sexta-feira, fevereiro 18, 2011

O país onde um não é igual a um

Em 1928, o surrealista belga René Magritte pintou um cachimbo e escreveu: "Isto não é um cachimbo". E não era, era a pintura de um cachimbo. Ontem, milhares de jovens foram para as ruas belgas comer batatas fritas. Mas não comiam batatas fritas, faziam uma revolução contra o facto de hoje, sexta-feira, baterem o recorde mundial de país sem Governo (250 dias). Adoptaram as batatas como símbolo revolucionário de unidade. O país está dividido em valões e flamengos, duas línguas, mas o mesmo gosto pelas batatas fritas. Diz o preconceito que alimenta as anedotas que todos os belgas, seja ele valão ou flamengo, andam pelas ruas segurando um cone com batatas fritas. E se o segura com a mão esquerda e lhe perguntarem pelas horas, ele, valão ou flamengo, ao consultar o relógio espalha as batatas fritas pelo chão. Diz ainda a anedota que, pouco depois, o belga de novo com o seu cone de frites, se voltarem a perguntar-lhe pelas horas, ele, valão ou flamengo, não se deixa enganar: faz um manguito... e espalha as batatas pelo chão. Mas, pelos vistos, não chega aos valões e flamengos o destino comum de vítimas de anedotas, continuam divididos e por causa disso sem Governo. Os jovens de ontem, idealistas, tinham uma palavra de ordem, em flamengo e em francês: "Een=Un", um igual a um. Mas, em 2005, quando houve o concurso do maior dos belgas, Magritte ficou em 9.º (na Valónia) e em 18.º (na Flandres).

Ferreira Fernandes in DN, 18.II.11

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