quinta-feira, outubro 13, 2011

Orçamento 2012: o que era já não é

Antes os portugueses não aguentavam mais sacrifícios. Agora já aguentam. Antes era inaceitável que se continuasse o assalto fiscal. Agora já não é. Antes o governo não podia continuar pelo caminho mais simples: aumentar a receita. Agora já pode. Antes tinha de se parar com o esbulho aos contribuintes com recibos verdes. Agora já não tem. Antes o fim das deduções em despesas em educação e saúde eram um ataque à liberdade de escolha. Agora já não é. Antes estavam a destruir a classe média. Agora já não estão. Antes o contexto internacional era desculpa de incompetentes. Agora não há dia que não falem dele.

Nenhuma das razões para o PSD ter chumbado o PEC sobreviveu. Nenhum dos argumentos que o PSD (já nem falo do CDS, que sempre mudou ao sabor das ocasiões) apresentou na campanha sobrevive ao que se conhece do seu Orçamento de Estado para 2012. Foi tudo uma mentira. E para um partido que, com alguma razão, fez dos ataques à relação de Sócrates com a verdade uma bandeira não deixa de ser extraordinário como, em tão pouco tempo, tudo o que fizeram é o oposto do que disseram que iam fazer. Pior que um mentiroso é um mentiroso que fez da mentira alheia o seu maior argumento político. Mente duas vezes.

Concordo com uma ou outra medida apresentada. Discordo de grande parte delas. Mas o mais importante é o resultado final de todas juntas. E o resultado é um assalto ao contribuinte e a destruição dos serviços que o Estado lhe deve garantir em troca dos seus impostos. Um caminho que, para além dos efeitos particulares em cada a família, terá o efeito devastador na economia: muito menos dinheiro disponível, menos consumo, menos mercado interno, menos crescimento, menos poupança, mais falências, mais desemprego, mais despesas sociais do Estado, menos impostos cobrados a médio prazo, mais incumprimento dos devedores à banca, mais problemas no sistema bancário, mais dificuldades para o turismo com o aumento do IVA, menos exportações por esta via. A sucessão de desgraças poderia continuar. Mas acho que se percebe a ideia: o governo está a atacar de forma sistemática toda a economia. E com isso a tornar virtualmente impossíveis as duas únicas formas de sairmos desta crise: crescimento económico e poupança privada. Com todos falidos nenhuma das duas pode acontecer.

O problema é estrutural e ultrapassa este governo. Lutar contra a crise com austeridade é estúpido. E toda a gente sabe que é estúpido. E mesmo toda a gente sabendo que é estúpido quase todos exigem, aqui e em todo o lado, que se continue com esta estupidez. É extraordinária a capacidade que as sociedades têm para se autodestruir com a plena consciência de que o estão a fazer.

Soubemos entretanto que o PS não votará contra este orçamento. Não espanta. O PS está de férias. Não existe. Escrevi aqui Assis seria um erro e Seguro um intervalo. Era disto que falava. Seguro não existe. Nunca existiu. Nunca existirá. Um balão cheio de ar não governa nem faz oposição. Limita-se a seguir para onde o vento o empurra. Sobe, sobe e depois rebenta. Assim será com o sectário-geral interino do PS. Que suba depressa.

Daniel Oliveira in Expresso

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