quinta-feira, junho 30, 2011

[Mon désir est la région qui est devant moi]

Désir

Mon désir est la région qui est devant moi
Derrière les lignes boches
Mon désir est aussi derrière moi
Après la zone des armées


Mon désir c'est la butte du Mesnil
Mon désir est là sur quoi je tire
De mon désir qui est au-delà de la zone des armées
Je n'en parle pas aujourd'hui mais j'y pense


Butte du Mesnil je t'imagine en vain
Des fils de fer des mitrailleuses des ennemis trop sûrs d'eux
Trop enfoncés sous terre déjà enterrés


Ca ta clac des coups qui meurent en s'éloignant


En y veillant tard dans la nuit
Le Decauville qui toussote
La tôle ondulée sous la pluie
Et sous la pluie ma bourguignotte


Entends la terre véhémente
Vois les lueurs avant d'entendre les coups


Et tel obus siffler de la démence
Ou le tac tac tac monotone et bref plein de dégoût


Je désire
Te serrer dans ma main Main de Massiges
Si décharnée sur la carte
Le boyau Gœthe où j'ai tiré
J'ai tiré même sur le boyau Nietzsche
Décidément je ne respecte aucune gloire
Nuit violente et violette et sombre et pleine d'or par moments
Nuits des hommes seulement


Nuit du 24 septembre
Demain l'assaut
Nuit violente ô nuit dont l'épouvantable cri profond devenait plus intense de minute en minute
Nuit qui criait comme une femme qui accouche
Nuit des hommes seulement

Guillaume Apollinaire

segunda-feira, junho 27, 2011

depois deste sábado

depois deste sábado faltará sempre algo nesta tua linha. mesmo que os comboios continuem a passar naquela tão sua cadência de pouca-terra-muita-terra-pouca-terra-muita-terra. depois deste sábado faltará sempre algo nesta tua linha. mesmo que as crianças de brincadeira continuem a olhar fascinadas para as carruagens pintadas de cores vivas, inocentemente pensando que, no fim do percurso, haverá todo um mundo novo de divertimento. depois deste sábado faltará sempre algo nesta tua linha. mesmo que os fatos e as gravatas continuem a passear os senhores emproados, feitos sardinhas enlatadas, num qualquer comboio das oito. depois deste sábado faltará sempre algo nesta tua linha. mesmo que os cafés envolventes se encham de chávenas vazias e borras pendentes. depois deste sábado faltará sempre algo nesta tua linha, mesmo que os novos idosos cruzem a cidade apressada. depois deste sábado faltará sempre algo nesta tua linha, porque não serás mais o vigia anónimo desta estação que se soube tornar parte de ti.

sábado, junho 25, 2011

[le fil du vent]


Christine Choffey via a quoi rêvent les laveuses

marguerita

Faz hoje um ano que tomei uma caixa de Xanax, disse a mulher ao empregado do bar. Depois calou-se, estranhando as palavras que se tinham soltado da sua boca. Nunca ninguém lhe falava desse dia. Nem o marido. Nem os irmãos. Nem os pais. Nem a única amiga que tinha. Era como se não existisse. Como se outra, que não ela, tivesse naquele dia rondado o bairro de Chelas à procura de espantar a dor para os homens que, sonolentos, despertavam para a manhã. Como se outra, que não ela, tivesse escutado os renhaus dengosos que as mulheres lhes lançavam das janelas dos prédios de habitação social. No fundo, aquele dia só existia para ela, para mais ninguém. Por isso o celebrava sem que os outros soubessem, bebendo ao final do dia, num bar da rua de São Paulo. O empregado do bar voltou e pousou no balcão um copo triangular, com gelo moído e hortelã fresca. Sorriu-lhe de forma profissional, asséptica, como a querer dizer-lhe olhe que eu também tenho os meus problemas, não estou com disposição para confissões. Mas a mulher não o percebeu. Ou fingiu não o perceber. É triste uma pessoa falhar até na morte, não acha? e, sem esperar pela resposta, começou a chupar o sal dos bordos do copo.

(Junho nunca mais acaba.)
 
Ana Cássia Rebelo via ana de amsterdam

sexta-feira, junho 24, 2011

(uma possível) biblioteca do futuro

via Blogtailors

nota: sinceramente, não acredito nesta imagem. no futuro não se poderá fumar nem dentro de casa...

agora e depois

já não há página seguinte
quando
a tua próxima folha encrava
nos dias alongados
deste verão adolescente.

condensemos,
inocentemente,
a nossa estória-livro,
a esta página presa às noites que recordas com um sorriso-do-passado.

aflita,
não encontras maneira de virar a folha,
porque não sabes o que vem depois do um.

adormece, agora, amor.
e aprende com morfeu
a forma pura de tornar essa página impar
na nesta tão nossa história-par.

ó botequim, tens cá disto?

cine qua non. hoje. 24 junho. botequim da graça. 19 horas. todos convidados.

domingo, junho 19, 2011

salomé sorriu

salomé gosta de pegar num livro ao acaso. preferencialmente daqueles que se rodeiam de pó. salomé diz que é um sinal de esquecimento. salomé gosta muito daqueles que são esquecidos. os perdidos no tempo. salomé gosta do joão esquecido. procura os joões esquecidos de todas as bibliotecas. de todas as aldeias. de todas as palavras. alzira perguntou a salomé uma vez, e apenas uma só, quem eram os joões esquecidos das palavras. salomé sorriu. era normal que alzira não soubesse. era demasiado nova para o saber. para saber que os ocasos das palavras só surgiam por acaso. salomé sorriu. novamente. e novamente abriu um livro. feliz. como um esquecido.

sexta-feira, junho 17, 2011

terça-feira, junho 14, 2011

Fernando Pessoa anuncia fusão de heterônimos

Flagrado na Ilha de Caras, Fernando Pessoa disse que está bem mais leve depois que passou a ser um só. “Além de mala, aquele Alberto Caeiro não pegava ninguém.”

LISBOA – Em pronunciamento que pegou de surpresa o mercado editorial, o poeta e investidor Fernando Pessoa anunciou ontem a fusão dos seus heterônimos. Com o enxugamento, as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro passam a fazer parte da holding Fernando Pessoa S.A. “É uma reengenharia”, explicou o assessor e empresário Mario Sá Carneiro, acrescentando que “de uns tempos para cá ficou claro que era preciso fazer um streamlining na nossa operação se quiséssemos sobreviver num ambiente poético cada vez mais competitivo.” Pessoa confessou que a decisão foi tomada “de coração pesado”, mas o seu CFO não lhe deu alternativas. “Drummond sempre foi um só. A operação dele é enxutinha. Como competir?”, indagou. O poeta chegou a pensar em terceirizar os heterônimos através de um call-center em Goa, mas questões de gramática e semântica acabaram inviabilizando as negociações. “Eles não usam mesóclise”, explicou Pessoa.

A notícia dividiu o mercado editorial. Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, disse que a eliminação dos heterônimos ajudará a diminuir os custos de marketing: “O brasileiro médio sabe quem é Fernando Pessoa. Mas as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nunca chegaram a se firmar.” Já a Central Única dos Poetas, sindicado ligado à CUT, declarou, em nota, que a medida é “mais um exemplo da brutalidade do mercado”, e confirmou para amanhã uma greve de 48 horas, na qual nenhum poeta fará rimas e Gilberto Gil dirá coisas compreensíveis.

Mario Sá Carneiro declarou que, uma vez consolidada a fusão, a holding Fernando Pessoa S.A. pretende adquirir as marcas T. S. Eliot, Albert Camus, Jean Paul Sartre e Friedrich Nietzsche. “E claro, no futuro, se tivermos bala, toda a obra poética de José Sarney.”

in The Ípauí Herald via Bibliotecário de Babel



quarta-feira, junho 08, 2011

uma história com palavras, autores e humor

Assumido e com graça
Há uns anos, contaram-me um episódio hilariante passado num festival de escritores com o saudoso poeta Al Berto que, não por acaso, Eduardo Lourenço considerou o último «poeta-mito». Tive a felicidade de ainda o conhecer pessoalmente e lembro-me até hoje da sua voz possante e da forma como lia a sua poesia (e a de outros). Tratava-se de um poeta extremamente dotado e de uma pessoa imensamente gentil com quem dava gosto conversar sobre qualquer assunto. Ora, Al Berto era, como todos saberão, um homossexual assumido e cheio de humor. Convidado um dia pelo Instituto do Livro para um encontro literário no estrangeiro, no qual participavam também Vasco Graça Moura e José Saramago, às tantas saiu-se com esta tirada de génio para a representante do Instituto: «Este ano vocês só convidaram mulheres: eu, a Sara Mago e a Graça Moura.»

Maria do Rosário Pedreira via Horas Extraordinárias

terça-feira, junho 07, 2011

"Viva o PSD! Viva o fim da crise! Viva Passos Coelho!"

Tal como aconteceu com Alice, seguir um Coelho até à sua toca (o piso -2 do hotel Sana) revela um país das maravilhas. Um país que não existe.
Durante a campanha ouviu-se por várias vezes políticos e comentadores referirem-se aos problemas do "país real". Era importante conhecer este território longínquo, ouvir o que diziam os seus habitantes, dar a mão a esse povo esquecido. O conceito não é novo, mas conserva a piada. Não há até agora nenhum território virtual dentro das nossas fronteiras, nem prados verdejantes pisados por unicórnios. À partida, todo o país é real. Ou pelo menos era.

Ontem, no bar do Hotel Sana, na Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, a bica custava €2,50 - mais dois euros do que no país real, disponível logo do outro lado da rua, no restaurante "O Cardo". Descendo dois pisos até às salas onde reunia uma mistura fina de apoiantes de Passos Coelho - os homens de fato que a TV nos descreve como "notáveis do PSD", o ocasional jornalista estrangeiro atónito, a Carla Matadinho - respirava-se outro ar. Podia ser um tipo raro de oxigénio combinado com partículas de optimismo. Podia ser só optimismo.

Ainda não eram conhecidos os resultados e já apoiantes do PSD agitavam as bandeiras, espécie de reflexo pavloviano à exibição de percentagens num ecrã. A contagem final para os resultados causou um burburinho na sala principal (plasmas, canapés, sumos feitos a partir de concentrado, alcatifa em padrão fantasia) e segundos depois começava a gritaria. "Pê-ésse-dê, pê-ésse-dê", primeiro; "Por-tu-gal-e", depois; "Vi-tó-ri-a", por fim. Braços no ar, abraços no chão, cumprimentos e palmadinhas nas costas. Tudo enquanto durou a luz vermelha nas câmaras de TV anunciando o directo.

Miúdos de blazer azul com botões dourados, camisas brancas e calças bege abraçam-se efusivamente. Formam um círculo. Começam a adaptar cânticos futebolísticos às cores políticas, mas são rapidamente traídos pela falta de rimas. Há ainda um "e quem não salta, não é JSD". Mas a métrica não funciona. São os Jotas quem mantém os níveis de euforia enquanto os crescidos estão preocupados em saber se há maioria absoluta ou não. Ou a tentar perceber se lhes vai calhar em sorte um lugarzinho no poder. "Esta semana é que isto vai ferver", dizia entredentes um militante. É altura de esfregar as mãos antes de pegar nos tachos. Será o suficiente para evitar queimaduras?

Chegam os comes e bebes para as celebrações. Wraps de frango, shots de fruta, tartelettes de frutos silvestres, tudo comes e bebes difíceis de encontrar no "país real" ou no restaurante "O Cardo".

"Vai ali até aquela mulher e pede-lhe para saltar que ela salta" diz um câmara ao outro. O colega aproveita para captar mais umas imagens para ilustrar os telejornais do dia seguinte. "Na sede do PSD, a alegria era contagiante" é uma hipótese para legenda. "Eu sabia que íamos ganhar desde o dia em que o Pedro apresentou o seu programa", conta embevecida uma entrevistada que trata pelo nome próprio o novo primeiro ministro do país. Quando a câmara se desliga, conta à repórter que o vestido que traz é o mesmo que usou na vitória do Cavaco. "Eu não costumo repetir roupa, mas é para dar sorte".

Passos Coelho ainda não falou. Sócrates vai falar. Na Avenida Fontes Pereira de Melo há carros a apitar em direcção ao Marquês do Pombal. "Levo a do PSD e tenho no carro uma do Sporting que se não for nestas alturas não sei quando posso voltar a usar", conta-nos Agostinho, um militante que acredita numa mudança, "daquelas à Obama".

São muitos os que ficam no hotel à espera do homem a quem chamaram o "Obama de Massamá" e forneceu ao país a definição genealógico-geográfica mais confusa em 37 anos de democracia. "A minha mulher é guineense e eu sou português, por isso a nossa filha é africana". Há quem veja no "Homem Invulgar", título da biografia de Passos Coelho, qualidades sobre-humanas que justificam gritos de vitória como este: "Viva o PSD! Viva o fim da crise! Viva Passos Coelho!"

O sentimento de que a crise havia terminado e o BCE e FMI eram siglas amigáveis dominava os pisos inferiores do Hotel Sana. Horas antes, Passos Coelho tinha garantido a um jornalista alemão que Portugal sairia da crise num prazo de três anos. Todo este optimismo não passa inteiro pelo filtro da realidade.

Em "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carrol, a inocente Alice persegue um coelho branco vestido de colete por uma toca. Lá em baixo, há um mundo de fantasia onde a lógica não funciona. Farta de seguir o coelho, Alice pede ajuda ao gato de Cheshire.

"- Para que caminho vou agora?, pergunta Alice

- Para onde queres ir?, responde o Gato.

- Não sei.

- Então se não sabes para onde queres ir não precisas de saber o caminho."Às vezes não basta seguir o coelho.


Luis Leal Miranda, in jornal i, 06.06.11

nota: esta reportagem marca o adeus ao jornal i de um jovem jornalista de grande valor. foi bom lê-lo.
nota 2: entretanto já passaram mais de 24 horas desde a vitória do psd e não me parece que a crise tenha acabado. estranho...

nome comum

O lançamento do [primeiro] EP «A quem possa interessar» do projecto nome comum  é já esta 3ª-feira, dia 7 de Junho, no Teatro A Barraca. Haverá uma colaboração especial do Tiago Pereira - enquanto VJ - e pela primeira vez tocará Nuno Morão na percussão!

Para conhecer a banda um pouco melhor, façam já o download gratuito do EP aqui.
 
O bilhete custará €5, com oferta da edição especial em forma de carta‐EP, o que inclui as letras das músicas e ilustrações do Pedro Faro. Tudo dentro de um bonito envelope, para que possam enviar a carta-EP directamente para a morada de amigos e surpreendê‐los com música entre as contas da água e do gás! 
 
Se isto não é uma boa ideia... não sei não!

segunda-feira, junho 06, 2011

aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos via Arquivo Pessoa

domingo, junho 05, 2011

Dimokránsa



Kantádu ma dimokrasiâ,
Ma stába sukundidu,
Ma tudu dja sai na kláru
I nós tudu dja bira sabidu.
Kada um ku si maniâ
Fla rodóndu bira kuadrádu,
Kada um ku si tioriâ
Poi razom pendi di si ládu.
Ti Manel bira Mambiâ,
Ti Lobu bira Xibinhu,
Ti flánu ta faze majiâ
Ta poi grógu ta bira vinhu.
Mintira pom di kada dia,
Verdádi ka s'ta kontádu,
Nós tudu bira só finjidu
Ku kombérsu di dimagojiâ.
Vida bira simplismenti,
Konsedju bira ka ta obidu :
Tudu é agu na balai frádu
É rialidádi di oxindiâ.
Maioriâ sta tudu kontenti
Ku avontádi na dimokrasiâ
Fládu fla ka tem simenti,
Dipós di sábi móre é ka náda.
Inglés bem toma si tchom,
Sam-Fransisku bira más sábi,
M-kré odja róstu-nhu Djom
Ta ri ku si kumpadri.
Dja skesedu di Pepé Lópi
Bá rabuskádu Nhu Diogu Gómi,
Rasusitádu Nhu Kraveru Lópi,
Ka ta konxedu Inásia Gómi.
Ali bem témpu ditádu-Nhu Náxu
Ta bira sima juís di mininu
Gentis djunta grita abáxu
É kabésa ki dja perde tinu.

Mayra Andrade, Navega, 2007

Já se disse tudo, mas, como ninguém ouviu, vou dizer outra vez:

1. Vamos aprender agora, de vez e dolorosamente, que nenhum país pode viver para sempre a crédito: chega o dia em que é preciso pagar a conta.
2. Apesar de todas as lamentações, é forçoso reconhecer que Portugal evoluiu de uma forma incrível nos últimos trinta anos: talvez tenha aumentado o fosso entre ricos e pobres, mas a percentagem de pobres é incomparavelmente menor do que era na geração anterior e infinitamente menor do que era há cinquenta anos.
3. Mas não somos um país rico - nem em território nem em riquezas naturais. Nestes trinta anos, fomos muito ajudados para sairmos da situação de subdesenvolvimento em que estávamos. Mas agora é connosco: há outros que precisam ou merecem mais do que nós. Agora, seremos o que conseguirmos fazer com o nosso trabalho, a nossa qualificação, a nossa imaginação e o nosso juízo.
4. Não podemos aceitar que a sobrevivência da economia e das empresas dependa do favor do Estado, do tráfico de influências político, dos baixos salários ou de uma mão-de-obra desqualificada.
5. Mas não podemos aceitar também que a lei proteja os preguiçosos, os trabalhadores das falsas "baixas", que proteja os que têm emprego garantido para a vida e em nada se esforçam contra os que querem um lugar no mercado de trabalho e não o encontram.
6. Não podemos aceitar nem uma juventude condenada ao desemprego ou à imigração nem uma juventude habituada à ociosidade, ao consumismo e à exigência de todas as facilidades.
7. Não podemos pactuar com uma sociedade onde todos reclamam direitos e quase nenhuns reconhecem deveres para com a comunidade. Não podemos pactuar com os maus cidadãos, com os que roubam na contratação com o Estado, que fogem ao fisco, que vivem em off-shores ou nos cafés e blogues a dizer mal de tudo e de todos.
8. Não podemos consentir os médicos que, no horário público, estão a atender clientes privados, que assinam as falsas baixas ou que receitam conforme as benesses dos laboratórios.
9, Não podemos tolerar que os professores que não prestam, emboscados atrás de sindicatos cujos dirigentes há muito não sabem o que é ser professor, queiram ter os mesmos direitos e regalias que aqueles que se esforçam, que têm orgulho em ensinar e que se preocupam com o futuro dos seus alunos.
10. Não podemos deixar que a escola pública e gratuita, sirva para substituir pais que não educam e aturar alunos que não estudam, meninos mimados e mal-educados a quem o sistema facilita a vida com exames de fantochada, em benefício das estatísticas.
11. Não podemos fechar mais os olhos ao papel funesto das sociedades de advocacia de tráfico de influências, que cativam a decisão política e ajudam os governos a assinar contratos ruinosos para os contribuintes.
12. Não podemos tolerar mais a promiscuidade de negócios entre o que é público e o que é privado, com os seus protagonistas variando de campo conforme as circunstâncias e as oportunidades.
13. Não podemos continuar a sustentar mais Fundações privadas com dinheiros e bens públicos, falsos mecenas do favor político.
14. Não podemos manter 800 institutos e empresas públicas e municipais, reproduzindo e multiplicando tarefas, lugares e despesas que cabem à Administração.
15. Não temos de sustentar todos e cada um dos "agentes culturais" ou autodesignados como tais, que se acham no sagrado direito de verem sempre pago pelos contribuintes o seu imenso talento.
16. Não podemos pagar mais rotundas e chafarizes e ornamentos municipais inúteis para aos senhores autarcas mostrarem obra e ganharem eleições.
17. Não podemos deixar que as autarquias se sustentem através dos impostos imobiliários, premiando quem mais constrói e quem mais destrói.
18. Não podemos tolerar mais essa coisa infame que é o despesismo irresponsável do governo da Madeira: se querem ser independentes, que o sejam a sério!
19. Não podemos continuar a sacrificar todo o país, a sua paisagem, a sua sustentabilidade, ao lóbi da construção e do turismo massificado, que já só é rentável com os projectos PIN e a destruição do que resta de zonas protegidas.
20. Não podemos continuar a apostar na construção civil e nas obras públicas como fonte privilegiada de desenvolvimento económico, quando já somos o país da Europa com maior índice de habitação própria e maior número de quilómetros de auto-estrada por habitante.
21. Não podemos continuar a pagar para abandonar a agricultura, a desertificar o interior, a concentrar a população em megacentros urbanos invivíveis, que são território privilegiado para o crime, o abandono escolar, a miséria e a desumanização.
22. Não podemos entregar os melhores terrenos agrícolas à construção, ao turismo, aos eucaliptos e aos golfes, e depois irmos aos supermercados comprar fruta de Israel, legumes de Espanha e carne da Argentina. Em trinta anos, e com todas as ajudas comunitárias, o nosso défice alimentar aumentou 30%. Agora, pagamos.
23. Não podemos sustentar umas Forças Armadas que querem sempre os últimos gritos da tecnologia militar (opinião dos americanos), mas que têm mais almirantes e generais por marinheiros e soldados do que qualquer força militar comparável.
24. Não podemos pagar um Serviço Nacional de Saúde que se presta a toda a espécie de abusos de profissionais, de fornecedores e também de utentes. "Tendencialmente gratuito" não pode ser sinónimo de usar e abusar, como se, no fim, não houvesse alguém a ter de pagar.
25. Não podemos, financeiramente, ter um país com 70% de assistidos com dinheiros públicos.
26. Temos de ter o "Estado social" que podemos sustentar e não aquele que uns exigem e outros prometem, sem pensar nas gerações que se seguem. Devemos ajudar, não todos os que reclamam, mas os que não têm defesa, não têm alternativas e não têm oportunidades.
27. Não podemos consentir mais Parcerias Público Privadas que são contratos leoninos à custa do Estado, e temos de rever, se necessário unilateralmente, as existentes.
28. Não podemos continuar a permitir que o Estado continue cativo do poder dos lóbis e temos de fazer legislação para que eles não continuem a condicionar todas as mudanças e reformas recorrendo ao expediente das providências cautelares.
29. Não podemos mais tolerar uma Justiça que há muito esqueceu que está ao serviço dos cidadãos e não de si própria. Temos de simplificar, desformalizar e dessacralizar a Justiça, torná-la acessível, razoável em tudo e inteligível.
30. Temos de terminar com a independência e irresponsabilidade funcional do Ministério Público e colocá-lo ao serviço do país, através da política de Justiça do governo eleito e sob supervisão da Assembleia da República.
31. Na ditadura do Estado Novo, o regime criou as corporações para melhor as controlar. Na democracia, são as corporações que dominam e trazem cativo o Estado. Não são os magistrados que devem determinar a política de Justiça, ou os médicos a de Saúde, ou os professores a de Educação: são os governos eleitos, que respondem pelas políticas adoptadas.
32. Temos de ter leis que criminalizem e ponham fim à partidarização do aparelho do Estado e que impeçam a confusão entre o desempenho de funções políticas e o serviço de interesses privados.
33. Mas não podemos exigir qualidade na política se aceitamos pagar a um deputado ou a um ministro um terço ou metade do que ganha um gestor público, um general ou um juiz do Supremo.
34. Temos de aceitar em tudo uma política que privilegie o trabalho e o esforço contra a preguiça e a batota; o risco e a inovação contra a segurança e a protecção dos dinheiros públicos; o mérito contra a mediocridade; a independência contra a "cunha" e o favor; a poupança contra a ostentação; a luta por um futuro melhor contra a comodidade dos "direitos adquiridos".
Este é o programa de governo que eu desejo para 6 de Junho.

Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 03.06.11

P.S.: E por vezes o sr. Tavares até acerta na mouche...

sábado, junho 04, 2011

Sócrates. "Quem vota em branco ou nulo que aguente a decisão da maioria"

1978, Sócrates faz do futebol um curso superior. Estuda e joga ao mesmo tempo. Em Ribeirão Preto e no Botafogo de Ribeirão Preto. Na USP, a terceira melhor faculdade do Estado de São Paulo, depois de Pinheiros e Paulista. Entra com a melhor média de todos os alunos e sai com o curso de Medicina, que hoje exerce. É doutor.

1981, Sócrates faz do futebol uma política e inicia-se a democracia corintiana. O que é isso? É tão só a materialização de um ideal banal mas pouco em voga, que consiste num diálogo aberto entre jogadores e corpo técnico. Todos participavam das decisões do clube: jogadores, roupeiro, técnico, presidente. O voto de cada um possuía o mesmo valor. Em plena ditadura militar brasileira, a equipa do povo, com a maior torcida do país (Gaviões da Fiel), começa a discutir política abertamente e a questionar-se sobre o porquê da ditadura. É político.

1983, Sócrates faz da vida uma filosofia. Antes de embarcar para Itália (Fiorentina), na despedida oficial do Corinthians com o bicampeonato paulista, entra em campo com uma faixa de 10 metros de comprimento, onde se lê "Ganhar ou perder, mas sempre com democracia." Já ganhou, dizemos nós. E confirma o povo. É filósofo.

Doutor, político e filósofo. Sócrates é isso mesmo. Separado e tudo junto. Com ou sem barba. Com ou sem fita na cabeça. É Sócrates. O sábio que reconhece os limites da própria ignorância. O jogador que entrava em debates políticos na televisão ou improvisava discursos no parque mais perto de si. O homem da entrevista i neste fim-de-semana de eleições legislativas. Sócrates. O herói do povo. Brasileiro (esclareça-se). A referência da política. Brasileira (insistimos).

Comecemos pela estética. O Sócrates é um ídolo em Portugal.

Ué, eu?

Quem havia de ser?

Mas como?

Você é o Sócrates do futebol-arte no Mundial-82, o Doutor, da fita na cabeça no Mundial-86 no México a dizer "México, continua em pé" depois do violento terramoto. É ainda a cara da Democracia Corintiana. Alguém com 30 anos ou mais sabe isso de cor e salteado. O que era a democracia corintiana?

Uma sociedade que decidia tudo no voto e a maioria simples levava vantagem nas decisões, absolutamente democrático. O roupeiro tinha o mesmo peso de voto de um manda-chuva.

E não havia votos em branco ou nulos?

Ué, se você não quer participar de uma sociedade, não vota e aguenta a decisão da maioria.

E a direcção, o presidente?

A direcção participava, claro. Um voto era da direcção.

Foi um movimento histórico no futebol?

Eu, pelo menos, não conheço nada parecido com isso. Foi o processo de "redemocratização" de um país.

E o futebol-arte do Brasil no Mundial- -82 também foi um movimento lírico?

Sabe uma coisa?

Chuta.

Esse futebol-arte que você diz já não existe. Os africanos eram os últimos da fila mas começaram a contratar treinadores estrangeiros e perderam a ingenuidade. A filosofia burocrática prendeu-os. E o ser livre quando preso não consegue expressar a sua arte. Se o futebol dependesse da minha tese de mestrado, tirava dois jogadores a cada equipa e ficava nove para nove. Aí, havia espaço como dantes e ''botava o pessoal para correr, criar, imaginar. Hoje em dia, qualquer defesa só joga porque atira a bola para o lado, para a frente, para fora. Se fosse nove para nove, o defesa teria de saber tocar na bola, jogar de cabeça levantada, sair para o ataque. Sabe outra coisa?

Vai em frente.

Naquela tarde em que perdemos com a Itália (2-3), em Barcelona, e fomos eliminados do Mundial-82, há um pormenor curioso. Entrámos todos para o autocarro mas não pudemos sair do estádio naquele instante porque estávamos a ser barrados pelo autocarro da Itália. E eles demoraram mais tempo a tomar banho, a vestir-se e a sair, naturalmente. Estiveram a festejar. E nós dentro do autocarro, à espera deles. Sabe...

Não faço ideia.

Só voltei a ver esse jogo sei lá quantos anos depois. Em Tóquio. Isso aí, no Japão. Estava lá num hotel, e de repente começa o jogo. Ué, Brasil-Itália de 1982. Vamos ver. E vi.

O Sócrates não foi campeão mundial, mas o seu irmão Raí... [eu quero dizer que foi campeão mundial em 1994, nos EUA]

Calma aí.

Então, há mais irmãos?

Nós somos seis. Cinco homens e o Raí.

Hã?

Porque o Raí é diferente, todas as mulheres o querem. O resto é homem normal. Para arranjar uma mulher é sufoco. E o Raí é da fase do contra-filé [carne].

Como é que é?

É isso aí. Eu nasci em Belém do Pará, mas o meu "véio" [pai] virou funcionário público. Inscreveu-se num concurso e entrou. Inventou de mudar o seu destino e lá fomos para o Sul, onde nos foi dada a oportunidade de ler, estudar e aprender. Eu fui criado em Ribeirão Preto. O Raí já nasceu em Ribeirão. Por isso te digo: ele tem o beiço grande porque já é a fase do contra-filé. Eu ainda sou da fase do sem filé [arroz e feijão]. Nasci naqueles tempos maus para a família.

E a história de fazer o curso de Medicina veio de onde?

Não sei. Ainda hoje é um lance que desconheço. Às vezes penso ''como é que inventei de fazer medicina?'' Não tinha referências. Nenhum tio, nem tia, nada... Devia ser algum lance social.

E a história da democracia corintiana veio de onde?

De todos e mais algum. De todas as pessoas com quem me relacionei. O ser futebolista tem isto de estar num local onde o número de pessoas é muito maior do que em qualquer outra actividade. E, por vezes, é a meio da semana e ao fim-de-semana. Fui um privilegiado porque tudo o que sei, o que penso e o que sinto é desses ensinamentos diários. Do povo, claro. Não há um lugar próprio que nos ensine ''isso''. A sensibilidade política é estimulada por esses contactos frequentes, diários.

E a política de hoje. No futebol, digo. Afinal, a Taça das Confederações-2013 é no Brasil, o Mundial-2014 é no Brasil, a Copa América-2015 é no Brasil e os Jogos Olímpicos-2016 são no Rio. Prato cheio, hein?

E o Pan-Americano em 2007, no Rio? Esqueceu esse. A verdade é que a FIFA e o COI [Comité Olímpico Internacional] instalaram-se no Brasil. Chegam aqui, tomam o dinheiro do povo, impõem a lei do não imposto e o resto... Daqui a pouco, a FIFA sai daqui e já não tem nada a ver com o Brasil. Mas o projecto continua cá, e deixou de ser meramente desportivo. É também social e político. Se querem deixar um legado, que haja interesse genuíno em mudar as coisas. Que não seja só para ganhar dinheiro.

Mas quem é que ganha dinheiro?

Que eu saiba, aqui no Brasil ainda não chegou a organização. Aliás, até existe uma desorganização direccionada para que os investimentos sejam entregues às obras sem passar por licitações. Quanto mais demorado, melhor! Aí, é tudo uma emergência e esse estatuto vale mais um desvio do "fundo".

...

Imagina só, todos os estádios vão ser reformados, alguns com um custo absurdo. O Maracanã, por exemplo, quantas vezes foi para obras nos últimos três anos? Umas cinco vezes. E o Mineirão? Também é um caso parecido. E vão construir um estádio novo na Bahia! E em São Paulo, para quê um estádio novo? O São Paulo é que fez bem porque tinha de fazer um investimento de 700 milhões no Morumbi. Para quê? Reestruturação! Ahhhhh... O dinheiro anda e alguém ganha com isso mas o povo é que fica a ver. É uma situação ingrata para o povo. Até na escolha das sedes. Mas então como é que se escolhe Manaus em vez de Belém? E Cuiabá é cidade-sede? Constroem lá um estádio que depois fica inactivo após a Copa? Brasília é a mesma coisa. Natal, também. Isto é desperdício de dinheiro. Desviam-se verbas mais importantes para isto. O Estado deveria intervir, mas não... Até parece que está tudo bem, mas não... Está na mão de gente sem compromisso com nada, só com interesses pessoais.

Nota: tivemos o cuidado de lhe ligar só depois do Real Madrid-Barcelona. 
Rui Miguel Tovar, jornal i, 04.06.11

quarta-feira, junho 01, 2011

"gonna rise up"



Such is the way of the world
You can never know
Just where to put all your faith
And how will it grow
Gonna rise up
Burning back holes in dark memories
Gonna rise up
Turning mistakes into gold
Such is the passage of time
Too fast to fold
And suddenly swallowed by signs
Low and behold
Gonna rise up
Find my direction magnetically
Gonna rise up
Throw down my ace in the hole.

Rise, Eddie Vedder

para a criança que todos têm...