domingo, novembro 13, 2011

O vírus da ópera-bufa alastra


Extraterrestres inocularam um vírus em Mussolini, ele morreu e o fascismo italiano caiu. Os partigiani e o povo vieram para a rua, todos cantaram Bella Ciao. Até a igreja social de Don Camillo pôs os sinos a repicar de alegria... Mas celebravam o quê? A vitória do Bem sobre o Mal? A coragem dos que venceram quem lhes negava a liberdade? Não, aqueles italianos saudavam um vírus que eles desconheciam, inoculado por discos voadores de cujas intenções eles ignoravam. O que contei é uma farsa, felizmente a história verdadeira é outra: Mussolini caiu porque as democracias se juntaram para isso e muitos italianos lutaram por isso. O que permite emocionarmo-nos ainda hoje com Roma, Cidade Aberta, filme de Rossellini, em 1945 - a História quando tem uma moral, uma explicação ou uma vontade colectiva vale mais do que acasos ou ficção científica barata. Não sei em que dia foi a cadeira de Salazar; o 25 de Abril, sim. Ontem, porém, surpreendi-me com multidões a festejar a partida de Berlusconi: "Festa frente ao Palácio do Quirinal [onde o primeiro-ministro apresentou a demissão]", titulavam os sites dos jornais italianos. Um vídeo mostrava Antonio Di Pietro, o célebre juiz que lutou contra a corrupção, eufórico: "Para casa! Para casa", gritava ele a Berlusconi. Mas Berlusconi caiu porque o povo o quis? Caiu com o que o juiz investigou? Não, caiu porque uns extraterrestres deram má nota a Itália. E isso celebra-se? 

Ferreira Fernandes in DN, 13. XI. 11

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