sexta-feira, setembro 30, 2011

Antuérpia

Não tenho dúvidas de que uma cidade é feita de como e com quem se experimenta cada rua. Cada viagem e cada visita são diferentes e são essas peças que vão construindo o edifício que é a cidade em nós.

Vou dizer Paris. A imagem que acabou de nascer em si é a de uma Paris que é única, exclusiva e sua. Nasce uma cidade diferente cada vez que alguém começa a ler estas palavras e mesmo que nunca a tenha visitado tem certamente uma versão própria da cidade, uma Paris que é só sua.

O que aqui me traz e me faz trazer comigo esta introdução é uma breve história que acabou por desenhar o que para mim significa Antuérpia. A minha Antuérpia.

Bruxelas recebeu-me como morador há cerca de dez anos. Levara-me lá o potencial de uma capital europeia e a disponibilidade repentina de um curso superior acabado de acabar. Uma formação em Relações Internacionais enchia de esperança cada um dos apertos de mão marcados na agenda, mas não muito depois de começar a procurar emprego tornou-se claro que teria de encontrar uma solução alternativa. O dinheiro que trouxera comigo escasseava rapidamente, e entre a minha permanência e o regresso a Lisboa cedo estaria apenas a certeza de ter de encontrar um posto de trabalho que me alimentasse, qualquer. Aos três meses de Bruxelas, comecei a trabalhar num pequeno café familiar e desinteressante nos arredores da estação de comboios, sul da cidade.

A pequena dimensão do Simon e a frequente mas reduzida lista de clientes fazia com que o Domingo significasse descanso. Cedo comecei a explorar os arredores da capital e o resto da pequena Bélgica, facilmente acessível em pouco tempo. Apaixonei-me por diversos recantos do país, entre a Valónia Industrial e o Mar do Norte, mas o charme flamengo vez-me regressar repetidamente à energia de Gante ou até à teatralidade delicodoce de Bruges.

Foi só depois de diversas viagens a outras cidades que a oportunidade me levou a Antuérpia. Não estou certo da data exacta, nem garanto o mês, mas a luz da imagem que ainda guardo sugere-me Março tardio ou já Abril. Cheguei de comboio, como sempre, e como sempre também só. A dramática e imponente estação central de comboios recebeu-me na indiferença de um ponto de passagem, cenário desfocado para muitos. Não posso dizer que o sentimento foi mútuo, muito prazer, não é sempre que se conhece uma estação assim.

O trajecto natural de quem visita uma cidade europeia pela primeira vez é instintivo, ave que sabe para onde migrar, até ao centro histórico. Procure-se catedral ou praça grande, há sempre um olho imponente no remoinho de pedra e ruas que seguimos. Antuérpia ergue-se nesse centro na forma de uma catedral luminosa e clara, coroada pelo flamejante gótico de uma torre branca e dourada. A torre impera sobre uma área circundante de onde é sempre visível e bem presente, onde fachadas frias mas calorosas, pintadas de hera sobre madeira escura, desenham ruelas românticas e gritam histórias secretas de amores e ódios medievais. Naquele domingo, e talvez em outros também, algumas dessas ruas finas eram montras e lojas sem tecto de vendedores temporários de produtos em segundas, terceiras e quartas mãos. As histórias contadas pelas próprias vielas eram agora povoadas de milhares de contos, cada um uma peça das mesas inseguras e viajadas.

O calor primaveril do fim da manhã encontrava caminho entre as paredes e esquinas até chegar a mim, perdido entre copos de cerveja raros e frágeis e gravuras teatrais e misteriosas escritas em holandês. Reparei numa banca de discos de vinil, como as há sempre nestes cenários. Apresentavam-se-me quadrados de todos os géneros, estéticos e musicais, e como sempre tomei de assalto cuidado as caixas recheadas e aleatoriamente organizadas. Há um conforto caseiro em passar os dedos por uma caixa de discos, tantos são os títulos familiares e nossos, onde quer que estejamos.

É comum e esperado encontrar pequenos detalhes da vida dos objectos em segunda mão. Livros contam dedicatórias, molduras expõem momentos à espera de reforma, segredos antigos escondem-se nas gavetas. Não foi estranho, portanto, encontrar uma mensagem escrita numa das capas de discos. Inesperado foi estar em português: “Já chorei demasiado. Não tentes contactar-me, tenho de te esquecer. Amo-te sempre. V.”. O disco era de Wagner, a sua segunda ópera, lembro-me, sem conseguir pronunciar o título. Perguntei ao vendedor daqueles produtos qual seria a história da mensagem. Um corado e louro cavalheiro belga de meia-idade, mais sorridente que sóbrio, disse-me então num inglês perfeito mas desinteressado que havia comprado uma colecção de discos onde este se incluía, assim como outros com missivas semelhantes. Não pareceu estar inclinado a continuar a descrição, talvez em especial porque cria estar prestes a dar nova morada a um relógio pesado e pouco portátil, situação naturalmente mais interessante do que eu. Voltei a mergulhar na colecção, em busca de mais mensagens de V, e o homem não conseguiu vender o relógio.

As caixas de discos ocupavam ainda muito espaço na mesa, portanto preparei-me para algum tempo de caça. Encontrei algumas outras mensagens, em holandês ou francês, que facilmente me convenceram não estar relacionadas com a mensagem anterior, até encontrar um segundo recado escrito na capa do álbum do Festival Eurovisão da Canção, 1976. “Estou ansiosa por ir ter contigo, está quase tudo tratado. Amo-te. V.” Tudo indicava que esta mensagem era anterior à primeira que li, de carácter final e banhado numa tristeza que aqui ninguém conhecia. Decidi que pelo menos durante algum tempo teria havido entre duas pessoas uma troca de mensagens através dos discos de vinil, talvez enviados, talvez entregues em mão. Por mim passaram histórias básicas de amores proibidos e famílias rivais, sem lhes dar muita atenção. O sol estava alto e sobre azul.

Depois de algum tempo a folhear os discos, encontrei uma outra mensagem em português, claramente relacionada com as anteriores. Assinava um M e afirmava “Tenho tudo de que precisamos, só faltas tu. Amo-te muito. Saudades.” Havia um M. Havia um contacto e uma troca de mensagens, esta última par perfeito da que veio antes. Não percebi relação das mensagens com os discos, aleatórios suportes. Agora tinha na mão um disco de sete polegadas dos Smith, com uma cara de criança na capa. Restava-me a curiosidade sobre o que se passara entre esta mensagem e a que li inicialmente, claramente a última, mas cuja emoção seria sublinhada por uma outra, destroçada, na capa de “Three Imaginary Boys” dos Cure: “O que se passa? Diz alguma coisa! Estou desesperada porque não ouvi mais de ti. Por favor fala comigo. V.” Li mais algumas mensagens desta índole, de uma V perdida e assustada como se um mundo novo e sem chão se estivesse a criar a seus pés. M mantinha-se ausente nestas mensagens tardias (não percebi se haveria outras noutros lugares, mas a minha leitura ali defenderia que sim). Um disco de Jacques Brel dizia “Não contei a ninguém, como combinámos. Falta pouco. M”. Acredito ser esta uma mensagem mais antiga e pacífica, quando tudo era bom e esperança entre ambos.

Esgotei os discos e caixas disponíveis. Aprendera que alguém, V, viajaria secretamente para se juntar a M e ambos sonhavam e ansiavam pelo encontro, quando M deixou de estar presente e vocal. O eco final desta troca pertence a V, destruída e perdida, sem rumo ou referência. Findo o meu campo, a pesquisa cessou sem nada ficar claro.

Tomei um caminho distinto de regresso à estação e a casa, tentando aproveitar, não muito concentrado, o que o meu guia gratuito me propunha. Levava comigo, da pequena feira, um copo antigo de Leffe, que não chegou inteiro a Bruxelas, um livro de receitas europeias e, quase obrigatoriamente, um saquinho de discos de vinil. A estação central de comboios mantinha a majestade, agora a uma luz mais madura, quando entrei para o meu comboio e facilmente encontrei um lugar sentado. Foi já com o comboio em andamento que voltei a pegar nos objectos que trazia. Comprara uma cópia de “Unknown Pleasures”, dos Joy Division, um disco normal em Antuérpia, mas aqui reparei que trazia algo de novo. Ao retirar o disco do interior escorregou para fora um envelope pequeno, já âmbar pela acção do tempo, lacrado. Na face exterior, clamava por Verónica. O interior, pautado, explicava pesadamente como um homem chamado Marco, amigo de quem escrevia, havia falecido recentemente num acidente de automóvel. Como aguardara por Verónica e pelo futuro em comum, como sofrera ainda consciente de como nada seria assim. Que era importante que esta mensagem chegasse a Verónica e que se fizesse como sempre e a enviasse num disco de vinil.

O envelope fechado esclarecia que Verónica nunca fora informada. Não consegui perceber quanto tempo passara entre cada momento. Falha-me também a razão pela qual todas estas mensagens acabaram juntas. Talvez Verónica as tenha reunido, afinal. Não sei como.

Quis a oportunidade que não regressasse àquela cidade. Antuérpia permanece, para mim, aquela rua estreia, com fachadas de hera e a feira de usados, a torre luminosa da catedral e aquela quase história, completa por mim sempre de modo diferente, como as cidades o são para cada um.


Márcio Barcelos não quer ter certezas sobre o que faz da vida e ainda tem esperança de se perder.

nota: O projecto é interessante. O conceito do cãoceito apelativo. O design atraente. Recomenda-se.

nota 2: O artigo do Márcio acerta na mouche. As cidades são "diferentes" aos olhos de cada um, sobretudo, pela companhia que cada um tem nas mesmas. Adoro descobrir cidades. Mesmo que seja repetidamente a mesma. Hoje, pelo contrário, descobrirei uma nova. Mesmo nova. E estou ansioso por conhecer as suas ruas, vielas e ver a "nossa lusitana veneza".

Sem comentários: