quinta-feira, dezembro 29, 2011

O Diabo está nos pormenores

Um ano do caraças
Se há ano que fez por ser lembrado, foi este, 2011. Deixem-me consultar a mnemónica: Bin Laden, Kadhafi e Kim Jong-il, triplo AAA e triplo desastre japonês, Steve Jobs, novela trágica de Rosalina e novela de alcova de Strauss-Kahn, Murdoch e os seus jornais, Presidenta Dilma, indignados e Primaveras Árabes, Barcelona de Messi... A minha mnemónica 2011 é como aquelas de cábulas de liceu, em acordeão para lembrar muito e só com vago rastilho para instigar a memória. Cada nome faz explodir um romance, evoca a milenar história dos homens (e o seu rosário de sangue, sexo e dinheiro, e também a sua antologia de vontade e talento), multiplica pistas e deixa-nos derreados por tanta coisa num ano só. 2011 foi do caraças!

Kadhafi-2011, por exemplo, foi como passar de sócio a pária. De convidado que até impunha como devia ser recebido, de tenda, a abandonado à turba - "não sabem o que é compaixão?", disse a alguém, momentos antes de ser empalado. Terão esses momentos horríveis a ver com a classificação esperançosa, "Primaveras", que damos às revoltas árabes? Certamente que sim, porque os homens não mudam ao som de cânticos celestiais, por mais que evoquem o Céu quando se manifestam. Mas, atenção, a Praça Tahrir pôde passar o ano com enchentes sucessivas e, apesar do sucesso mundial das retransmissões, não ter nada para anunciar - aquela jovem blogger cairota que mostra o corpo, e de quem já nos esquecemos o nome, fosse ela a vencedora de 2011, a Primavera Árabe poderia ser já proclamada. Isto para dizer que, se o ano foi enorme, talvez não seja onde julgamos. Outras vezes, porém, as câmaras souberam acertar com o acontecimento: morre uma inexistência, o tal Kim n.º 2, e vimos, na dor aviltante de um povo, a morte definitiva do comunismo.

Muitos dirão que 2011 foi o ano da crise do euro. Não acho, felizmente, aí, o ano falhou. Aí, 2011 ficará como bem-intencionado e teimoso (tanta cimeira), mas desconseguido. O acontecimento do ano foi o escândalo Murdoch. O maior patrão de imprensa mundial (Times, Wall Street Journal, Sun, New York Post...) tinha um jornal que vasculhou no telemóvel de Milly Dowler, de 13 anos, raptada e assassinada. O Diabo está nos pormenores.

Ferreira Fernandes in DN, 29 XII 11

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