terça-feira, dezembro 06, 2011

um lugar como qualquer outro

miguel gosta do cheiro da relva molhada.
gosta das vozes que não se calam por um minuto.
gosta das luzes que acendem a noite.
miguel gosta da pressão e o futebol é a sua paixão. e gosta de rimas tão fáceis como as tabelas que procura.
pelo amor à redondinha abdicou de ser mais um imprevisível adolescente, tornou-se metódico e pragmático.
hoje é um verdadeiro estratega. elogiam-lhe a maturidade, a garra e a inteligência.
ele é um jogador completo.
miguel gosta do apito inicial.
gosta de ver os seus colegas a rasgarem o campo.
de ler as jogadas que se desenham e de imaginar os passes que ficam em falta no jogo.
o som da bola a saltar ou do ferro a tremer são um prazer único.
e é assim desde novo.
mas, agora, miguel é apenas um jogador que espera pelos últimos dias do calendário.
o tempo não perdoa e hoje dói-lhe aquele lugar.
ali tudo acontece na primeira fila e, contudo, sabe que nem fará uma corrida para aquecer esta noite fria. miguel envelheceu assim... de repente.
é toda uma carreira passada a layoff pelas lacónicas palavras do seu treinador: «miguel é um jogador muito importante no balneário.»
que se lixe o impessoal balneário.
miguel apenas quer os calções sujos de relva e uma salva de palmas que não cesse nunca.
hoje é domingo e é dia de taça. miguel fartou-se de tudo isto, levantou-se, olhou para o treinador, depois para os colegas e sorriu.
miguel correu para a baliza perante o olhar surpreendido do árbitro. e rasgou-a.
como uma bola.
era o seu fim.
na manhã seguinte os jornais dirão que essa fora a última corrida de miguel.
talvez.
mas soube tão bem como a primeira.

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