sábado, julho 30, 2011

"libertem-se! libertem-se!"


o teatro liberta-se do palco e das regras. é assim, ou quase sempre, com o'Bando. são muitas personagens e acção. e acção. e acção. a música é ofegante, empolgante e ansiosa. a peça, um quadro vivo.
no pino do verão o cenário é 3d e o público embora pouco habituado a estas coisas (decididamente ainda não é o das comédias do minho) liberta-se dos seus hábitos e costumes mais enraizados. participa, ouve eugénio de andrade, escuta música pouco convencional e pensa... sobre este cenário. que já lhe foi mais familiar e, de repente, tornou-se tão frio e desconhecido. e não é da nortada nem da falta da manta.
e depois há o incauto velho da vila, que se surpreende quando a montanha se ilumina. e há o cão inesperado que rouba risos à plateia e luz aos actores. jerusalém? há o verso de eugénio. provocantemente poético. e há um palco múltiplo a exigir o melhor do greenway que cada um traz consigo.e hoje trememos de susto com o sol sustenido da lírica ou desejamos calorosamente a fartura gulosa. e acabamos vendo mais do que se vê naquele escuro. e não é da lanterna.
o som cresce. intensifica. no pó solto daqueles pés irrequietos, ali, bem no alto do castelo, vejo: "um israelita e um palestino juntos" e sei que não é chromeo, nem "o julgamento dos povos emancipados" feitos diabretes. é a natureza morta feita retrato de cor, som e palavra. é eugénio de andrade por joão brites ou a realidade islandesa que podia ser nossa. é a liberdade numa noite de fim de julho. e não fico sentado. e não é da falta do banco.
no pino do verão é isto. assim. é assim todos os anos. é assim para todos. é assim como que um pedido: "libertem-se".

pino do verão 2010

nota: publicado inicialmente no bobina e desbobina.

terça-feira, julho 26, 2011

a violência contra animais existe...

porque há pombos que estão mesmo a pedi-las. (link)

domingo, julho 24, 2011

Sigamos o que diz o terrorista

Naquela solitária frase de Anders Breivik, uma semana antes de se pôr a matar, é uma citação de Stuart Mill, mas exagerada: "Uma pessoa que acredita tem a força de 100 mil que só têm interesses," escreveu o terrorista no Twitter. Na verdade, o filósofo inglês só comparou a força do crente à de 99 homens sem convicções... Foi pena que Breivik não tivesse adoptado outra frase do pensador da liberdade e da responsabilidade que é Stuart Mill: "A liberdade do indivíduo deve ser limitada: ele não pode fazer mal aos outros." Mas sendo as palavras o que são, manipuláveis, de que valeria a Breivik, capaz de caçar calmamente dezenas de jovens a tiro, ter essa sentença como lema? Não serviria de nada, e acaba por ser preferível que a frase escolhida tivesse sido a que foi, a da força dos convictos. O filósofo disse-a em elogio, pressupondo que o crente tem intenções nobres. O problema é quando a crença é desvirtuada pelos maus. Qualquer polícia sabe que se um criminoso quiser, muito, matar alguém, dificilmente será impedido de o fazer, e o melhor que um bom polícia pode garantir é que o criminoso será apanhado. Isso foi transportado da segurança do cidadão para a da sociedade inteira. Hoje, terroristas convictos, mesmo poucos, podem fazer mal a milhares, a um país inteiro. Mas a frase de Stuart Mill, hoje sequestrada pelos maus, pode ser recuperada pelos cidadãos: sem convicção na liberdade não vamos lá. 

Ferreira Fernandes in DN, 24 VII 2011

sexta-feira, julho 22, 2011

isto não é da "troika"

passado
um terço dos deputados tinha assento em empresas do estado, propondo posteriormente leis que as favoreciam. os gestores portugueses são dos menos qualificados na OCDE. os gestores que apresentaram gestões evidentemente danosas nunca foram responsabilizados pelas suas acções. portugal gasta em educação mais do que a média europeia e apresenta os piores resultados.a economia paralela encontra-se em crescendo. o «povo» habitou-se facilmente aos direitos adquiridos mas nunca aos deveres necessários. o «povo» aceitou ser chamado «povo», apesar da evidente estratificação que isso significa.
o passado é o nosso presente.


presente
o governo baixou as indemnizações em caso de despedimento. o governo vai cortar até 50% nos subsídios de natal (mesmo para os que não o recebem). o governo quer aumentar 15% nas tarifas de bordo e passes sociais dos transportes.o governo desiste das golden shares. o governo fecha as escolas que achava que não deviam fechar há três meses. o governo prepara-se para alienar património a preço de revenda. o governo privatizará apenas os organismos que dão lucro. o governo nomeia toda uma nova administração para a CGD (de profunda confiança política) e mantém em funções o anterior presidente. o governo não cobra nenhum imposto especial sobre a banca. o governo... 
o presente arruína o nosso futuro.

futuro
ser ou não ser pessimista? a europa está em crise. faltam figuras de referência. faltam valores. falta europeístas. e, contudo, nunca fomos tão europeus como hoje. os jovens viajam, estudam, trabalham por toda a europa. acreditam nela. e os políticos? a política que temos é o triste resultado de um jogo que perdemos por falta de comparência. os «maus» apenas ganharam porque ninguém vai a jogo. todos os jovens descem a avenida da liberdade, fazem acampamentos e são contras as provas globais da nossa vida, mas nunca fazem política. a nobre política perdeu-se, e apenas sobram os reles interesseiros das juventudes partidárias. e compensa? claro. nem que tenham que passar pela presidência d'os belenenses para fazer tempo.
e hoje vejo que não houve passado. foram muitos anos de ditadura. demasiados. mas ninguém saiu deles. os portugueses continuaram presos à ditadura, nem que seja a da posse, a do querer mais, a do sonho de ter um trabalho para a vida, casar, comprar casa, ter 2,1 filhos. todos provincianos. como salazar quereria. e muitos dos jovens, aqueles que são dos mais qualificados que portugal já teve, continuam a querer o mesmo. o mesmo que os pais: um trabalho das 9 às 5 e um fim de semana no colombo.
o caminho não é a rua. nem a revolução. nem mesmo a falência de países, partidos ou sistemas económicos. uma das soluções passa pela acção de todos: nas eleições, nos orçamentos participativos, no apoio ao próximo, quer seja colega ou estranho. e passa por menos cigarros, cafés e pausas para conversar. chega de conversa. é hora de trabalhar a 100%. de confiar. de acreditar. e, ao mesmo tempo, julgar nos órgãos competentes os que falharam; de políticos, a gestores, de serventes a policias ou juízes. sem sangue. sem guerra. nem violência. é hora, portugal. e a  nossa acção não pode depender do que vai ser o pior governo desde o 25 de abril. o ultraliberalismo económico vai atingir níveis nunca antes vistos. porquê? porque vai ser possível comprar mais por menos. porque em portugal há bons produtos. porque é possível fazer dinheiro com portugal. e todos o sabem.

tudo isto é apenas mais um desabafo. daqueles que surgem da revolta de quem não atira a primeira pedra. eu sei que nada vai mudar amanhã. sei que vão continuar a despedir ou diminuir ordenados por email, vão dispensar os assistentes, os empregados mais frágeis, sem perceber que não são aqueles 450 ou 600 euros que dão cabo da empresa. que as empresas são é muitas vezes mal geridas. não me custa ver um mexia a ganhar muito se ele for mesmo bom. porque também pagará impostos sobre esse valor. mas custa ver o empresário que ganha o "ordenado mínimo", e o que mata um pais é a distribuição injusta e desequilibrada das injustiças e esforços. a banca tem de pagar. os maus gestores, médicos ou advogados têm de pagar. os bons têm de ser premiados. isto é apenas mais um desabafo. eu sei que nada vai mudar...
porque o futuro não chegará amanhã.

quarta-feira, julho 20, 2011

Entretanto

Não há que ter ilusões:
nós também somos

o fim da nossa estrada.
Com estas mãos,

com este mesmo coração
é que chegamos

ao cabo do futuro
à extrema situação

de que partimos.
Mas, entretanto,

escrevamos.

Rui Pires Cabral

terça-feira, julho 19, 2011

os outros caminhos que não esqueço...



Vídeo apresentado na defesa do relatório de estágio do Mestrado de Edição de Texto na FCSH (2011).

Autoria: Orson Welles; João Tibério; João Manso.

segunda-feira, julho 18, 2011

Calinadas imaginativas

Um dia destes, ao falar com uma médica, apercebi-me dos problemas que as pessoas analfabetas – ou quase analfabetas – têm para compreender ou reproduzir palavras ou expressões que se prendem com a saúde (e não só). Já sabia, por exemplo, que muita gente crê que deve medir a atenção com regularidade para prevenir enfartes e tromboses e que agora está na moda as parturientes pedirem uma pipidural, de forma a não gritarem de dores com a dilatação; mas ainda não tinha ouvido que há pessoas que sofrem de úrsulas no estômago, que morrem de homilias pulmonares e que as gravidezes utópicas quase sempre (pois claro) acabam mal. Contou-me ainda a médica que os filhos de uma sua paciente terminal, perante a morte iminente da progenitora, lhe revelaram que esta tinha manifestado o desejo de ser cromada; e que, por existirem alguns problemas de identidade com um homem que deu entrada no banco do hospital, este referiu que tudo se resolveria em breve, pois recentemente tinha passado a afectivo no emprego e já metera os papéis para ser neutralizado português...

Maria do Rosário Pedreira in Horas Extraordinárias

Panda Bear - Benfica - Vai Tu



Já é 4ª Feira, dia 20? É que vão vir charters de benfiquistas para ver o jogo de apresentação no Vai Tu. E até a Benfica TV vai lá estar! Estão todos convidados! E o Panda Bear? Não sei, mas tem muito bom gosto...

welcome back!

http://oblogdodesassossego.blogspot.com/

segunda-feira, julho 11, 2011

quando os livros vão ao teatro apresentar-se

O novo romance de Francisco Moita Flores, «A Opereta dos Vadios», é apresentado por Herman José, no dia 12 de Julho, no salão do Teatro Trindade, em Lisboa, às 18.30h

O milagre do lixo

«Será que se pode levar um murro no estômago e ver a luz? Pelos Actos dos Apóstolos, sabemos que São Paulo, quando ainda se chamava Saulo e perseguia cristãos, foi cegado por uma luz fortíssima que o fez cair do cavalo quando viajava na estrada para Damasco. Depois deste momento, mudou de nome e tornou-se no mais importante apóstolo da fé cristã que antes perseguia.
Tudo pode acontecer. Sobretudo em Portugal. O que testemunhámos na última semana com o nosso Presidente da República foi um episódio de conversão digno de São Paulo na estrada de Damasco. Cavaco Silva dizia, há poucos meses ainda, que Portugal tinha de dar a outra face - "não vale a pena recriminar as agências de rating", foram as palavras usadas. Agora, quando o Governo é do seu partido e a Moody"s nos classifica como "lixo", diz que elas "são uma ameaça". Antes explicou-nos que "não podemos insultar os mercados, que são quem nos empresta o dinheiro"; agora anseia por expulsar os vendilhões do templo.
Mas há aqui diferenças fundamentais. São Paulo viu primeiro a luz e só depois caiu do cavalo. Aqui, a causa física - o murro no estômago - deu-se antes da iluminação espiritual. Mais milagroso ainda, quem levou o murro no estômago foi uma pessoa - o primeiro-ministro - e quem teve a revelação foi o Presidente da República. Creio que estas duas personagens vivem em união mística como nunca antes se vira entre Belém e São Bento. São Pai e Filho, a que devemos acrescentar Paulo Portas como Espírito Santo. Este não é só o Governo da troika; é também o Governo da Santíssima Trindade.
E o próprio país, que ainda não viu a luz ao fundo do túnel, viu também a luz ao fundo do estômago. Finalmente uma maioria de comentadores apercebeu-se de que o problema está na incapacidade europeia em resolver uma crise europeia e as televisões encheram-se de gente a suspirar pelos eurobonds que permitiriam mutualizar a dívida da zona euro.
Finalmente. Com a autoridade de quem escreve sobre mutualização de dívida desde que a crise começou e alertou, repetidamente e sem êxito, contra a futilidade do nosso debate excessivamente doméstico, deixem-me apreciar este momento. E, logo a seguir, explicar que a coisa não é assim tão simples.
Sim, o problema está na incapacidade europeia em resolver uma crise europeia. Mas essa incapacidade não se dá pela falta de boas soluções técnicas. A criação de uma agência de notação europeia, em si uma boa ideia por trazer um pouco mais de pluralidade aos ratings, só contrapõe um conflito de interesses positivo ao conflito de interesses negativo que existe agora.
Quanto à criação de eurobonds, ela leva-nos para o cerne da questão. Quando houver um mercado de dívida de 4 ou 5 biliões de euros, quem administrará esse dinheiro? A Comissão Europeia? Mas nós não elegemos a Comissão. Teremos, pois, de passar a eleger um Governo europeu, e complementar a federalização económica com uma federalização política. A coisa não vai lá com um "euroministro das Finanças" com poder de veto, mas apenas com a construção de uma democracia europeia que suplante este clube de democracias.
Esta crise não é uma crise das dívidas soberanas. Onde há dívida, já não há soberania monetária. Onde está a soberania monetária (em Frankfurt), não há dívida - nem democracia. Ou trazemos a soberania de volta para onde estava, e temos uma refragmentação europeia; ou levamos a nossa democracia para onde está o poder, e temos federalização. A estrada de Damasco não acabou aqui. À frente, temos uma bifurcação. A próxima crónica será ainda sobre isto.»

Rui Tavares in Público, 11 de Julho de 2011

para ver, rever e pensar...

Debtocracy

O filme "Debtocracy" (ou "Dividocracia", em português) tem 74 minutos e apresenta uma explicação detalhada sobre as causas da crise financeira que a Grécia atravessa neste momento, relacionando-a com toda a complexa situação mundial e apontando soluções possíveis para uma saída (e que passam por não pagar parte da dívida pública aos credores internacionais e por ).

A SIC Notícias decidiu transmiti-lo este domingo, às 23 horas, tornando-se assim o primeiro canal de televisão na Europa a pô-lo no ar. A transmissão vai ser seguida de um debate moderado pelo jornalista Mário Crespo e com a presença dos economistas João Duque e Octávio Teixeira.

Aris Hatzistefanou e Katerina Kitidi, jornalistas e realizadores, juntaram-se a Leonidas Vatikiotis, jornalista e economista especializado em crises económicas, e montaram uma campanha de recolha de donativos nas redes sociais para recolherem dinheiro suficiente para produzir "Debtocracy".

Conseguiram-no. Lançado em Abril na internet, num esquema de direitos de transmissão gratuitos, o documentário rapidamente se transformou num fenómeno de popularidade. Foi mostrado nas praças de quase todas as cidades gregas e começou a circular em cidades de outros países da Europa. Jornais e televisões de todo o mundo fizeram peças sobre ele.
"O melhor filme de análise económica marxista alguma vez feito"

O diário britânico "The Guardian" considerou-o "o melhor filme de análise económica marxista alguma vez feito", descrevendo a forma viral com que tem sido visto como uma espécie de "samizdat" da dívida pública grega. "Samizdat" era o termo russo que se usava no Bloco Soviético para passar informação clandestinamente de mão em mão.

A verdade é que até agora, mais de dois meses depois do seu lançamento, e apesar de o filme ser gratuito, tirando o caso de alguns canais alternativos na Grécia, "Dividocracia" ainda não foi transmitida por qualquer televisão na Europa. "Nós não temos conhecimento de nenhum canal de televisão na Europa que o tenha posto no ar", admite Aris Hatzistefanou ao Expresso, "embora ele tenha sido falado e sido objecto de reportagens especiais em programas de televisão em todos os cantos do mundo, incluindo na BBC, na CNN, na Al Jazeera e em todas as outras".

in Expresso

sábado, julho 09, 2011

Mako Mady


Ballaké Sissoko & Vincent Ségal

quinta-feira, julho 07, 2011

[he had lost contact with language]

Ever since the time when he lived for almost a year with the thought that he had lost contact with language, every sentence he managed to write, and which in addition left him feeling that it might be possible to go on, had been an event. Every word, not spoken but written, that led to others, filled his lungs with air and renewed his tie with the world. A successful notation of this kind began the day for him; after that, or at least so he thought, nothing could happen to him until the following morning.

Peter Handke in The Afternoon of Writer

quarta-feira, julho 06, 2011

You bastards

Choque. Escândalo. Lixo. Resignação? Não. Mas sim, lixo, somos lixo. Os mercados são um pagode, e nós as escamas dos seus despojos.

Isto não é uma reacção emotiva. Nem um dichote à humilhação. São os factos. Os argumentos. A Moody's não tem razão. A Moody's não tem o direito. A Moody's está-se nas tintas. A Moody's pôs-nos a render. E a Europa rendeu-se.

As causas da descida do "rating" de Portugal não fazem sentido. Factualmente. Houve um erro de cálculo gigantesco de Sócrates e Passos Coelho quando atiraram o Governo ao chão sem cuidar de uma solução à irlandesa. Aqui escrevi nesse dia que esta era "a crise política mais estúpida de sempre". Foi. Levámos uma caterva de cortes de "rating" que nos puseram à beira do lixo. Mas depois tudo mudou. Mudou o Governo, veio uma maioria estável, um empréstimo de 78 mil milhões, um plano da troika, um Governo comprometido, um primeiro-ministro obcecado em cumprir. Custe o que custar. Doa o que doer. Nem uma semana nos deram: somos lixo.

As causas do corte do "rating" não fazem sentido: a dificuldade de reduzir o défice, a necessidade de mais dinheiro e a dificuldade de regressar aos mercados em 2013 estão a ser atacadas pelo Governo. Pelo País. Este corte de "rating" não diagnostica, precipita essas condenações. Portugal até está fora dos mercados, merecia tempo para descolar da Grécia. Seis meses, um ano.

Só que não é uma questão de tempo, é uma questão de lucro, é uma guerra de poder. Esta decisão tem consequências graves e imediatas. Não apenas porque o Estado fica mais longe de regressar aos mercados. Mas porque muitos investidores venderão muitos activos portugueses. Porque é preciso reforçar colaterais das nossas dívidas. Porque hoje todos os nossos activos se desvalorizam. As nossas empresas, bancos, tudo hoje vale menos que ontem. Numa altura de privatizações. De testes de "stress". Já dei para o peditório da ingenuidade: não há coincidências. Hoje milhares de investidores que andaram a "shortar" acções e dívidas portuguesas estão ricos. Comprar as EDP e REN será mais barato. Não estamos em saldos, estamos a ser saldados. Salteados.

Portugal foi um indómito louco, atirou-se para um precipício, agarrou-se à corda que lhe atiraram. Está a trepar com todas as forças, lúcido e humilde como só alguém que se arruína fica lúcido e humilde. Veio a Moody's, cuspiu para o chão e disse: subir a corda é difícil - e portanto cortou a corda.

Tudo isto não é por causa de Portugal, é por causa da guerra entre os EUA e a Europa, é por causa dos lucros dos accionistas privados e nunca escrutinados das "rating". Há duas semanas, um monumental artigo da jornalista Cristina Ferreira no "Público" descreveu a corrosão. Outra jornalista, Myret Zaki, escreveu o notável livro "La fin du Dollar" que documenta o "sistema" de que se alimentam estas agências e da guerra dólar/euro que subjaz.

Ontem, Angela Merkel criticou o poderio das agências e prometeu-lhes guerra. Não foi preciso 24 horas para a resposta: o aviso da Standard & Poors de que a renovação das dívidas à Grécia será considerado "default" selectivo; a descida de "rating" da Moody's para Portugal.

Estamos a assistir a um embuste vitorioso e a União Europeia não é uma potência, é uma impotência. Quatro anos depois da crise que estas agências validaram, a Europa foi incapaz de produzir uma recomendação, uma ameaça, uma validação aos conflitos de interesse, uma agência de "rating" europeia. Que fez a China? Criou uma agência. Que diz essa agência? Que a dívida portuguesa é BBB+ (semelhante ao da canadiana DBRS: BBB High). Que a dívida americana já não é AAA. Os chineses têm poder e coragem, a Europa deixou-se pendurar na Loja dos Trezentos... dos americanos.

Anda a "troika" preocupada com a falta de concorrência em Portugal... E a concorrência ente as agências de "rating"? Há dois dias, Stuart Holland, que assinou o texto apoiado por Mário Soares e Jorge Sampaio por um "New Deal" europeu, disse a este jornal: é preciso ter os governos a governar em vez das agências de 'rating' a mandar.

Não queremos pena, queremos justiça. A Europa fica-se, não nos fiquemos nós. O Banco Central Europeu tem de se rebelar contra esta ditadura. Em Outubro, o relatório do Financial Stability Board, que era liderado por Mário Draghi, aconselhava os bancos e os bancos centrais a construírem modelos próprios para avaliarem a eligilibidade dos instrumentos financeiros por estes aceites e pôr termo ao automatismos das avaliações das agências de rating. Draghi vai ser o próximo presidente do BCE. Não precisa de acabar com as agências de "rating", precisa de levantar-se destas gatas.

Este corte de "rating" é grave. É uma decisão gratuita que nos sai muito cara. Portugal é o lixo da Europa. As agências de "rating" são os cangalheiros, ricos e eufóricos, de um sistema ridiculamente inexpugnável. As agências garantem que nada têm contra Portugal. Como dizia alguém, "isto não é pessoal, apenas negócios". Esse alguém era um padrinho da máfia.

Pedro Santos Guerreiro in Jornal de Negócios

NOTA: o aviso já tinha sido feito há muito mas ninguém quis ligar. ao menos que todos reajam agora. é hora! (e não é só de Portugal )

terça-feira, julho 05, 2011

infinity



xx

[o infinito]

Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito.


Adília Lopes in Caderno, & Etc, 2007

sexta-feira, julho 01, 2011

assim-como-um-céu-cor-de-chuva

Quando o céu se cobre assim,
acinzentando o teu olhar meigo,
descubro que é hora de te roubar daqui.

Avanço o relógio de bolso até ao dia de ser feliz,
naquela terra nova,
que descreveste no teu último sorriso.

Compro um avião infantil,
no desprezado catálogo da La Redoute,
e voo contigo
até às quentes montanhas por detrás da Patagónia.