domingo, outubro 30, 2011

no rescaldo do DOC 2011

É outubro. E desde há nove anos que há doclisboa. Mas não é só o cinema documental que se mostra. São mil e um diferentes mundos. Visões desiguais. Ideias singulares e projectos memoráveis. O que procuro? O que guardo?
A minha lista é feita de cinquenta por cento de puro acaso e uma outra metade que procura realidades que me são desconhecidas. Da África profunda à Ásia perdida, da Europa urbanamente árida de caras conhecidas aos animais selvagens que povoam paisagens avassaladoras. Há música vista em tela. Livros gravados para sempre, nesse andamento que é o «luz, câmara, acção».
O doc é essa acção de todos os anos fugir de Lisboa sem sair daqui, e refugiar-me, sem pudor, nesse lugar comum. E é pensar que todas as queixas que nos enchem os dias são uma treta, pelo menos enquanto este mundo for tão desigual.

21 de outubro

Crónicas de Moçambique,  21h15,  Londres 1
Licínio de Azevedo é um conhecido cineasta e escritor brasileiro. Filmou (como poucos) os momentos da independência moçambicana e os tempos que se seguiram. Do interior à cidade, dos revoltosos aos que receberam as mudanças não mudando nada. Filmou pobres e menos pobres. Este documentário mostra o processo criativo e de realização de Licínio mas permite também uma viagem ao Moçambique profundo, nestes últimos 20 anos. Destacam-se as pequenas pérolas, como a da senhora que confundiu ficção com realidade e acreditava que o papel que desempenhara de noiva do brasileiro, lhe garantiria uma vida melhor em Maputo.

22 de outubro

A Nossa Forma de Vida, 17h00, Culturgest GA
A vida a dois é feita - vezes de mais -, de monólogos partilhados. De silêncios desejados, constantemente cortados por opiniões a avulso. Dois idosos; um comunismo que ultrapassa a música na árvore de natal; e as opiniões sobre a crise e as manifestações que enchem ruas. Cusquices e inquietações que transbordam os dias e enchem as semanas. Os avós do realizador deste filme são o paradigma de uma velhice que é bem mais do que um estereótipo. Divertidos, carrancudos, irónicos, mordazes, inquietos. Todo um mundo. Fechado numa casa. Num prédio com vista para o rio que não para de correr. Como a vida deles. A nossa forma de vida é a negação dos recorrentes filmes portugueses plenos de crianças infelizes, pobreza, abortos, drogas. Este documentário é um pequeno apartamento que é do tamanho do mundo. E tem a forma da nossa vida.

23 de outubro

In Film Nist,  18h00, São Jorge, São Jorge 1
Estás proibido de filmar! Pode um realizador ser proibido de filmar e viver? Jafar Panahi, um dos maiores nomes do cinema iraniano, mesmo sendo tão diferente de Kiarostami, é uma referência no cinema da actualidade. Só que um dia as suas opiniões foram demasiado… Demasiado para uma ditadura. A pena? Prisão por vários anos e a interdição de filmar. O caso faz lembrar Leni Riefenstahl mas também acabam ai as semelhanças. O que pode então fazer uma pessoa que vive para filmar? Filmar por outros. Contar um argumento. O enredo. E fazer disso um filme. Mais do que a qualidade deste documentário, o que está aqui em causa é uma postura. Uma atitude. Um exemplo.

Michel Petrucciani, 20h00, São Jorge 1
Michel Petrucciani não é o maior pianista na história do jazz. Nem sequer procuro com esta afirmação uma piada fácil. Repito, não é o maior pianista deste género. Mas é, inquestionavelmente, um dos mais importantes a ter surgido nos últimos 40 anos. A figura assaz singular ajudou à sua fama. Tal como a sua personalidade envolvente e um humor contagiante. Porém, o principal na sua (curta) carreira foi uma destreza técnica como poucos. Dizem que era graças ao seu tamanho e peso. Que atingia um ritmo que poucos conseguem. Talvez. Mas o seu ritmo e estilo próprio não têm igual. E este documentário consegue muito bem passar essa ideia.

24 de outubro
 
Cinema Komunisto, 19h15, Londres 2 
O cinema tem sido ao longo da História uma das mais poderosas ferramentas das ditaduras, sejam elas de esquerda ou direita, e este documentário faz um pouco de luz sobre esse fenómeno. A Jugoslávia de Tito. «Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido.» Ou seria um cinema? Um projecto de cinematográfico. Cinema Komunisto faz uma recolha (com bastantes toques de humor) dos principais passos na história do cinema jugoslavo. Da criação de um mega-estúdio, a atores e realizadores marcantes, fica bem patente a importância – e até paixão – que Tito dava ao papel do cinema.


25 de outubro

Hip Hop, le Monde est à vous, 20h00, São Jorge 1
Não há torre de Babel mas há uma língua universal. Dizem que há várias. Que a música é a língua universal final. Do hip hop diz-se o mesmo. Por cá canta-se: «Não percebes o hip hop», e é verdade que muitos não o entendem. Neste documentário também não encontramos respostas. Apenas olhares. Da Alemanha a Israel, dos States a França, do Mali a qualquer canto pobre no mundo. É um estilo musical onde, como poucos, a condição social é tudo. Pobreza, diferença e indiferença, abandono, revolta, são estados de alma que procuram a rima perfeita. Mesmo que não rime. A última música é pirosa, confere. Há momentos fracos, confere. Mas há hip hop visto por quem o faz e isso não é assim tão frequente.

End of the Century: the Story of the Ramones, 22h00, São Jorge 1
Pearl Jam Twenty É um documentário deveras interessante. Gosto do som da banda. Prezo a forma como sempre se engajaram politicamente. Foram e são uma referência. Para mim. E eles têm referência importantes como… Os Ramones. Gosto menos. Mas são importantes. Muito. E este documentário? Bem documentado. Tem bons momentos. Mas não marca. E mais não digo.

27 de outubro

Client 9: The Rise and Fall of Eliot Spitzer, 21h45, Londres 2
O principal documentário político do doc2011 centra-se na figura de Spitzer, o governador que tinha tudo para ser o próximo presidente dos EUA. Tinha carisma, postura, e colocava-se do lado do «povo». Todavia, não é fácil pôr em prática medidas políticas que influenciam a economia e a alta finança sem criar inimigos. Estes foram surgindo e, naturalmente, começaram a trabalhar em conjunto e sintonia. A queda de Spitzer tornou-se, por isso, uma questão do tempo. Um rabo de saias acabou por ser a causa, mesmo que o próprio assuma que não houve esquema dos republicanos ou dos seus inimigos. Mas o documentário ultrapassa em muito a figura de Spitzer, avança também sobre a questão dos media e das discutíveis relações entre política e grupos económicos, como a AIG. (ler post de Daniel Oliveira)

28 de outubro

Pixinguinha; Onde a coruja dorme, 21h00, São Jorge 3

Noite de música brasileira, Da antiga e da mais recente. A figura de Pixinguinha, para muitos desconhecida, é recuperada nesta curta feita a partir de uma bobine perdida. Um exercício no mínimo interessante. Tal como surpreendente foi o documentário seguinte dedicado à figura de Bezerra da Silva, um dos maiores nomes do pagode. Durante mais de uma hora entra-se no mundo de um conjunto de músicos que também são técnicos de ar condicionado, pintores ou alcoólicos profissionais. E as letras do pagode? Cornudos que tiram os cornos como chapéus, sogras que são cabras simpáticas, amores desconfiados, copos, maconha, etc. Falta alguma coisa? Sim. Ver.

Feitas as contas, ficam duas certezas: A nossa forma de vida ganhou merecidamente um prémio; para o ano há mais doc.

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