sábado, março 05, 2011

O mexilhão do lado errado

Vários jornais internacionais - o espanhol El País, o italiano Corriere della Sera (este na capa)... - publicaram-lhe a foto, ontem. Um rapaz, não desses nossos modernos de 35 anos ainda na casa da mãe, mas um de 17 anos, talvez menos, negro, agachado e julgado por vencedores. Algures entre Brega e Ras Lanuf, na Líbia, e entre rebeldes. Ele, o rapaz, manifestamente não era um rebelde, não estava entre os seus. Tinha à volta inimigos com indicadores duros e até uma pistola, de cão puxado atrás, encostada ao seu pescoço. Ele estava na fase do terror em que não se grita, os olhos estão fixos e a boca aberta e seca. Se houvesse máquina que nos filmasse a alma teríamos ali a história milenária e banal da vítima. E, no entanto, as legendas colocavam- -no do outro lado: ele era um leal de Kadhafi, o tirano. Era? Ou era o mais mexilhão dos mexilhões, o mexilhão do lado errado? Já vi tantos na minha vida de repórter: os fracos desapossados até da condição de estarem em baixo, porque os ventos da história diziam que eles pertenciam ao mau lado. A este rapazito negro já o vi louro, refugiado num mosteiro ortodoxo de Pec, no Kosovo, sem poder ir buscar o irmão deficiente à casa abandonada da família - entre os dois estavam os oprimidos kosovares e era a estes que as tropas da ONU emprestavam a condição de bons... A este rapaz negro coube-lhe não termos pena dele. E isso é tão injusto. 

Ferreira Fernandes in DN, 05.03.11

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