terça-feira, abril 26, 2011

A Porca da Ideologia

Este post de José Manuel Fernandes (JMF) é muito revelador do modo como a historiografia tem sido frequentemente entendida no espaço mediático. Mas não é revelador tanto pelas questões de conteúdo (perdoem a simplificaçã0) que levanta, eventualmente as mais polémicas e sobre as quais não me pronuncio, até porque não li o livro da Raquel Varela. É revelador sim pela forma como JMF argumenta. Segundo JMF os historiadores dividem-se entre os que podem ser apresentados como historiadores (porque não são activistas políticos) e os que devem ser apresentados como historiadores e activistas políticos (simultaneidade que lhes retiraria lucidez científica). Isto é, para JMF a historiografia dividir-se-á entre a historiografia científica dos primeiros e a historiografia utópica dos segundos. Eu não sei se o JMF já pensou nas consequências desta brilhante tese. Ela implicaria, por exemplo, que dois dos principais historiadores portugueses, Fernando Rosas e Rui Ramos, fossem atirados para o caixote de lixo da historiografia não-cientítica, uma vez que são simultaneamente historiadores e activistas políticos. Ou que sucedesse o mesmo a Vasco Pulido Valente e a José Pacheco Pereira. A menos, é claro, que o problema de José Manuel Fernandes seja apenas com historiadores activistas políticos de esquerda e não historiadores activistas políticos em geral. Não será certamente esse o caso.

De qualquer dos modos, serve este meu post para fazer o seguinte registo: se um dia reactivarem a Academia das Ciências da URSS, os camaradas saberão que em Portugal poderão contar, para correspondente emérito, com o nosso JMF, zeloso defensor da verdadeira consciência da história contra a porca da ideologia. Isso ou então o facto do problema dos ex-marxistas ortodoxos não ser tanto terem deixado de ser marxistas mas sim insistirem em continuar a ser ortodoxos. 

José Neves in Vias de Facto

nota: o jmf falhou na crítica mais fácil de todas... é que a raquel varela é simplesmente uma péssima historiadora. mas ele, um pavoroso jornalista, também não o saberia reconhecer.

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