sábado, março 12, 2011

Por que é que NÃO VOU participar no protesto da "geração à rasca"?

ou a história do ter, o não ter, e o gostar de ter...

Tenho quase 30 anos. Tenho 13 euros na conta até ao final do mês. Tenho 4 euros no telemóvel, que nem sequer é um smartphone. Tenho um estágio curricular a terminar em 15 dias e tenho apenas um infindável número de incertezas sobre o meu futuro imediato. Tenho 15 páginas para escrever para o relatório desse estágio e quase nenhum tempo, porque também sou tutor numa universidade para ganhar alguns trocos. Não tenho dinheiro para as últimas propinas.Tenho a garganta apanhada , tive febre nos últimos dias mas não tenho médico de família para me receber. Tive duas deslocações ao estrangeiro no último ano: uma em trabalho, outra em lazer. Tive também a possibilidade de passear por Portugal em alguns fins-de-semana deste último ano. Não tenho carro. Uso os transportes públicos e tenho o passe social. Editei uma revista pro bono, escrevi noutras revistas e estou sempre disponível para os meus amigos. Sou evidentemente uma boa pessoa e, se acreditasse nisso, até seria um cristão recomendável, contudo NÃO VOU participar no protesto da "geração à rasca".

Não participo porque não sou hipócrita, como muitos que hoje picarão o ponto, mas sobretudo porque não acredito que exista uma "geração à rasca". E porque não compreendo a razão deste protesto nem a sua forma. Parece que esta manifestação é na realidade várias. Ou esta manifestação são na realidade várias. Confuso? Até no português a convocatória era confusa. Parece que hoje há a manif de protesto pela precariedade do trabalho; a manif contra os políticos; a manif dos políticos que vão na onda, desde os jotas até os presidentes reeleitos (que sempre foram contra todo e qualquer tipo de movimentos sociais); a manif dos anticapitalistas; a manif dos que não-arranjam-trabalho-no-estado-e-até-que-dava-jeitinho-que-o-fizessem-porque-têm-que-comprar-rapidamente-o-passe-para-os-festivais-de-verão-que-são-bem-fixes-este-ano; ah... e a manif dos que acham-mesmo-que-não-há-liberdade-nem-direitos-em-Portugal-e-isto-é-igualzinho-ao-Egipto-Líbia-e-outros.  Sinceramente... haja paciência! Estamos indiscutivelmente num dos momentos mais negros economicamente da nossa história e isso é inegável, mas não é na rua que se dá a volta à crise. É no trabalho. É nas eleições. É na criação de associações e movimentos cívicos. "O povo é quem mais ordena." Não é isso que está em causa. Nunca foi. Mas o povo é mandrião... Claro que eu não sou... mas o meu vizinho. Ui, que molengão. E não merece o trabalho que tem. Eu fazia melhor. De certeza.

A crise existe, em parte, por causa das certezas. E dos ouvidos tapados dos diversos governos que realmente atacam sempre os mais desprotegidos, deixando por exemplo os bancos sem aumento de impostos. Mas também do zé-ninguém que foge sempre aos impostos porque os ricos também o fazem. E os ricos e grandes até podem fazê-lo... se forem bons autarcas. É essa uma das piores certezas... a de que não existem realmente princípios inequívocos no protesto de hoje. Porque além de muitos dos que hoje vão protestar não fazerem parte da mesma geração, logo não têm os mesmos problemas, a verdade é que não estão realmente preocupados com a mudança de paradigma no país. O que muitos querem garantir hoje é um trabalho certo, tal e qual como o dos país e seus amigos. Esquecendo que muitas vezes são esses mesmos que lhes roubam uma possibilidade. Alguns dos que hoje saem à rua ouvem a "cantiga do bandido" de políticos que se fazem passar por independentes e concordam. E acreditam que a culpa é mesmo do sistema. Que não há volta a dar. Ou então que basta ir para a rua para tudo mudar. Isto não é o Egipto, meus caros. O problema aqui não é político, pese embora as más práticas políticas dos mesmos. A crise aqui é de valores e princípios. Somos todos muito de "esquerda" mas ao fim do dia só queremos os mesmos direitos adquiridos  que foram oferecidos num passado cor de laranja, fantasista e fantasioso.

Felizmente, todos temos direito à indignação. Os que se manifestam hoje. E eu. Nem que seja por achar que verei apenas uma feira de vaidades, de hipocrisia e de falsos moralismos. Não me apetece brincar às revoluções, às revoltas sociais e aos heróis. Mas também acredito que irão estar  bem mais de cem mil pessoas na Avenida da Liberdade. É o mínimo para algo preparado com mais de um mês, que contará com partidos na sua organização e amplo destaque na comunicação social. No final do dia peço apenas uma coisa: não façam parecer que este protesto é minimamente semelhante às revoltas populares dos países do médio oriente, pois essas foram espontâneas e tinham um substrato politico e social, e não foram um amuo de jovens arreliados por ainda estarem em casa dos pais e terem a prestação do Smart em atraso.

Uma última referência sobre esta questão: terei muitos - quase todos mesmo -, amigos neste protesto. Vejo essa situação com bastante alegria e orgulho. Felizmente somos diferentes. Muitos deles têm mesmo a vida já orientada e não é por isso que deixam de se manifestar. Isso também mostra que  haverá muita gente que estará neste protesto por acreditar que "um outro mundo é possível". Eu também acredito piamente nisso. Simplesmente penso que o trajecto  até essa realidade é outro... Desculpem, mas é que da minha parte esse percurso começou há muito. Teve inicio no momento em que aprendi que há que ter brio e profissionalismo todos os dias... E acredito que temos ao nosso dispor mais meios e conhecimentos do que qualquer outra geração. Não somos de todo "à rasca". Eu não sou, e tu?

Nota: As minhas palavras são, no fundo, um outro eco possível das de um amigo com que tanto falei sobre estes assuntos.

Adenda: Este governo, e tal como o do sr. Silva no passado, perderá toda a razão se a policia atacar sem razão os manifestantes. A liberdade de manifestar uma opinião é um direito bem anterior ao nascimento de muitos dos senhores que por aí andam, e não pode nunca ser restringida.


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