domingo, outubro 30, 2011

no rescaldo do DOC 2011

É outubro. E desde há nove anos que há doclisboa. Mas não é só o cinema documental que se mostra. São mil e um diferentes mundos. Visões desiguais. Ideias singulares e projectos memoráveis. O que procuro? O que guardo?
A minha lista é feita de cinquenta por cento de puro acaso e uma outra metade que procura realidades que me são desconhecidas. Da África profunda à Ásia perdida, da Europa urbanamente árida de caras conhecidas aos animais selvagens que povoam paisagens avassaladoras. Há música vista em tela. Livros gravados para sempre, nesse andamento que é o «luz, câmara, acção».
O doc é essa acção de todos os anos fugir de Lisboa sem sair daqui, e refugiar-me, sem pudor, nesse lugar comum. E é pensar que todas as queixas que nos enchem os dias são uma treta, pelo menos enquanto este mundo for tão desigual.

21 de outubro

Crónicas de Moçambique,  21h15,  Londres 1
Licínio de Azevedo é um conhecido cineasta e escritor brasileiro. Filmou (como poucos) os momentos da independência moçambicana e os tempos que se seguiram. Do interior à cidade, dos revoltosos aos que receberam as mudanças não mudando nada. Filmou pobres e menos pobres. Este documentário mostra o processo criativo e de realização de Licínio mas permite também uma viagem ao Moçambique profundo, nestes últimos 20 anos. Destacam-se as pequenas pérolas, como a da senhora que confundiu ficção com realidade e acreditava que o papel que desempenhara de noiva do brasileiro, lhe garantiria uma vida melhor em Maputo.

22 de outubro

A Nossa Forma de Vida, 17h00, Culturgest GA
A vida a dois é feita - vezes de mais -, de monólogos partilhados. De silêncios desejados, constantemente cortados por opiniões a avulso. Dois idosos; um comunismo que ultrapassa a música na árvore de natal; e as opiniões sobre a crise e as manifestações que enchem ruas. Cusquices e inquietações que transbordam os dias e enchem as semanas. Os avós do realizador deste filme são o paradigma de uma velhice que é bem mais do que um estereótipo. Divertidos, carrancudos, irónicos, mordazes, inquietos. Todo um mundo. Fechado numa casa. Num prédio com vista para o rio que não para de correr. Como a vida deles. A nossa forma de vida é a negação dos recorrentes filmes portugueses plenos de crianças infelizes, pobreza, abortos, drogas. Este documentário é um pequeno apartamento que é do tamanho do mundo. E tem a forma da nossa vida.

23 de outubro

In Film Nist,  18h00, São Jorge, São Jorge 1
Estás proibido de filmar! Pode um realizador ser proibido de filmar e viver? Jafar Panahi, um dos maiores nomes do cinema iraniano, mesmo sendo tão diferente de Kiarostami, é uma referência no cinema da actualidade. Só que um dia as suas opiniões foram demasiado… Demasiado para uma ditadura. A pena? Prisão por vários anos e a interdição de filmar. O caso faz lembrar Leni Riefenstahl mas também acabam ai as semelhanças. O que pode então fazer uma pessoa que vive para filmar? Filmar por outros. Contar um argumento. O enredo. E fazer disso um filme. Mais do que a qualidade deste documentário, o que está aqui em causa é uma postura. Uma atitude. Um exemplo.

Michel Petrucciani, 20h00, São Jorge 1
Michel Petrucciani não é o maior pianista na história do jazz. Nem sequer procuro com esta afirmação uma piada fácil. Repito, não é o maior pianista deste género. Mas é, inquestionavelmente, um dos mais importantes a ter surgido nos últimos 40 anos. A figura assaz singular ajudou à sua fama. Tal como a sua personalidade envolvente e um humor contagiante. Porém, o principal na sua (curta) carreira foi uma destreza técnica como poucos. Dizem que era graças ao seu tamanho e peso. Que atingia um ritmo que poucos conseguem. Talvez. Mas o seu ritmo e estilo próprio não têm igual. E este documentário consegue muito bem passar essa ideia.

24 de outubro
 
Cinema Komunisto, 19h15, Londres 2 
O cinema tem sido ao longo da História uma das mais poderosas ferramentas das ditaduras, sejam elas de esquerda ou direita, e este documentário faz um pouco de luz sobre esse fenómeno. A Jugoslávia de Tito. «Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido.» Ou seria um cinema? Um projecto de cinematográfico. Cinema Komunisto faz uma recolha (com bastantes toques de humor) dos principais passos na história do cinema jugoslavo. Da criação de um mega-estúdio, a atores e realizadores marcantes, fica bem patente a importância – e até paixão – que Tito dava ao papel do cinema.


25 de outubro

Hip Hop, le Monde est à vous, 20h00, São Jorge 1
Não há torre de Babel mas há uma língua universal. Dizem que há várias. Que a música é a língua universal final. Do hip hop diz-se o mesmo. Por cá canta-se: «Não percebes o hip hop», e é verdade que muitos não o entendem. Neste documentário também não encontramos respostas. Apenas olhares. Da Alemanha a Israel, dos States a França, do Mali a qualquer canto pobre no mundo. É um estilo musical onde, como poucos, a condição social é tudo. Pobreza, diferença e indiferença, abandono, revolta, são estados de alma que procuram a rima perfeita. Mesmo que não rime. A última música é pirosa, confere. Há momentos fracos, confere. Mas há hip hop visto por quem o faz e isso não é assim tão frequente.

End of the Century: the Story of the Ramones, 22h00, São Jorge 1
Pearl Jam Twenty É um documentário deveras interessante. Gosto do som da banda. Prezo a forma como sempre se engajaram politicamente. Foram e são uma referência. Para mim. E eles têm referência importantes como… Os Ramones. Gosto menos. Mas são importantes. Muito. E este documentário? Bem documentado. Tem bons momentos. Mas não marca. E mais não digo.

27 de outubro

Client 9: The Rise and Fall of Eliot Spitzer, 21h45, Londres 2
O principal documentário político do doc2011 centra-se na figura de Spitzer, o governador que tinha tudo para ser o próximo presidente dos EUA. Tinha carisma, postura, e colocava-se do lado do «povo». Todavia, não é fácil pôr em prática medidas políticas que influenciam a economia e a alta finança sem criar inimigos. Estes foram surgindo e, naturalmente, começaram a trabalhar em conjunto e sintonia. A queda de Spitzer tornou-se, por isso, uma questão do tempo. Um rabo de saias acabou por ser a causa, mesmo que o próprio assuma que não houve esquema dos republicanos ou dos seus inimigos. Mas o documentário ultrapassa em muito a figura de Spitzer, avança também sobre a questão dos media e das discutíveis relações entre política e grupos económicos, como a AIG. (ler post de Daniel Oliveira)

28 de outubro

Pixinguinha; Onde a coruja dorme, 21h00, São Jorge 3

Noite de música brasileira, Da antiga e da mais recente. A figura de Pixinguinha, para muitos desconhecida, é recuperada nesta curta feita a partir de uma bobine perdida. Um exercício no mínimo interessante. Tal como surpreendente foi o documentário seguinte dedicado à figura de Bezerra da Silva, um dos maiores nomes do pagode. Durante mais de uma hora entra-se no mundo de um conjunto de músicos que também são técnicos de ar condicionado, pintores ou alcoólicos profissionais. E as letras do pagode? Cornudos que tiram os cornos como chapéus, sogras que são cabras simpáticas, amores desconfiados, copos, maconha, etc. Falta alguma coisa? Sim. Ver.

Feitas as contas, ficam duas certezas: A nossa forma de vida ganhou merecidamente um prémio; para o ano há mais doc.

Portugueses estão a comprar menos livros

No primeiro semestre de 2011 os portugueses compraram menos livros do que no mesmo período de 2010. A descida no consumo foi de 3% e é bem menor do que aconteceu em outras áreas como a electrónica de consumo (menos 13%), o entretenimento (menos 13%) , ou a informática (menos 8%).

Estes dados foram divulgados por Ricardo Anaia, da consultora GfK, na apresentação "O Mercado dos Números" que fez no Congresso do Livro, que hoje terminou na Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores.

Numa amostra de cerca 75 por cento do mercado, já que a Gfk trabalha com dados que recebe das grandes cadeias de livrarias e de distribuição (como os hipermercados), ficando de fora algum do retalho independente, durante os primeiros seis meses deste ano venderam-se em Portugal 6,2 milhões de livros. Em 2008 foram vendidos 13,8 milhões de livros. Em 2009, 14,3 milhões e em 2010, 14,6 milhões.

Este ano, até Junho, foram facturados pelo mercado livreiro português 70 milhões de euros. O ano passado a facturação foi de 170 milhões; em 2009, de 168 milhões e em 2008, foram facturados 156,3 milhões de euros.

Num país onde se editam 55 livros por dia (este número refere-se ao ano passado), compramos mais livros em Julho, para ler nas férias, e durante o período que antecede o Natal. Em Outubro, também há um pico de compra de material de apoio escolar (dicionários, gramáticas, etc).

Quanto a livros mais vendidos, vê-se que os portugueses compram mais ficção e a colecção infanto-juvenil "Uma Aventura" aparece no top em dois anos consecutivos. Por exemplo, no primeiro semestre do ano passado, entre os livros mais vendidos em Portugal estão "Uma Aventura no Pulo do Lobo", de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães (ed. Caminho); "D. Amélia", de Isabel Stilwell (ed. Esfera dos Livros); "Juntos ao Luar" e "A Melodia do Adeus", de Nicholas Sparks (ed.Presença), "Nunca me Esqueças", de Lesley Pearse (ed.Bis); "Eclipse", de Stephenie Meyer (ed.Gailivro); "Caderneta de Cromos", de Nuno Markl (ed. Objectiva) e "Aproveitem a Vida", do actor António Feio (Livros D'Hoje).

No primeiro semestre deste ano, entre os títulos mais vendidos surge "Uma Aventura na Ilha de Timor", de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães (ed. Caminho); "Diário de um Banana - Um Dia de Cão", de Jeff Kinney (ed. Booksmile) e " A Mentira Sagrada", de Luís Miguel Rocha (Porto Editora).

Em 2008, só um título vendeu mais de 100 mil exemplares e em 2009 e 2010 isso não aconteceu a nenhuma obra publicada em Portugal. Em 2008, dois títulos venderam mais de 50 mil exemplares e no ano anterior, doze títulos ultrapassaram a barreira da venda de mais de 50 mil exemplares. O ano passado só seis obras publicadas em Portugal ultrapassaram as vendas de 50 mil unidades.
in Público, 30 X 11

nota: podia ser bem pior. agora há que manter estes valores e tentar melhorar (mesmo que aos poucos) a qualidade dos livros comprados e lidos.

sábado, outubro 29, 2011

parece que deixei umas palavras

na casa de outros:

quando não encontro os teus olhos

Aveiro 11

quando não encontro os teus olhos
é toda uma manhã que vem órfã de um deus qualquer.
é como uma boca. a tua boca.
que vem ardente de um lápis qualquer.
e não encontro o jeito
de me perder nessas setas quebradas
e ser apenas mais um riacho teu.

falsas mentiras

ele repete as mesmas histórias todas as tardes. já o conhecem. quer seja na sapataria, na padaria, ou até no ferreiro. parece que não há maneira das suas mentiras repetidas se tornarem verdades, verdadeiras, verdadinhas. sabes que sinto alguma pena por ele. dizem que é feio ter pena, mas também sei que é mais feio mentir numa mentira. já só quero que ele descubra que o mundo não é uma matemática de 5º ano, daquelas onde menos com menos dá mais. já só quero que ele me desampare a loja que ainda tenho tantos espelhos por cortar.

sexta-feira, outubro 21, 2011

ó sr. procrastinador...


pára de ver estas porcarias e vai mas é trabalhar. mas antes faz um chá. ah. e boa sexta-feira!

nota mental

um passo de cada vez.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Die Grosse Sonate


Joëlle Léandre e Pascal Contet

Uma carta fora do baralho

Afinal, Portugal não é a Grécia. É o Chile. De há 30 anos. Não vamos apenas recuar no rendimento per capita, mas também na História, na integração europeia e, seguramente, na qualidade da democracia. Em prol de quê? - Em prol de uma fé. E a troco de quê? - A troco de uma mão cheia de nada.

Deixem-me personalizar porque é caso para isso. Conheço o pensamento de Vítor Gaspar, porque várias vezes me cruzei com ele, em seminários, e porque ele se interessa por história económica e várias vezes entrámos em diálogo. Sempre concordámos em discordar. Também conheço o seu pensamento porque por onde ando há outros economistas assim, também dos bons. Posso talvez dizer que em cada 100 economistas ou historiadores económicos que conheço, cinco pensam como o ministro das Finanças e um é fora de série. A presença de um deles num debate é sempre fonte de animação.

Mas há dois grandes problemas. O primeiro é que estes economistas, no fundo, não estão muito interessados em causalidades. Estão mais preocupados com equilíbrios. Não acham importante determinar se vem primeiro o ovo ou a galinha. Há um défice, um desequilíbrio? Corrija-se. Mas as causas são… Não interessa, corrija-se para recuperar a confiança, criar um círculo virtuoso e restabelecer o crescimento. Onde foi isso visto? Aqui e ali. Mas como prova que a recuperação foi o resultado da contracção, se o mundo entretanto mudou? Porque a teoria assim o diz.

O segundo problema, porventura maior, muito maior, é que esses economistas não chegam, nem perto nem longe, aos governos dos países avançados e europeus como Portugal. Os ministros das Finanças europeus são políticos, não teóricos e sobretudo não teóricos da fasquia dos 5%, brilhantes, é certo, de Vítor Gaspar. Quanto muito chegam a governadores de bancos centrais. Tivemos azar.

E tivemos azar por culpa de muita gente e, em última análise, do actual primeiro-ministro. Ele ouviu à saciedade que era preciso "mudar o rumo", que vivíamos "acima das possibilidades", que era preciso um "corte radical com o passado". E acreditou nisso tudo. Primeiro, acreditou nas "gorduras do Estado" - até ver que as havia, mas que eram macroeconomicamente marginais. Ficou sem eira nem beira. Até que Vítor Gaspar lhe apresentou um plano, o único plano que havia para pôr tudo em linha como recorrentemente lhe pediam.

O plano de Vítor Gaspar já chocou muita gente, porque é chocante. E não o fez só à esquerda, pois o PSD também ficou chocado e muito. Mas não se consegue mexer. Nem o PS. A principal razão porque o plano é chocante é que ele assenta numa carta que não estava no baralho: a contracção sem limites de salários - e mais aumento de impostos. Assim qualquer um sabe governar.

Passos Coelho não parece ter percebido o que se estava a passar, como revelam duas das suas declarações. A primeira foi quando disse que os funcionários públicos "ganham mais 10 a 15% que trabalhadores privados". Sim, ganham, mas não todos e porque os de rendimentos mais baixos ganham mais e as mulheres ganham o mesmo que os homens.

Se queria corrigir essa "injustiça" teria de ter feito de outro modo. E não podia, pois tinha de ir aos salários mais baixos. A segunda foi quando disse que a medida era para dois anos, o que o ministro das Finanças prontamente desmentiu. Obviamente. Um choque destes para durar tem de durar. Não há milagres.

Ou seja, este Orçamento equilibra as contas, segundo o memorando da troika, à custa de uma contracção permanente, feita num acto, brutal, do rendimento disponível. E a troco de quê? Já lá vamos.

Passos Coelho ainda será dos poucos que acredita que a culpa disto tudo não é dele, que "não tem de pedir desculpa aos portugueses". Vítor Gaspar já sabe que não, claro. A dimensão do "ajustamento", como lhe querem chamar é de tal forma grande, é de tal forma brutal que, como é evidente, ultrapassa qualquer estrago que tenha sido feito pelo Governo anterior. Percebe-se esta lógica simples, não se percebe? Julgo que não é preciso ir mais longe.

O actual Governo, uma vez por todas, tem de assumir as suas opções. As suas opções radicais. E profundamente anti-europeias.

O mantra por trás destas opções é também, por seu lado, incompreensível. Trata-se de "recuperar a confiança dos mercados". Este mantra, dito em 2011, não revela uma completa falta de percepção do que se está a passar na economia internacional? Revela.

E, claro, ninguém com tanta fé notou que os mercados nada notaram sobre o que por cá se está a fazer. Inclusivamente, até podem responder negativamente, esses mercados, por causa da enorme contracção que aí vem, desta desgraçada economia.

Mas insistamos nos mercados e voltemos ao Chile. Nos anos 1980, um grupo de rapazes de Chicago entrou pela ditadura chilena adentro e "cortou com o passado", fazendo um "ajustamento profundo". Os pormenores não cabem aqui, mas quatro questões importantes cabem: o país era então uma ditadura; não estava integrado num espaço económico e monetário alargado; havia uma enorme taxa de inflação; e os mercados internacionais não estavam de rastos. E o desemprego subiu a perto de 25%, sem subsídios, claro, que isso é para os preguiçosos.

A estratégia de Vítor Gaspar, sufragada por Passos Coelho, é profundamente desactualizada e mesmo errada. Ela insere-se num quadro mental em que os gastos do Estado provocam inflação, quando estamos numa fase de baixíssima inflação; pressupõe o financiamento nos mercados internacionais de capitais, quando estes estão retraídos em todo o Mundo.

Há alternativa? Claro que há. A Europa não se gere pelos 5% de ideias económicas que infelizmente foram parar ao Ministério das Finanças. Nem de perto, nem de longe. Passos Coelho tem muito que aprender. Já está é a ficar sem tempo para o fazer. Vítor Gaspar tem um bocado de razão em pensar como pensa. É isso que acontece sempre, entre economistas. Mas deitou essa razão por borda fora, ao ir tão longe, tão fora da realidade do país, do euro e da Europa. Precisamos de recentrar o País, para o que convém começar por reconhecer as causas das coisas.

Pedro Lains in Negócios online

quarta-feira, outubro 19, 2011

O Guerreiro Verde


O Guerreiro Verde - 20 Outubro 2011 - 18h30 - Ler Devagar - LX Factory

«Este livro é o relato da vida de Manuel Pinto. Apesar de ainda só contar quarenta e cinco anos, este portuense, nascido na freguesia da Campanhã, já leva uma vida bem cheia de histórias, peripécias e aventuras, sobretudo desde que em 1988 se fixou em Amesterdão, onde funciona o quartel-general da Greenpeace. Manuel Pinto começou cá por baixo, pela base, como voluntário, quase anónimo, a colaborar em pequenas iniciativas. Os seus conhecimentos de electrónica, aliados a um invulgar espírito engenhoso, ampliados pela capacidade seja de liderar pequenas equipas, seja de planear e organizar acções de maior fôlego, levaram a que fosse cada vez mais requisitado. Espírito generoso, quase juvenil, infatigável e de enorme disponibilidade, meio poliglota, disposto a suportar sacrifícios (alguns bem incómodos, como a violência policial e até a cadeia), tornou-se a pouco e pouco num profissional. E sabe-se como o combate dos movimentos ambientalistas, ecologistas e pacifistas implica cada vez mais uma profissionalização dos seus quadros, sob o risco de perder em eficácia e impacto. Neste mundo globalizado, os combates são cada vez mais duros e intensos, implicando o recurso a meios humanos, materiais e financeiros crescentes – e a Greenpeace, como todos os movimentos de cariz semelhante, procura aliar o pragmatismo à utopia, não devendo descurar nem a lisura nem a transparência de processos.»

José Pedro Castanheira

quinta-feira, outubro 13, 2011

Orçamento 2012: o que era já não é

Antes os portugueses não aguentavam mais sacrifícios. Agora já aguentam. Antes era inaceitável que se continuasse o assalto fiscal. Agora já não é. Antes o governo não podia continuar pelo caminho mais simples: aumentar a receita. Agora já pode. Antes tinha de se parar com o esbulho aos contribuintes com recibos verdes. Agora já não tem. Antes o fim das deduções em despesas em educação e saúde eram um ataque à liberdade de escolha. Agora já não é. Antes estavam a destruir a classe média. Agora já não estão. Antes o contexto internacional era desculpa de incompetentes. Agora não há dia que não falem dele.

Nenhuma das razões para o PSD ter chumbado o PEC sobreviveu. Nenhum dos argumentos que o PSD (já nem falo do CDS, que sempre mudou ao sabor das ocasiões) apresentou na campanha sobrevive ao que se conhece do seu Orçamento de Estado para 2012. Foi tudo uma mentira. E para um partido que, com alguma razão, fez dos ataques à relação de Sócrates com a verdade uma bandeira não deixa de ser extraordinário como, em tão pouco tempo, tudo o que fizeram é o oposto do que disseram que iam fazer. Pior que um mentiroso é um mentiroso que fez da mentira alheia o seu maior argumento político. Mente duas vezes.

Concordo com uma ou outra medida apresentada. Discordo de grande parte delas. Mas o mais importante é o resultado final de todas juntas. E o resultado é um assalto ao contribuinte e a destruição dos serviços que o Estado lhe deve garantir em troca dos seus impostos. Um caminho que, para além dos efeitos particulares em cada a família, terá o efeito devastador na economia: muito menos dinheiro disponível, menos consumo, menos mercado interno, menos crescimento, menos poupança, mais falências, mais desemprego, mais despesas sociais do Estado, menos impostos cobrados a médio prazo, mais incumprimento dos devedores à banca, mais problemas no sistema bancário, mais dificuldades para o turismo com o aumento do IVA, menos exportações por esta via. A sucessão de desgraças poderia continuar. Mas acho que se percebe a ideia: o governo está a atacar de forma sistemática toda a economia. E com isso a tornar virtualmente impossíveis as duas únicas formas de sairmos desta crise: crescimento económico e poupança privada. Com todos falidos nenhuma das duas pode acontecer.

O problema é estrutural e ultrapassa este governo. Lutar contra a crise com austeridade é estúpido. E toda a gente sabe que é estúpido. E mesmo toda a gente sabendo que é estúpido quase todos exigem, aqui e em todo o lado, que se continue com esta estupidez. É extraordinária a capacidade que as sociedades têm para se autodestruir com a plena consciência de que o estão a fazer.

Soubemos entretanto que o PS não votará contra este orçamento. Não espanta. O PS está de férias. Não existe. Escrevi aqui Assis seria um erro e Seguro um intervalo. Era disto que falava. Seguro não existe. Nunca existiu. Nunca existirá. Um balão cheio de ar não governa nem faz oposição. Limita-se a seguir para onde o vento o empurra. Sobe, sobe e depois rebenta. Assim será com o sectário-geral interino do PS. Que suba depressa.

Daniel Oliveira in Expresso

Contagem ainda a zeros

«Descobri, um pouco tarde, que afinal todos os meus livros são histórias de amor. Só que as daninhas estavam tão bem disfarçadas que eu próprio não tinha reparado. Às vezes, amor entre duas pessoas, outras de amor entre uma pessoa e uma ideia.»

Rui Zink in O amante é sempre o último a saber.

nota: começa aqui...

segunda-feira, outubro 10, 2011

Falta de lentes aumenta buraco

Para ontem estava marcado o fim da campanha "Quem Empresta uns Óculos a Jardim?", que tem decorrido há vários dias na Madeira. O conhecido animador da campanha, Alberto João, como bom profissional que é, apresentou-se dentro do espírito da coisa: pólo escuro, o pouco do cabelo desgrenhado e umas folhitas escritas à mão. Enfim, com ar de quem pede óculos emprestados. E sem mais delongas, lançou o mote: "Quem me empresta uns óculos?" Pergunta aparentemente banal mas que ocasionou um dos minutos mais dramáticos da história política nacional: arrastaram-se segundos e segundos, sem que alguém se prestasse a ajudar. Um minuto! E por uns simples óculos, que nem eram pedidos, mas emprestados, e a um idoso de cara simpática... O crédito da Madeira anda ainda mais baixo do que se pensava. Enfim, alguém lhe estendeu um par, manhoso, daqueles com uma fitinha entre as hastes. Alberto João Jardim ainda os pôs, mas num assomo de orgulho, devolveu-os. Atirou-se, então, à tarefa de ler as folhas manuscritas. Lembro: ele, que nos tem maravilhado com as palavras mais soltas e afiadas da política nacional. Mas sem crédito nem para óculos, soletrou, engasgou-se, por três vezes cometeu o erro que noutros tempos nunca faria, sublinhou uma fraqueza: "Desculpem-me, estou sem óculos..." E calou-se. Dizem os números, 25 deputados, que Jardim vai poder governar sozinho. Mas nós vimos, ontem: sem que lhe emprestem, Jardim já não pode governar sozinho. 

Ferreira Fernandes in DN, 10 X 11

quinta-feira, outubro 06, 2011

AFTER A DEATH

Once there was a shock
that left behind a long, shimmering comet tail.
It keeps us inside. It makes the TV pictures snowy.
It settles in cold drops on the telephone wires.


One can still go slowly on skis in the winter sun
through brush where a few leaves hang on.
They resemble pages torn from old telephone directories.
Names swallowed by the cold.


It is still beautiful to feel the heart beat
but often the shadow seems more real than the body.
The samurai looks insignificant
beside his armour of black dragon scales.

Tomas Tranströmer in «20 Poems», translated by Robert Bly, Seventies Press (1970)

quarta-feira, outubro 05, 2011

o nobel da literatura ao vivo e a cores...



aposta da casa:

Index des travaux du vent (aphorismes)


J'ai écrit mon identité
A la face du vent
Et j'ai oublié d'écrire mon nom.


Le temps ne s'arrête pas sur l'écriture
Mais il signe avec les doigts de l'eau


Les arbres de mon village sont poètes
Ils trempent leur pied
Dans les encriers du ciel.


Se fatigue le vent
Et le ciel déroule une natte pour s'y étendre.


La mémoire est ton ultime demeure
Mais tu ne peux l'y habiter
Qu'avec un corps devenu lui-même mémoire.


Dans le désert de la langue
L'écriture est une ombre
Où l'on s'y abrite.


Le plus beau tombeau pour un poète
C'est le vide de ses mots.


Peut-être que la lumière
T'induira en erreur
Si cela arrive
Ne craint rien, la faute est au soleil


Adonis
( L'Orient - Le Jour du 12 mars 1998 et traduit de l'arabe par François Xavier)

domingo, outubro 02, 2011