sexta-feira, fevereiro 25, 2011

A ditadura das vendas

Como editora num grande grupo, no momento da decisão sobre a publicação de uma obra, tenho sempre um tirano a ciciar-me ao ouvido que os livros têm de se vender. Sei que fui eu que o criei como uma espécie de autocensura, que me permite ter os pés bem assentes na terra e recusar o que sei de antemão vir a ser um fiasco e, por outro lado, me puxa pela imaginação para tornar mais vendável o que, à partida, não tem grande potencial comercial mas merece, inequivocamente, ser dado à estampa. Mas a ditadura não é de hoje e aquilo que se vende impera sobre o que é bom há já muitos anos. Em 1996, despedi-me da editora onde trabalhava e – desempregada que fiquei – comecei a responder a anúncios, dentro de actividades mais ou menos compatíveis com as funções que poderia desempenhar. Um deles dizia respeito à vaga para director de publicações num grupo de jornais e revistas, e fui chamada para uma entrevista pela empresa que se ocupava do recrutamento. Porém, assim que cheguei, disseram-me assim à queima-roupa que tinha sido convocada por ter o currículo que tinha, mas não ficaria com o lugar pela mesma razão... Confundida, quis saber porquê. Explicaram-me então que se tratava de contratar alguém que dirigisse quatro publicações, entre as quais figuravam as revistas Maria e Nova Gente. E que, embora as minhas habilitações e experiência editorial obrigassem a que fosse entrevistada, a verdade é que o meu perfil indicava que tentaria melhorar o conteúdo e subir o nível dessas revistas, quando o que se pretendia era mantê-los para que se continuassem a vender...

Maria do Rosário Pedreira in Horas Extraordinárias

nota: é que nem vale a pena dizer mais nada...

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

márcia...


provavelmente um dos melhores toca e foge: uma bela banda e um sítio excelente. a ver e rever. ouvir e reouvir.

e o Prémio Literário Casino da Póvoa vai para...

Música
não há aqui mais que a que faço,
a que eu faço e desfaço
à boca do silêncio.
Enquanto lá muito em cima,
em não sei que esferas,
cantam uns anjos que não ouço
mas fazem retinir as minhas mãos.

Pedro Tamen
in O LIVRO DO SAPATEIRO, Publicações Dom Quixote, Março de 2010

terça-feira, fevereiro 22, 2011

[queima o sol]

queima o sol quando a pele seca. dizem que há um calor que enternece, quando o dia fica ali pairando pela noite dentro. chamo-te para casa e não vens. só mais um pouco, dizes. aceno que sim. as brasas já estão boas. viro a carne e, contudo, é a minha pele que fica mais vermelha. "vens?", pergunto uma última vez. nada. e acabo levando o silêncio para dentro de casa, num daqueles pratos velhos rachados.

What I have to offer

What I have to offer
Well, there's a lot
Now I'm a modest man
But look at all I got

For all the wear and tear

I look okay
I got good manners
And I make good, good pay

And you know I'm all full of love

For you

What I have to offer

Well, there's so much
I care and need your really
Tender touch

I got a pleasin' disposition

And I don't care about
Football or fishin'

And you know that I'm all full of love

For you

What I have to offer

Well, check it out
I've learned some things
And I know what it's about

I'm quite discerning and

I"m pretty smart
It takes an awful lot to
Win my heart

But you know that I'm so full of love

For you.


Eels

best post-match reflection ever...

Sporting: it's not you, it's me
Como sabereis, a Sport TV transmitiu na noite passada um repousado treino de conjunto a que o Benfica se submeteu em Alvalade com o intuito de descontrair os jogadores para a Liga Europa e ensaiar em simultâneo situações técnico-tácticas específicas, precavendo a eventualidade de o Estugarda se apresentar ao jogo de quinta-feira com um onze inicial formado por elementos do seu escalão de Juvenis Paraolímpicos. Sabereis também que, no vasto mundo lá fora, Mubarak se demitiu antes de Paulo Sérgio, embora do ponto de vista humanitário os pretextos para as respectivas demissões sejam equivalentes.

Pergunto-me, no entanto, se sabereis da epifania que eu experimentei há duas semanas, no lugar 22F da Bancada CGD (topo) do Estádio Alvalade XXI, por ocasião daquilo que a imprensa descreveu falaciosamente como um "jogo de futebol" contra a Naval. A batofóbica localização permitiu-me pela primeira vez em muitos anos perceber, não apenas o "sistema táctico" do Sporting (nessa noite, um ousadíssimo 4-0-3), mas o seu ainda mais importante "modelo de jogo", algo que nunca esteve perto de me acontecer, por exemplo, na última época de Paulo Bento. A determinada altura na primeira parte, e pela sexta vez em quinze minutos (muito para lá do acidente estatístico) notei quatro jogadores do Sporting - os três avançados e um dos médios - alinhados a régua e esquadro com o quarteto defensivo da Naval, completamente estáticos se não considerarmos "movimento" uma sucessão pinabauschiana de espasmos nas omoplatas em flirt sincronizado com a bandeira do árbitro auxiliar, enquanto um improvisado quarterback geriátrico (Polga ou Pedro Mendes) esperava o momento certo para torpedear a linha de fundo com isco para os galgos. A sexta tentativa de executar esta jogada-padrão fracassou como as cinco anteriores, mas o mais impressionante não foi isso; o mais impressionante não foi sequer a compreensão de que aquilo eram jogadas planeadas, que havia ali trabalho; o mais impressionante foi reparar que essas seis jogadas não teriam resultado em ocasiões de golo mesmo que nenhum jogador adversário estivesse em campo. (E estavam, como se veio a provar). O que aconteceu ao futebol do Sporting esta época configura uma situação sem precedentes na história da modalidade: implementou-se um conjunto de processos de jogo que já seriam potenciais fósseis teóricos na terceira divisão inglesa, que não têm qualquer utilidade prática, e que ainda assim continuam a ser repetidos - e isto é que é verdadeiramente revolucionário - com evidente decréscimo de qualidade de jogo para jogo. É a coisa mais feia do mundo.

O que nos transporta para a situação do Grimi, um problema pelo qual eu só não sou responsável porque nunca tive responsabilidades, mas cuja génese aplaudi que nem um maluquinho. O Grimi, resumidamente, além de ser o pior jogador de futebol alguma vez nascido em território sul-americano, é um activo da SAD que custou mais ao Sporting do que o Maxi Pereira, o Fábio Coentrão e o Fucile juntos custaram a Benfica e Porto. Mas no Verão de 2008, eu estava plenamente convencido de que o Grimi era um bom investimento, e que o problema da lateral-esquerda estaria resolvido pelo menos durante meia década. (Estou a falar-vos das profundezas da mesma cabeça que acreditou, até cinco minutos antes de começar o Mundial, que o Coentrão era o ponto fraco da selecção portuguesa; percebo tanto de "esquerdas" como a Helena Matos). Se um adepto moral e intelectualmente infalível como eu é capaz de semelhante jackpot de opiniões catastróficas, o que esperar de pessoas normais, ou mesmo de dirigentes do Sporting?

O Grimi, vocês estão a ver bem o que é o Grimi? Ontem, perto dos 5 ou 6 minutos de jogo, o Sálvio aplicou ao Grimi duas brutais fintas curtas e deixou-o para trás com um arranque ciclónico. Na repetição do lance, reparei que não fora o Sálvio, mas sim o Maxi Pereira. Isto não deixa de ser um elogio ao Maxi Pereira, mas chamo a vossa atenção para um pormenor mais importante, que é o de o Grimi ser alguém que quando é fintado pelo Maxi Pereira faz o Maxi Pereira parecer o Sálvio. Esta conclusão foi reforçada na jogada seguinte quando o Grimi foi de facto fintado pelo Sálvio e fez o Sálvio parecer o Overmars, o que sugere uma décalage óptica progressiva, e potencialmente infinita, entre a realidade real e a lânguida realidade alternativa na qual Grimi funciona como uma espécie de prisma e acelerador cósmico. E funciona para os dois lados: suponho que a única maneira de me parecer que o Grimi acabou de ser fintado pelo Maxi Pereira é o Grimi ser fintado pelo Urbano Tavares Rodrigues.

Este lamentável estado de coisas não foi suavizado pelo árbitro, que, numa desavergonhada repetição daquela farsa no jogo com o Porto, conseguiu sabotar toda a organização ofensiva do Sporting expulsando um central adversário. Não quero com isto arranjar desculpas: apesar de ser mais fácil anular o Sporting jogando com dez, admito que mesmo sem a habilidosa expulsão do Sidnei o resultado seria igual.

Este pode muito bem ser o plantel mais fraco da história recente do Sporting, mas a falta de qualidade tem sido potenciada com rigor soviético por um modelo de jogo - e nesta altura não me resta dúvidas de que é mesmo um modelo intencional, com dedo do treinador - baseado em longas parábolas para desmarcações espectrais de um avançado que além de não ter arranque ou pique curto, encara a armadilha do fora-de-jogo como uma tecnologia misteriosa proveniente de uma civilização superior: como se não houvesse nada a fazer. E ao contrário dos macacos do Kubrick, aquilo é gente que não se prestará a nenhum salto evolutivo por mero contacto com artefactos alienígenas. Nenhuma das bolas primitivas arremessadas pelo Polga na direcção geral da área adversária corre o risco de se transformar numa nave espacial em plena trajectória. O máximo que podemos esperar é que se transforme em osso e se espatife nos cornos do Postiga. Muito embora, se bem conheço este clube, o mais provável é que lhe passe a "escassos centímetros" do crânio. Entretanto vai-me doendo tudo cá dentro, e acho melhor darmos um tempo.

by Rogério Casanova in Pastoral Portuguesa

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Mínimas

O verdadeiro céptico não é o que duvida de tudo; é o que procura a solução depois de a ter encontrado.

sábado, fevereiro 19, 2011

[pouco tenho]

Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.

Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam

a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
a memória a estiolar.


Eduardo Pitta

no flashlight



by Mount Eerie

I can only love those dark hills
because I live in the day.

I can only see the mountain
because I live in town.

I only (claim to) love night
because I have only smelled it.

Actually living in the night means not talking about it.

I can only say 'no flashlight'
because once I accidentally forgot it.

Actually living in the night means actually walking
in the dark, means

to find caves in song.

1, 2, 4. experiência

procuro a palavra que me traga o sabor ausente no palato. leio o quadro na tua parede. faço a tosta na cozinha. e espero. um d que me faça sorrir no fim do abc. vale a pena esperar? vale a pena ser um sabor de gelado querido pela criança. uma daquelas que teríamos. não sei quando. não sei. já não vejo. e não penso as palavras do dicionário, que insistes em deixar no trabalho. agora é tarde. traz o futuro à mesa e faz-me sorrir, que o rum era de segunda e tenho uma triste mágoa no bater de coração. quero uma outra cerveja. mas não daquelas que bebemos esta noite. quero antes uma birra daquelas. das que não sei mais beber, como a palavra início.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Waiting For Godot: The Video Game


Se Samuel Beckett tivesse feito um videojogo na década de 80...
(via Bibliotecário de Babel)

O país onde um não é igual a um

Em 1928, o surrealista belga René Magritte pintou um cachimbo e escreveu: "Isto não é um cachimbo". E não era, era a pintura de um cachimbo. Ontem, milhares de jovens foram para as ruas belgas comer batatas fritas. Mas não comiam batatas fritas, faziam uma revolução contra o facto de hoje, sexta-feira, baterem o recorde mundial de país sem Governo (250 dias). Adoptaram as batatas como símbolo revolucionário de unidade. O país está dividido em valões e flamengos, duas línguas, mas o mesmo gosto pelas batatas fritas. Diz o preconceito que alimenta as anedotas que todos os belgas, seja ele valão ou flamengo, andam pelas ruas segurando um cone com batatas fritas. E se o segura com a mão esquerda e lhe perguntarem pelas horas, ele, valão ou flamengo, ao consultar o relógio espalha as batatas fritas pelo chão. Diz ainda a anedota que, pouco depois, o belga de novo com o seu cone de frites, se voltarem a perguntar-lhe pelas horas, ele, valão ou flamengo, não se deixa enganar: faz um manguito... e espalha as batatas pelo chão. Mas, pelos vistos, não chega aos valões e flamengos o destino comum de vítimas de anedotas, continuam divididos e por causa disso sem Governo. Os jovens de ontem, idealistas, tinham uma palavra de ordem, em flamengo e em francês: "Een=Un", um igual a um. Mas, em 2005, quando houve o concurso do maior dos belgas, Magritte ficou em 9.º (na Valónia) e em 18.º (na Flandres).

Ferreira Fernandes in DN, 18.II.11

terça-feira, fevereiro 15, 2011

afinal é uma segunda, fria.

«Caí no silêncio há vários dias. Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas as aves que ninguém sabe de onde partiram.»


Vasco Gato, Rusga, Trama, 2010

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

A história da cantiga, da manifestação e dos amigos de conveniência

Ponto(s) prévio(s): Não tenho contrato, venho de um estágio e espera-me provavelmente outro. Sou licenciado, aliás até sou mais do que isso. Não sou de forma alguma contra os partidos e a política, acho apenas que estes poderiam ter melhor frequência. Sou mais um daqueles que é retratado na música dos Deolinda e, contundo, não o sou…

Passado este preâmbulo necessário, ou mesmo obrigatório, posso passar ao que me dá tanta vontade de escrever: a cantiga dos Deolinda e a manifestação de 12 de Março. Confesso que talvez possa parecer um velho quizilento, um conservador a cheirar a mofo ou mesmo um reaccionário com toques de naftalina, mas não há muita paciência para estas cantigas, estas manifestações e para este “novo coro” dos terrivelmente preocupados com a geração dos “mil euros” que não recebe nem metade, com os jovens que estudaram mais do que nunca, ou com aqueles que não saem de casa dos pais antes dos 40.

Dizer que se é “parva por estudar”, e embora se use ironia, é meio caminho, num país como Portugal, para todos optarem pelos cursos profissionais, arranjarem um negociozinho - preferencialmente um café de bairro -, pedir o subsídio de desemprego, ou um arranjar um atestado médico e passar os dias no “bem bom” que a primavera está aí a chegar e temos um sol mesmo à maneira.

Não se é parvo por estudar. Nunca se será. Parvo é um sistema que foi construído de uma forma enviesada, onde as capacidades, competências e qualidades não são o essencial. E não falo apenas das cunhas… mas dos elogios constantes aos que não são parvos e trabalham menos que outros, passam as culpas aos vizinhos, e enganam o estado. Parvos são aqueles que não lutam pelo brio profissional e pelo reconhecimento do valor de cada um. Porque meio mundo é contra a “cunha”, excepto se for a sua ou do familiar, amigo, vizinho, compadre ou todo aquele que lhe dê algo em troca. Parvos são aqueles que acham que o Isaltino, o Alberto João, etc. e afins, roubam mas ao menos fazem algo pelo povo. Sim, porque uma rotunda compensa plenamente a fuga aos impostos e o esperar meia-hora na fila do médico. Parvos são aqueles que estudam, nunca vêem o quadro completo e criticam sempre o sistema nas suas características erradas. Parvos são aqueles que são contra os recibos-verdes (e o monstro-papão-estado) e não percebem que é o patronato que os usa em excesso e indevidamente, porque o sistema até era positivo. Parvos são aqueles que acreditam que uma manifestação mudará algo. Parvos, mas sobretudo demagógicos, são aqueles que acham que a situação actual se compara à da noite de 24 de Abril. Parvos são aqueles que vão na cantiga das “ninfas” jornalísticas e não se apercebem que quem, como José Manuel Fernandes, critica hoje o estado actual da sociedade é quase sempre responsável pelo “estado a que chegámos”.

E parvo sou eu. Porque sou ingénuo. E porque sou realmente pequeno. Porque acho que um texto pode mudar algo. Que uma opinião serve para aclarar pensamentos. Que ainda acredita que quem ouve e repete esta bela cantiga, faz ctrl c de artigos “irreverentes” e convoca manifestações tem mesmo o objectivo de mudar algo. É tudo mentira. Não querem mudar. Sabem, quase sempre, que é difícil e, por isso mesmo, querem sobretudo dormir descansados, pensado que fizeram tudo o que podiam. Do meu lado só posso garantir uma coisa, que vou continuar a lutar e procurar ser melhor. Tentar ser profissional e ter brio em todos os projectos em que me meto. O tempo trará o resto...

sábado, fevereiro 12, 2011

«Quando as tirei, a cidade existia assim.»


Lisboa, 1957

Gérard Castello Lopes (1925-2011)

("Estou a deixar as fotografias virem ter comigo."- Entrevista ao Público - 16 / 01 / 2004)

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

os pré-editores, o papá e a mamã

Pré-editores
Hoje fala-se muito do papel do editor como interventor no processo de edição de um texto com opiniões, críticas e sugestões que visam torná-lo, se é que isto se pode dizer, mais próximo da perfeição. E comenta-se que este editor – que o Reino Unido e os EUA sempre conheceram – é figura recente em Portugal, país onde ao longo de décadas um original ou era publicado tal como estava, ou simplesmente não o era. Não sei, na verdade, se as coisas são bem assim, pois creio que os editores sempre se sentiram com autoridade suficiente para fazer comentários e dar pistas que conduzissem a um melhor resultado final; mas, mesmo que essa não fosse a prática comum, quase todos os autores tiveram e têm os seus «editores» privados – pessoas isentas e informadas que eles consideram capazes de lhes dar um parecer consistente e de sugerir melhores caminhos para chegar aonde querem quando as vias se entortam e tudo parece ir dar a um beco. Em muitos dos livros estrangeiros que publiquei, a lista de agradecimentos era suficientemente clara para eu saber que, antes de mim ou do editor original, tinha havido efectivamente outras pessoas a ler e apreciar o texto e que o que ali me chegava já vinha limpo de impurezas. Lembro-me de que, quando abri o fantástico As Horas, me surpreendi com o número de nomes constantes dos agradecimentos, mas depois percebi que o autor, tendo escrito parte do romance numa residência para escritores, havia podido contar com ajuda privilegiada e não a desdenhara. O pior é quando estes pré-editores são os pais e os amigos do potencial escritor e acham que tudo o que ele faz é perfeito...

Maria do Rosário Pedreira in Horas Extraordinárias

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem se saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se escrever na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever.

Pedro Oom  in A Intervenção Surrealista

via Trama

metade de p10 igual a...

Ler Devagar | 05.02.11 | by Luis Pimenta

Ne Me Quitte Pas


Jacques Brel

Amei-te e por te amar

Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...

Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.

Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.

Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...

Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?

Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.

Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...

[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...

Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!

E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…

Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?

Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...

Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...

Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.

Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?

Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...

Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...

Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...

E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.

Fernando Pessoa in Arquivo Pessoa