sábado, junho 04, 2011

Sócrates. "Quem vota em branco ou nulo que aguente a decisão da maioria"

1978, Sócrates faz do futebol um curso superior. Estuda e joga ao mesmo tempo. Em Ribeirão Preto e no Botafogo de Ribeirão Preto. Na USP, a terceira melhor faculdade do Estado de São Paulo, depois de Pinheiros e Paulista. Entra com a melhor média de todos os alunos e sai com o curso de Medicina, que hoje exerce. É doutor.

1981, Sócrates faz do futebol uma política e inicia-se a democracia corintiana. O que é isso? É tão só a materialização de um ideal banal mas pouco em voga, que consiste num diálogo aberto entre jogadores e corpo técnico. Todos participavam das decisões do clube: jogadores, roupeiro, técnico, presidente. O voto de cada um possuía o mesmo valor. Em plena ditadura militar brasileira, a equipa do povo, com a maior torcida do país (Gaviões da Fiel), começa a discutir política abertamente e a questionar-se sobre o porquê da ditadura. É político.

1983, Sócrates faz da vida uma filosofia. Antes de embarcar para Itália (Fiorentina), na despedida oficial do Corinthians com o bicampeonato paulista, entra em campo com uma faixa de 10 metros de comprimento, onde se lê "Ganhar ou perder, mas sempre com democracia." Já ganhou, dizemos nós. E confirma o povo. É filósofo.

Doutor, político e filósofo. Sócrates é isso mesmo. Separado e tudo junto. Com ou sem barba. Com ou sem fita na cabeça. É Sócrates. O sábio que reconhece os limites da própria ignorância. O jogador que entrava em debates políticos na televisão ou improvisava discursos no parque mais perto de si. O homem da entrevista i neste fim-de-semana de eleições legislativas. Sócrates. O herói do povo. Brasileiro (esclareça-se). A referência da política. Brasileira (insistimos).

Comecemos pela estética. O Sócrates é um ídolo em Portugal.

Ué, eu?

Quem havia de ser?

Mas como?

Você é o Sócrates do futebol-arte no Mundial-82, o Doutor, da fita na cabeça no Mundial-86 no México a dizer "México, continua em pé" depois do violento terramoto. É ainda a cara da Democracia Corintiana. Alguém com 30 anos ou mais sabe isso de cor e salteado. O que era a democracia corintiana?

Uma sociedade que decidia tudo no voto e a maioria simples levava vantagem nas decisões, absolutamente democrático. O roupeiro tinha o mesmo peso de voto de um manda-chuva.

E não havia votos em branco ou nulos?

Ué, se você não quer participar de uma sociedade, não vota e aguenta a decisão da maioria.

E a direcção, o presidente?

A direcção participava, claro. Um voto era da direcção.

Foi um movimento histórico no futebol?

Eu, pelo menos, não conheço nada parecido com isso. Foi o processo de "redemocratização" de um país.

E o futebol-arte do Brasil no Mundial- -82 também foi um movimento lírico?

Sabe uma coisa?

Chuta.

Esse futebol-arte que você diz já não existe. Os africanos eram os últimos da fila mas começaram a contratar treinadores estrangeiros e perderam a ingenuidade. A filosofia burocrática prendeu-os. E o ser livre quando preso não consegue expressar a sua arte. Se o futebol dependesse da minha tese de mestrado, tirava dois jogadores a cada equipa e ficava nove para nove. Aí, havia espaço como dantes e ''botava o pessoal para correr, criar, imaginar. Hoje em dia, qualquer defesa só joga porque atira a bola para o lado, para a frente, para fora. Se fosse nove para nove, o defesa teria de saber tocar na bola, jogar de cabeça levantada, sair para o ataque. Sabe outra coisa?

Vai em frente.

Naquela tarde em que perdemos com a Itália (2-3), em Barcelona, e fomos eliminados do Mundial-82, há um pormenor curioso. Entrámos todos para o autocarro mas não pudemos sair do estádio naquele instante porque estávamos a ser barrados pelo autocarro da Itália. E eles demoraram mais tempo a tomar banho, a vestir-se e a sair, naturalmente. Estiveram a festejar. E nós dentro do autocarro, à espera deles. Sabe...

Não faço ideia.

Só voltei a ver esse jogo sei lá quantos anos depois. Em Tóquio. Isso aí, no Japão. Estava lá num hotel, e de repente começa o jogo. Ué, Brasil-Itália de 1982. Vamos ver. E vi.

O Sócrates não foi campeão mundial, mas o seu irmão Raí... [eu quero dizer que foi campeão mundial em 1994, nos EUA]

Calma aí.

Então, há mais irmãos?

Nós somos seis. Cinco homens e o Raí.

Hã?

Porque o Raí é diferente, todas as mulheres o querem. O resto é homem normal. Para arranjar uma mulher é sufoco. E o Raí é da fase do contra-filé [carne].

Como é que é?

É isso aí. Eu nasci em Belém do Pará, mas o meu "véio" [pai] virou funcionário público. Inscreveu-se num concurso e entrou. Inventou de mudar o seu destino e lá fomos para o Sul, onde nos foi dada a oportunidade de ler, estudar e aprender. Eu fui criado em Ribeirão Preto. O Raí já nasceu em Ribeirão. Por isso te digo: ele tem o beiço grande porque já é a fase do contra-filé. Eu ainda sou da fase do sem filé [arroz e feijão]. Nasci naqueles tempos maus para a família.

E a história de fazer o curso de Medicina veio de onde?

Não sei. Ainda hoje é um lance que desconheço. Às vezes penso ''como é que inventei de fazer medicina?'' Não tinha referências. Nenhum tio, nem tia, nada... Devia ser algum lance social.

E a história da democracia corintiana veio de onde?

De todos e mais algum. De todas as pessoas com quem me relacionei. O ser futebolista tem isto de estar num local onde o número de pessoas é muito maior do que em qualquer outra actividade. E, por vezes, é a meio da semana e ao fim-de-semana. Fui um privilegiado porque tudo o que sei, o que penso e o que sinto é desses ensinamentos diários. Do povo, claro. Não há um lugar próprio que nos ensine ''isso''. A sensibilidade política é estimulada por esses contactos frequentes, diários.

E a política de hoje. No futebol, digo. Afinal, a Taça das Confederações-2013 é no Brasil, o Mundial-2014 é no Brasil, a Copa América-2015 é no Brasil e os Jogos Olímpicos-2016 são no Rio. Prato cheio, hein?

E o Pan-Americano em 2007, no Rio? Esqueceu esse. A verdade é que a FIFA e o COI [Comité Olímpico Internacional] instalaram-se no Brasil. Chegam aqui, tomam o dinheiro do povo, impõem a lei do não imposto e o resto... Daqui a pouco, a FIFA sai daqui e já não tem nada a ver com o Brasil. Mas o projecto continua cá, e deixou de ser meramente desportivo. É também social e político. Se querem deixar um legado, que haja interesse genuíno em mudar as coisas. Que não seja só para ganhar dinheiro.

Mas quem é que ganha dinheiro?

Que eu saiba, aqui no Brasil ainda não chegou a organização. Aliás, até existe uma desorganização direccionada para que os investimentos sejam entregues às obras sem passar por licitações. Quanto mais demorado, melhor! Aí, é tudo uma emergência e esse estatuto vale mais um desvio do "fundo".

...

Imagina só, todos os estádios vão ser reformados, alguns com um custo absurdo. O Maracanã, por exemplo, quantas vezes foi para obras nos últimos três anos? Umas cinco vezes. E o Mineirão? Também é um caso parecido. E vão construir um estádio novo na Bahia! E em São Paulo, para quê um estádio novo? O São Paulo é que fez bem porque tinha de fazer um investimento de 700 milhões no Morumbi. Para quê? Reestruturação! Ahhhhh... O dinheiro anda e alguém ganha com isso mas o povo é que fica a ver. É uma situação ingrata para o povo. Até na escolha das sedes. Mas então como é que se escolhe Manaus em vez de Belém? E Cuiabá é cidade-sede? Constroem lá um estádio que depois fica inactivo após a Copa? Brasília é a mesma coisa. Natal, também. Isto é desperdício de dinheiro. Desviam-se verbas mais importantes para isto. O Estado deveria intervir, mas não... Até parece que está tudo bem, mas não... Está na mão de gente sem compromisso com nada, só com interesses pessoais.

Nota: tivemos o cuidado de lhe ligar só depois do Real Madrid-Barcelona. 
Rui Miguel Tovar, jornal i, 04.06.11

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