domingo, julho 24, 2011

Sigamos o que diz o terrorista

Naquela solitária frase de Anders Breivik, uma semana antes de se pôr a matar, é uma citação de Stuart Mill, mas exagerada: "Uma pessoa que acredita tem a força de 100 mil que só têm interesses," escreveu o terrorista no Twitter. Na verdade, o filósofo inglês só comparou a força do crente à de 99 homens sem convicções... Foi pena que Breivik não tivesse adoptado outra frase do pensador da liberdade e da responsabilidade que é Stuart Mill: "A liberdade do indivíduo deve ser limitada: ele não pode fazer mal aos outros." Mas sendo as palavras o que são, manipuláveis, de que valeria a Breivik, capaz de caçar calmamente dezenas de jovens a tiro, ter essa sentença como lema? Não serviria de nada, e acaba por ser preferível que a frase escolhida tivesse sido a que foi, a da força dos convictos. O filósofo disse-a em elogio, pressupondo que o crente tem intenções nobres. O problema é quando a crença é desvirtuada pelos maus. Qualquer polícia sabe que se um criminoso quiser, muito, matar alguém, dificilmente será impedido de o fazer, e o melhor que um bom polícia pode garantir é que o criminoso será apanhado. Isso foi transportado da segurança do cidadão para a da sociedade inteira. Hoje, terroristas convictos, mesmo poucos, podem fazer mal a milhares, a um país inteiro. Mas a frase de Stuart Mill, hoje sequestrada pelos maus, pode ser recuperada pelos cidadãos: sem convicção na liberdade não vamos lá. 

Ferreira Fernandes in DN, 24 VII 2011

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