar um quadro no balneário. Ali, todos os dias os jogadores teriam de colar uma manchete de jornal escolhida por eles próprios e discuti-la antes dos treinos. Convidou psicólogos para fazer palestras sobre sexo, doenças venéreas e política e adoptou a capoeira e a técnica chinesas Tai Chi Chuan na preparação física dos jogadores.
Detesta dar prelecções aos jogadores e no banco raramente o vemos a gritar. Passa quase todos os jogos de pé, fumando, com uma mão no cigarro e a outra num copo de café. O trabalho de preparação, para ele, faz-se durante a semana. Vestir um fato e colocar uma gravata é que parece estar fora de questão. Nos dias mais frios orienta a equipa de Jeans e camisa por fora das calças. Nos dias de calor, dirige de bermudas e chinelos. É assim, sempre foi, uma das personagens mais carismáticas do futebol brasileiro. 
Continua a fumar, passa horas nos bares da Praia do Forte e do Peró bebendo cervejinhas bem geladas, participando em rodas de viola e lendo o mais que pode. "Vou continuar sempre assim. Até quando? Até quando não tiver cara de rotina!”.
 
Luís Freitas Lobo in Planeta do Futebol, 16 Junho 2005

sábado, dezembro 03, 2011

resultado ao intervalo

1. Benfica perdeu.

2. You Can't Win, Charlie Brown começou com atraso. E a sala não me pareceu a melhor para tantos instrumentos.

3. Fanfarlo. Gostei muito. São mais rock e menos indie ao vivo. Ou então não. Falta-lhes alguma personalidade e presença em palco mas compensam com um espectáculo simples e despretensioso. Gostei muito. E os encores? Arrasaram com a sala.

4. Junior Boys já estava no fim e a banda no bus aquecia a noite. E muito.

5. Paus. Não gosto. E acho que estão overrated. Mas ia tentar à mesma ouvi-los. E o concerto até poderia ter potencial, se a estação não parecesse essa mesma estação em hora de ponta... Vergonha?

6. Maxime. Cheio. Vergonha? Não há vergonha. Na cara. Quando as produtoras de festivais dizem que os festivais são só para verdadeiros amantes de música, só para aquelas pessoas que aguentam tudo por um concerto. Mentira. Treta. Pouca vergonha. Isso não são melómanos, são apenas miúdos que não querem ver concertos, apenas gravá-los para partilhar no facebook. E nem vale a pena falar de Josh T. Pearson, pois não? Se o objectivo do festival é pôr todo o mundo a mexer convinha que avisassem o músico que haverá sempre movimento, ou não?

7. Venha a segunda parte...

sexta-feira, dezembro 02, 2011

is real?


Israel, Teatro Praga, Set. 2011
foto de Susana Pomba

outras vidas, outras músicas


Black Tables por Other Lives

quando o roubo faz mais sentido

«Não gosto do que escrevo. Escrevo pouco e não gosto. Sento-me numa café, tenho papel e caneta, escrevo um poema e não gosto. Penso em publicá-lo e não quero. Não gosto do que escrevo. Rasgo livros antigos e deito ao lixo toda a produção adolescente. Fecho algumas portas como quem sacode toalhas à janela. Não durmo de noite porque procuro frases exactas. Escrevo pouco, cada vez menos. Não gosto do que escrevo.»

Luís Filipe Cristóvão

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Hoje havia estranhos soundbites no CAM

«Não vemos a permanência da memória. Isso é que é um aconchego.»

terça-feira, novembro 29, 2011

welcome!

«Arrived Lisbon».
via Bourdain's twitter.

Combinamos alguma coisa depois?

x marks the spot

Manchester 2011

ouve o que te digo, rapaz.

mas ouve-me bem. pois este é um silêncio bem diferente daquele que esperavas. 
tu, que quando chegas a casa, cansado, e queres as doçuras de um gato apantufado, apenas encontras o ruído ininterrupto de um frigorífico vazio.
desiste, meu moço. os dias serão cada vez mais frios e a cidade mais vazia.
é este o futuro que te reserva. cheio de nadas e de silêncios. que a vida cosmopolita que compraste numa la redoute perdida, não passa disso mesmo: uma história que se renova nos sonhos do página-após-página.
ouve com atenção este teu velho: este dia acabou. apaga a luz e espreita a cidade. aquilo que vês lá fora é apenas o que é. são sombras, fantasmas e pinturas gastas. e tu? um mero reflexo fotográfico a p/b.

the sound of silence


Pat Metheney in What's It All About

segunda-feira, novembro 28, 2011

11 de Abril

Transpõe a porta de entrada um par que reconheço. Ela, das casas a norte. Ele, dos bairros a leste. Aqueles rostos porém, transportam uma impressão difícil de definir.
Entraram de mãos laçadas, anel doirando no dedo. Não os conhecia unidos. Desconhecia-os sequer conhecidos.
Não tenho vigiado os amigos. Tenho estado pouco atento à procura de percursos na calçada de cimento que fronteia o Café. Não fui eu que estabeleci que as horas que somam para mim, se multiplicam para os outros.

João Luís Barreto Guimarães
via Bibliotecário de Babel

numa outra noite qualquer

A exuberância daquele jovem DJ contagiava o público. Tinha um chapéu à Manchester, uma roupa à nova-iorquinotrendy e aquele jeito gingão à malandro de Buenos Aires. C. era alvo de atenções alheias. Mas não era o único. Numa das primeiras mesas daquele bar repleto, uma deslumbrante jovem, sozinha, sorria para ele. A cumplicidade entre os dois ia aumentando. C. já só olhava para M.. E ela sorria. Ninguém parecia reparar nesta inesperada história de amor, que se escrevia ali, à frente de todos. Eram assim as noites de C.. Inofensivas trocas de olhares que terminavam sempre com o acelerar do pitch do seu coração. A sua queda pelas paixões fáceis era tão inevitável como os shots que os mais novos insistiam em beber desenfreadamente ao balcão. Ele sorria ao ver esses tristes míudos. Logo ele, que insistia em beber o amanhã já hoje. M. também sorria. Pois era essa a única linguagem que dominava. Era esse o único ponto de contacto entre ambos: A inocência de acreditar que um sorriso faz o mundo mais bonito e simples.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Habemus Papam


Ou Habemus Nanni? É que é a ideia deste filme é tão boa que até parece ter uma ajuda divina...

quinta-feira, novembro 17, 2011

O mais grave

Nesta situação não é a TOTAL falta de conhecimentos dos jovens em questão, bem como de todos os que ficaram fora da montagem. Estes rapazes e raparigas são apenas mais um exemplo da falta de interesse e cultura geral que grassa nos mais jovens e - pasme-se a santa - nos menos jovens também.
Grave é que grande parte das pessoas que vêem e se riem destas respostas não saberiam também responder a estas, ou a outras semelhantes.
Grave é o factos dos jovens sentirem que saber de política não é importante. Que conhecimento é apenas aquele que está intimamente ligado à sua profissão ou futuro métier. Que a cultura geral não é assim tão importante.
Grave é que se fique preocupado por serem universitários e não se questione o sistema de ensino no seu todo. Nem se ponha em causa os pais, irmãos e afins destes jovens, que ausentando-se das suas obrigações, vêem na escola a única responsabilidade.
Porém, o mais grave é que todo este cenário não vai melhorar. Vai piorar. E muito. Vai piorar e pôr-nos ainda mais longe da Europa, da OCDE, do mundo dito civilizado. É que juntar ao vergonhoso desinvestimento na educação e cultura do actual governo, uma realidade familiar e social com cada vez menos tempo para «viver» en comunidade só irá potenciar respostas destas.
A mais preocupante destas respostas é o silêncio que elas contêm em si. É o não se fazer nada para mudar este cenário. E apenas rir dos outros.

domingo, novembro 13, 2011

O vírus da ópera-bufa alastra


Extraterrestres inocularam um vírus em Mussolini, ele morreu e o fascismo italiano caiu. Os partigiani e o povo vieram para a rua, todos cantaram Bella Ciao. Até a igreja social de Don Camillo pôs os sinos a repicar de alegria... Mas celebravam o quê? A vitória do Bem sobre o Mal? A coragem dos que venceram quem lhes negava a liberdade? Não, aqueles italianos saudavam um vírus que eles desconheciam, inoculado por discos voadores de cujas intenções eles ignoravam. O que contei é uma farsa, felizmente a história verdadeira é outra: Mussolini caiu porque as democracias se juntaram para isso e muitos italianos lutaram por isso. O que permite emocionarmo-nos ainda hoje com Roma, Cidade Aberta, filme de Rossellini, em 1945 - a História quando tem uma moral, uma explicação ou uma vontade colectiva vale mais do que acasos ou ficção científica barata. Não sei em que dia foi a cadeira de Salazar; o 25 de Abril, sim. Ontem, porém, surpreendi-me com multidões a festejar a partida de Berlusconi: "Festa frente ao Palácio do Quirinal [onde o primeiro-ministro apresentou a demissão]", titulavam os sites dos jornais italianos. Um vídeo mostrava Antonio Di Pietro, o célebre juiz que lutou contra a corrupção, eufórico: "Para casa! Para casa", gritava ele a Berlusconi. Mas Berlusconi caiu porque o povo o quis? Caiu com o que o juiz investigou? Não, caiu porque uns extraterrestres deram má nota a Itália. E isso celebra-se? 

Ferreira Fernandes in DN, 13. XI. 11

quinta-feira, novembro 10, 2011

Ideias lebres para salvar Portugal - O serviço público

A questão da RTP. A direita neoliberal pressiona, directa e indirectamente, o Governo para privatizar a estação pública. Pensa-se nisso, fala-se disso, mas, atenção: a SIC e a TVI vêm dizer que mais canais privados, não! Claro, como não compreendê-los, ninguém gosta de concorrência. O ministro Relvas recua, ou não fosse a SIC dirigida por um dos fundadores do PSD. E decide repensar o "serviço público". Escolhe uns quantos amigos para estudar a coisa, junta-lhe mais três ou quatro vozes mais independentes para disfarçar, e está constituído o grupo de trabalho. É claro que os três independentes acabam por sair a meio do processo, em desacordo com as decisões da maioria. O maravilhoso grupo, reduzido a sete (menos avenças se pagam), chega à conclusão que a ideia de "serviço público" não contempla uma aposta na informação. Isto é, privatiza-se um canal, e deixa-se o outro a carburar a concursos e a jogos da selecção de futebol de praia. E talvez finalmente o ministro Relvas tenha as suas "Conversas em Família", às 9 horas da noite, uma hora a ensinar ao povo que a pobreza é uma virtude e o trabalho uma panaceia essencial. Com a economia neste momento a caminhar em direcção aos anos 70, por que não termos a RTP dessa década? Faz todo o sentido.

Sérgio Lavos in Arrastão

domingo, outubro 30, 2011

no rescaldo do DOC 2011

É outubro. E desde há nove anos que há doclisboa. Mas não é só o cinema documental que se mostra. São mil e um diferentes mundos. Visões desiguais. Ideias singulares e projectos memoráveis. O que procuro? O que guardo?
A minha lista é feita de cinquenta por cento de puro acaso e uma outra metade que procura realidades que me são desconhecidas. Da África profunda à Ásia perdida, da Europa urbanamente árida de caras conhecidas aos animais selvagens que povoam paisagens avassaladoras. Há música vista em tela. Livros gravados para sempre, nesse andamento que é o «luz, câmara, acção».
O doc é essa acção de todos os anos fugir de Lisboa sem sair daqui, e refugiar-me, sem pudor, nesse lugar comum. E é pensar que todas as queixas que nos enchem os dias são uma treta, pelo menos enquanto este mundo for tão desigual.

21 de outubro

Crónicas de Moçambique,  21h15,  Londres 1
Licínio de Azevedo é um conhecido cineasta e escritor brasileiro. Filmou (como poucos) os momentos da independência moçambicana e os tempos que se seguiram. Do interior à cidade, dos revoltosos aos que receberam as mudanças não mudando nada. Filmou pobres e menos pobres. Este documentário mostra o processo criativo e de realização de Licínio mas permite também uma viagem ao Moçambique profundo, nestes últimos 20 anos. Destacam-se as pequenas pérolas, como a da senhora que confundiu ficção com realidade e acreditava que o papel que desempenhara de noiva do brasileiro, lhe garantiria uma vida melhor em Maputo.

22 de outubro

A Nossa Forma de Vida, 17h00, Culturgest GA
A vida a dois é feita - vezes de mais -, de monólogos partilhados. De silêncios desejados, constantemente cortados por opiniões a avulso. Dois idosos; um comunismo que ultrapassa a música na árvore de natal; e as opiniões sobre a crise e as manifestações que enchem ruas. Cusquices e inquietações que transbordam os dias e enchem as semanas. Os avós do realizador deste filme são o paradigma de uma velhice que é bem mais do que um estereótipo. Divertidos, carrancudos, irónicos, mordazes, inquietos. Todo um mundo. Fechado numa casa. Num prédio com vista para o rio que não para de correr. Como a vida deles. A nossa forma de vida é a negação dos recorrentes filmes portugueses plenos de crianças infelizes, pobreza, abortos, drogas. Este documentário é um pequeno apartamento que é do tamanho do mundo. E tem a forma da nossa vida.

23 de outubro

In Film Nist,  18h00, São Jorge, São Jorge 1
Estás proibido de filmar! Pode um realizador ser proibido de filmar e viver? Jafar Panahi, um dos maiores nomes do cinema iraniano, mesmo sendo tão diferente de Kiarostami, é uma referência no cinema da actualidade. Só que um dia as suas opiniões foram demasiado… Demasiado para uma ditadura. A pena? Prisão por vários anos e a interdição de filmar. O caso faz lembrar Leni Riefenstahl mas também acabam ai as semelhanças. O que pode então fazer uma pessoa que vive para filmar? Filmar por outros. Contar um argumento. O enredo. E fazer disso um filme. Mais do que a qualidade deste documentário, o que está aqui em causa é uma postura. Uma atitude. Um exemplo.

Michel Petrucciani, 20h00, São Jorge 1
Michel Petrucciani não é o maior pianista na história do jazz. Nem sequer procuro com esta afirmação uma piada fácil. Repito, não é o maior pianista deste género. Mas é, inquestionavelmente, um dos mais importantes a ter surgido nos últimos 40 anos. A figura assaz singular ajudou à sua fama. Tal como a sua personalidade envolvente e um humor contagiante. Porém, o principal na sua (curta) carreira foi uma destreza técnica como poucos. Dizem que era graças ao seu tamanho e peso. Que atingia um ritmo que poucos conseguem. Talvez. Mas o seu ritmo e estilo próprio não têm igual. E este documentário consegue muito bem passar essa ideia.

24 de outubro
 
Cinema Komunisto, 19h15, Londres 2 
O cinema tem sido ao longo da História uma das mais poderosas ferramentas das ditaduras, sejam elas de esquerda ou direita, e este documentário faz um pouco de luz sobre esse fenómeno. A Jugoslávia de Tito. «Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido.» Ou seria um cinema? Um projecto de cinematográfico. Cinema Komunisto faz uma recolha (com bastantes toques de humor) dos principais passos na história do cinema jugoslavo. Da criação de um mega-estúdio, a atores e realizadores marcantes, fica bem patente a importância – e até paixão – que Tito dava ao papel do cinema.


25 de outubro

Hip Hop, le Monde est à vous, 20h00, São Jorge 1
Não há torre de Babel mas há uma língua universal. Dizem que há várias. Que a música é a língua universal final. Do hip hop diz-se o mesmo. Por cá canta-se: «Não percebes o hip hop», e é verdade que muitos não o entendem. Neste documentário também não encontramos respostas. Apenas olhares. Da Alemanha a Israel, dos States a França, do Mali a qualquer canto pobre no mundo. É um estilo musical onde, como poucos, a condição social é tudo. Pobreza, diferença e indiferença, abandono, revolta, são estados de alma que procuram a rima perfeita. Mesmo que não rime. A última música é pirosa, confere. Há momentos fracos, confere. Mas há hip hop visto por quem o faz e isso não é assim tão frequente.

End of the Century: the Story of the Ramones, 22h00, São Jorge 1
Pearl Jam Twenty É um documentário deveras interessante. Gosto do som da banda. Prezo a forma como sempre se engajaram politicamente. Foram e são uma referência. Para mim. E eles têm referência importantes como… Os Ramones. Gosto menos. Mas são importantes. Muito. E este documentário? Bem documentado. Tem bons momentos. Mas não marca. E mais não digo.

27 de outubro

Client 9: The Rise and Fall of Eliot Spitzer, 21h45, Londres 2
O principal documentário político do doc2011 centra-se na figura de Spitzer, o governador que tinha tudo para ser o próximo presidente dos EUA. Tinha carisma, postura, e colocava-se do lado do «povo». Todavia, não é fácil pôr em prática medidas políticas que influenciam a economia e a alta finança sem criar inimigos. Estes foram surgindo e, naturalmente, começaram a trabalhar em conjunto e sintonia. A queda de Spitzer tornou-se, por isso, uma questão do tempo. Um rabo de saias acabou por ser a causa, mesmo que o próprio assuma que não houve esquema dos republicanos ou dos seus inimigos. Mas o documentário ultrapassa em muito a figura de Spitzer, avança também sobre a questão dos media e das discutíveis relações entre política e grupos económicos, como a AIG. (ler post de Daniel Oliveira)

28 de outubro

Pixinguinha; Onde a coruja dorme, 21h00, São Jorge 3

Noite de música brasileira, Da antiga e da mais recente. A figura de Pixinguinha, para muitos desconhecida, é recuperada nesta curta feita a partir de uma bobine perdida. Um exercício no mínimo interessante. Tal como surpreendente foi o documentário seguinte dedicado à figura de Bezerra da Silva, um dos maiores nomes do pagode. Durante mais de uma hora entra-se no mundo de um conjunto de músicos que também são técnicos de ar condicionado, pintores ou alcoólicos profissionais. E as letras do pagode? Cornudos que tiram os cornos como chapéus, sogras que são cabras simpáticas, amores desconfiados, copos, maconha, etc. Falta alguma coisa? Sim. Ver.

Feitas as contas, ficam duas certezas: A nossa forma de vida ganhou merecidamente um prémio; para o ano há mais doc.

Portugueses estão a comprar menos livros

No primeiro semestre de 2011 os portugueses compraram menos livros do que no mesmo período de 2010. A descida no consumo foi de 3% e é bem menor do que aconteceu em outras áreas como a electrónica de consumo (menos 13%), o entretenimento (menos 13%) , ou a informática (menos 8%).

Estes dados foram divulgados por Ricardo Anaia, da consultora GfK, na apresentação "O Mercado dos Números" que fez no Congresso do Livro, que hoje terminou na Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores.

Numa amostra de cerca 75 por cento do mercado, já que a Gfk trabalha com dados que recebe das grandes cadeias de livrarias e de distribuição (como os hipermercados), ficando de fora algum do retalho independente, durante os primeiros seis meses deste ano venderam-se em Portugal 6,2 milhões de livros. Em 2008 foram vendidos 13,8 milhões de livros. Em 2009, 14,3 milhões e em 2010, 14,6 milhões.

Este ano, até Junho, foram facturados pelo mercado livreiro português 70 milhões de euros. O ano passado a facturação foi de 170 milhões; em 2009, de 168 milhões e em 2008, foram facturados 156,3 milhões de euros.

Num país onde se editam 55 livros por dia (este número refere-se ao ano passado), compramos mais livros em Julho, para ler nas férias, e durante o período que antecede o Natal. Em Outubro, também há um pico de compra de material de apoio escolar (dicionários, gramáticas, etc).

Quanto a livros mais vendidos, vê-se que os portugueses compram mais ficção e a colecção infanto-juvenil "Uma Aventura" aparece no top em dois anos consecutivos. Por exemplo, no primeiro semestre do ano passado, entre os livros mais vendidos em Portugal estão "Uma Aventura no Pulo do Lobo", de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães (ed. Caminho); "D. Amélia", de Isabel Stilwell (ed. Esfera dos Livros); "Juntos ao Luar" e "A Melodia do Adeus", de Nicholas Sparks (ed.Presença), "Nunca me Esqueças", de Lesley Pearse (ed.Bis); "Eclipse", de Stephenie Meyer (ed.Gailivro); "Caderneta de Cromos", de Nuno Markl (ed. Objectiva) e "Aproveitem a Vida", do actor António Feio (Livros D'Hoje).

No primeiro semestre deste ano, entre os títulos mais vendidos surge "Uma Aventura na Ilha de Timor", de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães (ed. Caminho); "Diário de um Banana - Um Dia de Cão", de Jeff Kinney (ed. Booksmile) e " A Mentira Sagrada", de Luís Miguel Rocha (Porto Editora).

Em 2008, só um título vendeu mais de 100 mil exemplares e em 2009 e 2010 isso não aconteceu a nenhuma obra publicada em Portugal. Em 2008, dois títulos venderam mais de 50 mil exemplares e no ano anterior, doze títulos ultrapassaram a barreira da venda de mais de 50 mil exemplares. O ano passado só seis obras publicadas em Portugal ultrapassaram as vendas de 50 mil unidades.
in Público, 30 X 11

nota: podia ser bem pior. agora há que manter estes valores e tentar melhorar (mesmo que aos poucos) a qualidade dos livros comprados e lidos.

sábado, outubro 29, 2011

parece que deixei umas palavras

na casa de outros:

quando não encontro os teus olhos

Aveiro 11

quando não encontro os teus olhos
é toda uma manhã que vem órfã de um deus qualquer.
é como uma boca. a tua boca.
que vem ardente de um lápis qualquer.
e não encontro o jeito
de me perder nessas setas quebradas
e ser apenas mais um riacho teu.

falsas mentiras

ele repete as mesmas histórias todas as tardes. já o conhecem. quer seja na sapataria, na padaria, ou até no ferreiro. parece que não há maneira das suas mentiras repetidas se tornarem verdades, verdadeiras, verdadinhas. sabes que sinto alguma pena por ele. dizem que é feio ter pena, mas também sei que é mais feio mentir numa mentira. já só quero que ele descubra que o mundo não é uma matemática de 5º ano, daquelas onde menos com menos dá mais. já só quero que ele me desampare a loja que ainda tenho tantos espelhos por cortar.

sexta-feira, outubro 21, 2011

ó sr. procrastinador...


pára de ver estas porcarias e vai mas é trabalhar. mas antes faz um chá. ah. e boa sexta-feira!

nota mental

um passo de cada vez.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Die Grosse Sonate


Joëlle Léandre e Pascal Contet

Uma carta fora do baralho

Afinal, Portugal não é a Grécia. É o Chile. De há 30 anos. Não vamos apenas recuar no rendimento per capita, mas também na História, na integração europeia e, seguramente, na qualidade da democracia. Em prol de quê? - Em prol de uma fé. E a troco de quê? - A troco de uma mão cheia de nada.

Deixem-me personalizar porque é caso para isso. Conheço o pensamento de Vítor Gaspar, porque várias vezes me cruzei com ele, em seminários, e porque ele se interessa por história económica e várias vezes entrámos em diálogo. Sempre concordámos em discordar. Também conheço o seu pensamento porque por onde ando há outros economistas assim, também dos bons. Posso talvez dizer que em cada 100 economistas ou historiadores económicos que conheço, cinco pensam como o ministro das Finanças e um é fora de série. A presença de um deles num debate é sempre fonte de animação.

Mas há dois grandes problemas. O primeiro é que estes economistas, no fundo, não estão muito interessados em causalidades. Estão mais preocupados com equilíbrios. Não acham importante determinar se vem primeiro o ovo ou a galinha. Há um défice, um desequilíbrio? Corrija-se. Mas as causas são… Não interessa, corrija-se para recuperar a confiança, criar um círculo virtuoso e restabelecer o crescimento. Onde foi isso visto? Aqui e ali. Mas como prova que a recuperação foi o resultado da contracção, se o mundo entretanto mudou? Porque a teoria assim o diz.

O segundo problema, porventura maior, muito maior, é que esses economistas não chegam, nem perto nem longe, aos governos dos países avançados e europeus como Portugal. Os ministros das Finanças europeus são políticos, não teóricos e sobretudo não teóricos da fasquia dos 5%, brilhantes, é certo, de Vítor Gaspar. Quanto muito chegam a governadores de bancos centrais. Tivemos azar.

E tivemos azar por culpa de muita gente e, em última análise, do actual primeiro-ministro. Ele ouviu à saciedade que era preciso "mudar o rumo", que vivíamos "acima das possibilidades", que era preciso um "corte radical com o passado". E acreditou nisso tudo. Primeiro, acreditou nas "gorduras do Estado" - até ver que as havia, mas que eram macroeconomicamente marginais. Ficou sem eira nem beira. Até que Vítor Gaspar lhe apresentou um plano, o único plano que havia para pôr tudo em linha como recorrentemente lhe pediam.

O plano de Vítor Gaspar já chocou muita gente, porque é chocante. E não o fez só à esquerda, pois o PSD também ficou chocado e muito. Mas não se consegue mexer. Nem o PS. A principal razão porque o plano é chocante é que ele assenta numa carta que não estava no baralho: a contracção sem limites de salários - e mais aumento de impostos. Assim qualquer um sabe governar.

Passos Coelho não parece ter percebido o que se estava a passar, como revelam duas das suas declarações. A primeira foi quando disse que os funcionários públicos "ganham mais 10 a 15% que trabalhadores privados". Sim, ganham, mas não todos e porque os de rendimentos mais baixos ganham mais e as mulheres ganham o mesmo que os homens.

Se queria corrigir essa "injustiça" teria de ter feito de outro modo. E não podia, pois tinha de ir aos salários mais baixos. A segunda foi quando disse que a medida era para dois anos, o que o ministro das Finanças prontamente desmentiu. Obviamente. Um choque destes para durar tem de durar. Não há milagres.

Ou seja, este Orçamento equilibra as contas, segundo o memorando da troika, à custa de uma contracção permanente, feita num acto, brutal, do rendimento disponível. E a troco de quê? Já lá vamos.

Passos Coelho ainda será dos poucos que acredita que a culpa disto tudo não é dele, que "não tem de pedir desculpa aos portugueses". Vítor Gaspar já sabe que não, claro. A dimensão do "ajustamento", como lhe querem chamar é de tal forma grande, é de tal forma brutal que, como é evidente, ultrapassa qualquer estrago que tenha sido feito pelo Governo anterior. Percebe-se esta lógica simples, não se percebe? Julgo que não é preciso ir mais longe.

O actual Governo, uma vez por todas, tem de assumir as suas opções. As suas opções radicais. E profundamente anti-europeias.

O mantra por trás destas opções é também, por seu lado, incompreensível. Trata-se de "recuperar a confiança dos mercados". Este mantra, dito em 2011, não revela uma completa falta de percepção do que se está a passar na economia internacional? Revela.

E, claro, ninguém com tanta fé notou que os mercados nada notaram sobre o que por cá se está a fazer. Inclusivamente, até podem responder negativamente, esses mercados, por causa da enorme contracção que aí vem, desta desgraçada economia.

Mas insistamos nos mercados e voltemos ao Chile. Nos anos 1980, um grupo de rapazes de Chicago entrou pela ditadura chilena adentro e "cortou com o passado", fazendo um "ajustamento profundo". Os pormenores não cabem aqui, mas quatro questões importantes cabem: o país era então uma ditadura; não estava integrado num espaço económico e monetário alargado; havia uma enorme taxa de inflação; e os mercados internacionais não estavam de rastos. E o desemprego subiu a perto de 25%, sem subsídios, claro, que isso é para os preguiçosos.

A estratégia de Vítor Gaspar, sufragada por Passos Coelho, é profundamente desactualizada e mesmo errada. Ela insere-se num quadro mental em que os gastos do Estado provocam inflação, quando estamos numa fase de baixíssima inflação; pressupõe o financiamento nos mercados internacionais de capitais, quando estes estão retraídos em todo o Mundo.

Há alternativa? Claro que há. A Europa não se gere pelos 5% de ideias económicas que infelizmente foram parar ao Ministério das Finanças. Nem de perto, nem de longe. Passos Coelho tem muito que aprender. Já está é a ficar sem tempo para o fazer. Vítor Gaspar tem um bocado de razão em pensar como pensa. É isso que acontece sempre, entre economistas. Mas deitou essa razão por borda fora, ao ir tão longe, tão fora da realidade do país, do euro e da Europa. Precisamos de recentrar o País, para o que convém começar por reconhecer as causas das coisas.

Pedro Lains in Negócios online

quarta-feira, outubro 19, 2011

O Guerreiro Verde


O Guerreiro Verde - 20 Outubro 2011 - 18h30 - Ler Devagar - LX Factory

«Este livro é o relato da vida de Manuel Pinto. Apesar de ainda só contar quarenta e cinco anos, este portuense, nascido na freguesia da Campanhã, já leva uma vida bem cheia de histórias, peripécias e aventuras, sobretudo desde que em 1988 se fixou em Amesterdão, onde funciona o quartel-general da Greenpeace. Manuel Pinto começou cá por baixo, pela base, como voluntário, quase anónimo, a colaborar em pequenas iniciativas. Os seus conhecimentos de electrónica, aliados a um invulgar espírito engenhoso, ampliados pela capacidade seja de liderar pequenas equipas, seja de planear e organizar acções de maior fôlego, levaram a que fosse cada vez mais requisitado. Espírito generoso, quase juvenil, infatigável e de enorme disponibilidade, meio poliglota, disposto a suportar sacrifícios (alguns bem incómodos, como a violência policial e até a cadeia), tornou-se a pouco e pouco num profissional. E sabe-se como o combate dos movimentos ambientalistas, ecologistas e pacifistas implica cada vez mais uma profissionalização dos seus quadros, sob o risco de perder em eficácia e impacto. Neste mundo globalizado, os combates são cada vez mais duros e intensos, implicando o recurso a meios humanos, materiais e financeiros crescentes – e a Greenpeace, como todos os movimentos de cariz semelhante, procura aliar o pragmatismo à utopia, não devendo descurar nem a lisura nem a transparência de processos.»

José Pedro Castanheira