terça-feira, junho 07, 2011

"Viva o PSD! Viva o fim da crise! Viva Passos Coelho!"

Tal como aconteceu com Alice, seguir um Coelho até à sua toca (o piso -2 do hotel Sana) revela um país das maravilhas. Um país que não existe.
Durante a campanha ouviu-se por várias vezes políticos e comentadores referirem-se aos problemas do "país real". Era importante conhecer este território longínquo, ouvir o que diziam os seus habitantes, dar a mão a esse povo esquecido. O conceito não é novo, mas conserva a piada. Não há até agora nenhum território virtual dentro das nossas fronteiras, nem prados verdejantes pisados por unicórnios. À partida, todo o país é real. Ou pelo menos era.

Ontem, no bar do Hotel Sana, na Avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, a bica custava €2,50 - mais dois euros do que no país real, disponível logo do outro lado da rua, no restaurante "O Cardo". Descendo dois pisos até às salas onde reunia uma mistura fina de apoiantes de Passos Coelho - os homens de fato que a TV nos descreve como "notáveis do PSD", o ocasional jornalista estrangeiro atónito, a Carla Matadinho - respirava-se outro ar. Podia ser um tipo raro de oxigénio combinado com partículas de optimismo. Podia ser só optimismo.

Ainda não eram conhecidos os resultados e já apoiantes do PSD agitavam as bandeiras, espécie de reflexo pavloviano à exibição de percentagens num ecrã. A contagem final para os resultados causou um burburinho na sala principal (plasmas, canapés, sumos feitos a partir de concentrado, alcatifa em padrão fantasia) e segundos depois começava a gritaria. "Pê-ésse-dê, pê-ésse-dê", primeiro; "Por-tu-gal-e", depois; "Vi-tó-ri-a", por fim. Braços no ar, abraços no chão, cumprimentos e palmadinhas nas costas. Tudo enquanto durou a luz vermelha nas câmaras de TV anunciando o directo.

Miúdos de blazer azul com botões dourados, camisas brancas e calças bege abraçam-se efusivamente. Formam um círculo. Começam a adaptar cânticos futebolísticos às cores políticas, mas são rapidamente traídos pela falta de rimas. Há ainda um "e quem não salta, não é JSD". Mas a métrica não funciona. São os Jotas quem mantém os níveis de euforia enquanto os crescidos estão preocupados em saber se há maioria absoluta ou não. Ou a tentar perceber se lhes vai calhar em sorte um lugarzinho no poder. "Esta semana é que isto vai ferver", dizia entredentes um militante. É altura de esfregar as mãos antes de pegar nos tachos. Será o suficiente para evitar queimaduras?

Chegam os comes e bebes para as celebrações. Wraps de frango, shots de fruta, tartelettes de frutos silvestres, tudo comes e bebes difíceis de encontrar no "país real" ou no restaurante "O Cardo".

"Vai ali até aquela mulher e pede-lhe para saltar que ela salta" diz um câmara ao outro. O colega aproveita para captar mais umas imagens para ilustrar os telejornais do dia seguinte. "Na sede do PSD, a alegria era contagiante" é uma hipótese para legenda. "Eu sabia que íamos ganhar desde o dia em que o Pedro apresentou o seu programa", conta embevecida uma entrevistada que trata pelo nome próprio o novo primeiro ministro do país. Quando a câmara se desliga, conta à repórter que o vestido que traz é o mesmo que usou na vitória do Cavaco. "Eu não costumo repetir roupa, mas é para dar sorte".

Passos Coelho ainda não falou. Sócrates vai falar. Na Avenida Fontes Pereira de Melo há carros a apitar em direcção ao Marquês do Pombal. "Levo a do PSD e tenho no carro uma do Sporting que se não for nestas alturas não sei quando posso voltar a usar", conta-nos Agostinho, um militante que acredita numa mudança, "daquelas à Obama".

São muitos os que ficam no hotel à espera do homem a quem chamaram o "Obama de Massamá" e forneceu ao país a definição genealógico-geográfica mais confusa em 37 anos de democracia. "A minha mulher é guineense e eu sou português, por isso a nossa filha é africana". Há quem veja no "Homem Invulgar", título da biografia de Passos Coelho, qualidades sobre-humanas que justificam gritos de vitória como este: "Viva o PSD! Viva o fim da crise! Viva Passos Coelho!"

O sentimento de que a crise havia terminado e o BCE e FMI eram siglas amigáveis dominava os pisos inferiores do Hotel Sana. Horas antes, Passos Coelho tinha garantido a um jornalista alemão que Portugal sairia da crise num prazo de três anos. Todo este optimismo não passa inteiro pelo filtro da realidade.

Em "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carrol, a inocente Alice persegue um coelho branco vestido de colete por uma toca. Lá em baixo, há um mundo de fantasia onde a lógica não funciona. Farta de seguir o coelho, Alice pede ajuda ao gato de Cheshire.

"- Para que caminho vou agora?, pergunta Alice

- Para onde queres ir?, responde o Gato.

- Não sei.

- Então se não sabes para onde queres ir não precisas de saber o caminho."Às vezes não basta seguir o coelho.


Luis Leal Miranda, in jornal i, 06.06.11

nota: esta reportagem marca o adeus ao jornal i de um jovem jornalista de grande valor. foi bom lê-lo.
nota 2: entretanto já passaram mais de 24 horas desde a vitória do psd e não me parece que a crise tenha acabado. estranho...

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