terça-feira, março 15, 2011

"Só mais uma coisinha" sobre "O desastre de Sócrates, o desastre de Passos e a ausência dos outros"

(...) «A coisa mais interessante a descobrir é como se pode ir de três pessoas para trezentas mil sem pedir permissão a qualquer partido, sindicato ou associação. Não tenho dúvida de que qualquer destas organizações está agora a repensar a sua relação com a sociedade — e isso é bom, mas desde que dê aos partidos vontade de serem organizações mais democráticas desde o início.» (...) «A estratégia tradicional-revolucionária quando chegamos ao “estado a que chegámos” seria pressionar até à queda do poder, para que viesse aí um novo poder. Mas aí temos novo bloqueio: não tanto que o “novo poder” se arriscaria a ser pior do que o atual — mas que, passado o primeiro momento, as coisas voltariam a ser dirigidas de cima para baixo. Há uma semana inventei uma palavra — à volta da ideia de “reformulação” — para descrever o que se estava a passar, definindo como tal a noção de um movimento que fosse democrático desde o ponto de partida e em cada um dos seus passos, e que tivesse como objetivo reformular de forma inclusiva o próprio país. E dou por mim a pensar: o que faria agora um movimento reformulocionário, se existisse?»


(...)
«Excelente seria que a esquerda à esquerda de Sócrates fosse uma alternativa de poder. Com um programa de ruptura credível, propostas exequíveis no actual quadro económico, que pelo menos distribuíssem de forma decente os sacrifícios, e que tivesse um discurso europeu de alguma coragem, o que passaria por uma aliança política estratégica com as economias periféricas que travasse o golpe de Estado que a senhora Merkel está a levar a cabo na União. Uma esquerda que dissesse que quer governar. Amanhã. Mesmo que não seja para mudar o Mundo ou para aplicar todo o seu programa. Mas para evitar o suicídio social, económico e político deste País. Basta ver o clima social e de protesto para perceber que há uma base eleitoral (ela já valia bastante nas últimas eleições e hoje, fosse outra a estratégia, poderia valer muito mais) para uma alternativa ao discurso da inevitabilidade No entanto, no interior do PS, todos parecem esperar que Sócrates caia de maduro. E não me ocorre ninguém credível que tenha um discurso coerente de oposição ao que foi esta governação desastrosa. E a esquerda à esquerda do PS parece estar viciada em cavalgar os protestos sem nunca querer chegar à meta, sonhando com revoluções imaginárias que nem os nossos netos verão. É pena. Existe vontade de mudar mas parecem faltar os protagonistas. E assim, o desencanto com a política e com os partidos continuará a tomar o lugar do que poderia ser o crescimento de uma verdadeira alternativa política. Corajosa, de ruptura, mas realista e credível.»


Destas duas opiniões, com as quais não concordo na totalidade, retiro algumas ideias importantes:

- Sócrates e o seu governo estão há já demasiado tempo completamente fora dela. Não são só as medidas erradas - todos se enganam -, são sobretudo as decisões, quando duras e politicamente  questionáveis, que não são convenientemente explicadas. Infelizmente, quando vejo este governo jogar à política sinto a mesma tristeza que sinto quando vejo o Postiga em campo. É inacreditável como um jogador mediano pode ter perdido completamente a noção das regras e basicamente está sempre em fora-de-jogo.

- Se não há ponta-de-lança para atacar o jogo, também não há treinador que pegue nisto. Passos Coelho não passa de um Azenha. Não tem experiência, não tem carisma, joga para o empate e na esperança do erro do adversário. Será um flop daqueles... sobretudo porque é evidentemente uma marioneta de vários interesses e lobbys liberais. Ah, e claro que o FMI também não serve de treinador. É, aliás, deliciosamente irónico reparar que quem chama hoje pelo FMI são os mesmos que aquando da sua primeira presença o renegaram por completo. Irónico? Ou nem por isso? Não creio que seja um caso de "nunca digas desta água não beberei" mas antes um aproveitamento dos principais liberais portugueses de matriz anglo-saxónica de uma certa ingenuidade em termos de macro-economia de alguma extrema-esquerda. Há que ter muito cuidado! Não é o FMI que é o papão, mas é ele que abre as portas do populismo posterior.

- Perante este cenário o que podemos esperar? Extrema direita ou apenas direita-conservadora-nacionalista-católica-etc? Jamais! Extrema esquerda? Muito complicado. Não têm qualquer vontade de governar, o que até é normal e compreensível, pois isso significaria passar pelo escrutínio real das pessoas, e essa é uma situação que nem em termos internos é hábito. Também não é na rua que se decidirá o nosso futuro...As manifestações são uma prova interessante e significativa de alguma vitalidade da população, mas isso só não chega. Não é na rua que se decide o destino de mais de 10 milhões de pessoas. Tem que ser primeiramente num parlamento, numa assembleia municipal, e depois no trabalho, escola e vida de cada um. Têm que surgir rapidamente novos partidos e movimentos cívicos. Um exemplo? Um desejo? Um verdadeiro partido dos "Verdes". Que não seja muleta de ninguém, que não se restrinja à ecologia, mas ofereça também uma visão do mundo mais sustentável ambiental, politica e socialmente.

- Outras propostas?

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