segunda-feira, fevereiro 14, 2011

A história da cantiga, da manifestação e dos amigos de conveniência

Ponto(s) prévio(s): Não tenho contrato, venho de um estágio e espera-me provavelmente outro. Sou licenciado, aliás até sou mais do que isso. Não sou de forma alguma contra os partidos e a política, acho apenas que estes poderiam ter melhor frequência. Sou mais um daqueles que é retratado na música dos Deolinda e, contundo, não o sou…

Passado este preâmbulo necessário, ou mesmo obrigatório, posso passar ao que me dá tanta vontade de escrever: a cantiga dos Deolinda e a manifestação de 12 de Março. Confesso que talvez possa parecer um velho quizilento, um conservador a cheirar a mofo ou mesmo um reaccionário com toques de naftalina, mas não há muita paciência para estas cantigas, estas manifestações e para este “novo coro” dos terrivelmente preocupados com a geração dos “mil euros” que não recebe nem metade, com os jovens que estudaram mais do que nunca, ou com aqueles que não saem de casa dos pais antes dos 40.

Dizer que se é “parva por estudar”, e embora se use ironia, é meio caminho, num país como Portugal, para todos optarem pelos cursos profissionais, arranjarem um negociozinho - preferencialmente um café de bairro -, pedir o subsídio de desemprego, ou um arranjar um atestado médico e passar os dias no “bem bom” que a primavera está aí a chegar e temos um sol mesmo à maneira.

Não se é parvo por estudar. Nunca se será. Parvo é um sistema que foi construído de uma forma enviesada, onde as capacidades, competências e qualidades não são o essencial. E não falo apenas das cunhas… mas dos elogios constantes aos que não são parvos e trabalham menos que outros, passam as culpas aos vizinhos, e enganam o estado. Parvos são aqueles que não lutam pelo brio profissional e pelo reconhecimento do valor de cada um. Porque meio mundo é contra a “cunha”, excepto se for a sua ou do familiar, amigo, vizinho, compadre ou todo aquele que lhe dê algo em troca. Parvos são aqueles que acham que o Isaltino, o Alberto João, etc. e afins, roubam mas ao menos fazem algo pelo povo. Sim, porque uma rotunda compensa plenamente a fuga aos impostos e o esperar meia-hora na fila do médico. Parvos são aqueles que estudam, nunca vêem o quadro completo e criticam sempre o sistema nas suas características erradas. Parvos são aqueles que são contra os recibos-verdes (e o monstro-papão-estado) e não percebem que é o patronato que os usa em excesso e indevidamente, porque o sistema até era positivo. Parvos são aqueles que acreditam que uma manifestação mudará algo. Parvos, mas sobretudo demagógicos, são aqueles que acham que a situação actual se compara à da noite de 24 de Abril. Parvos são aqueles que vão na cantiga das “ninfas” jornalísticas e não se apercebem que quem, como José Manuel Fernandes, critica hoje o estado actual da sociedade é quase sempre responsável pelo “estado a que chegámos”.

E parvo sou eu. Porque sou ingénuo. E porque sou realmente pequeno. Porque acho que um texto pode mudar algo. Que uma opinião serve para aclarar pensamentos. Que ainda acredita que quem ouve e repete esta bela cantiga, faz ctrl c de artigos “irreverentes” e convoca manifestações tem mesmo o objectivo de mudar algo. É tudo mentira. Não querem mudar. Sabem, quase sempre, que é difícil e, por isso mesmo, querem sobretudo dormir descansados, pensado que fizeram tudo o que podiam. Do meu lado só posso garantir uma coisa, que vou continuar a lutar e procurar ser melhor. Tentar ser profissional e ter brio em todos os projectos em que me meto. O tempo trará o resto...

1 comentário:

Filipe disse...

Li o texto e embora concorde com o "core" do que lá está escrito (sobre a conivência da cunha, da falta de brio profissional, etc...) sinto que está a desvalorizar o esforço colectivo. Certamente os Deolinda não fizeram a canção para ser populares. Fizeram-na como forma de expressão daquilo que observam e até sentem na pele; as manifestações são úteis, mesmo que possam não ter resultados concretos. Aliás... o que importa ter uma geração ultra-culta e ultra-instruída, se depois não tem qualquer capacidade de organização e mobilização colectiva? É aqui que o seu texto peca, pois educado num sistema "individualista" (que depois não valoriza o valor individual) acha que os outros são ingénuos... mas já pensou que a História da Humanidade é um esforço colectivo, por exemplo? Se não fosse o "colectivo" provavelmente seríamos hoje o alimento de algum predador e não o "topo da cadeia alimentar". Faça-se essa pergunta. Talvez a forma como hoje nos organizamos é que seja distante daquilo que poderia ser desejável. Talvez este novo conceito de "flash-mob" possa até ser "parvo, mas o importante é que os indivíduos não percam o sentido do colectivo. Não há revoluções feitas por homens sós.