terça-feira, janeiro 31, 2012

tempos negros...

Las mujeres tendrán que volver a dar explicaciones para interrumpir su embarazo en España. El ministro de Justicia, Alberto Ruiz-Gallardón, confirmó ayer que se reformará la actual ley de plazos —que permite abortar libremente hasta la semana 14 de gestación— para volver a un sistema de supuestos similar a la regulación de 1985, en el que las mujeres tendrán que alegar motivos para su decisión. 

in el País

com ou sem defesa?

A Defesa de Ana Drago

O ódio queirosiano e salazarista em relação ao parlamento e à vidinha representativa é uma marca da nossa cultura (sim, Eça e Salazar eram farinha do mesmo saco neste ponto). Nos últimos meses, este populismo tem batido vários recordes e tem sido o ganha-pão do jornalismo-que-dá-ao-povo-aquilo-que-ele-quer-ouvir. Na semana passada, por exemplo, Ana Draga foi queimada nesta pira queirosiana, porque, imaginem, usou um motorista para ir a Guimarães. Quem diria, ah? Quem diria que um representante da nação tem acesso a coisas que um cidadão normal não tem? Só mesmo neste país, não é verdade?
Pelo que percebi, Ana Drago é o segundo lisboeta que não conduz (o primeiro sou eu), logo, usou um motorista do BE ou do parlamento para ir a Guimarães em trabalho. Levantou-se logo uma onda de choque contra Drago. Esta deputada não vai ganhar 40 mil euros na EDP e não anda por Paris depois de ter arruinado o país, mas teve de ouvir o calão anti-partidos: "mas porque é que não vai no seu carro?"; "porque é que não vai de comboio?". De facto, como é que uma representante do país tem a lata de andar de motorista? Como é uma representante do país tem o descaramento de fazer o seu trabalho fora da assembleia? Os deputados têm de ficar quietinhos, lá no gabinete da assembleia. Ou não. Se calhar, também devíamos acabar com isso, porque é escandaloso que os deputados tenham secretárias (a senhora e a mesa) pagas por todos nós, não é verdade?
Este populismo anti-partidos está a passar alguns limites, e está a confundir as coisas. Uma coisa é debater uma redução do salário dos deputados ou mesmo a redução do número de deputados. Outra coisa, bem diferente, é cair em cima de qualquer gasto remotamente principesco de um deputado. É bom não esquecer uma coisa: a democracia é um regime caro; não há democracias grátis. A conversa do "deputado é um bandido com motorista" esquece esta evidência e faz demasiadas tangentes à conversa que elevou Salazar ao poder. Convém evitar isto, porque o Estado Novo era mesmo um regime baratucho, e o tuga adora uma bela loja dos trezentos. 

Henrique Raposo in Expresso

sexta-feira, janeiro 27, 2012

#14 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.



TRIGGER HAPPY TV
Há séries muito muito boas. E depois há esta.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Need you tonight


Beck e Annie Clark in Record Club

#13 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha côr!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tedio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá-Carneiro, in Dispersão

short sentences I

a dúvida era sempre a mesma. tinha as palavras do outro.  e tinha as suas. ela trabalhava as palavras como se fossem suas. mas não eram. ninguém via ali palavras diferentes. mas eram. palavras. e ideias. tudo misturado para inglês ver. ela chorava. não eram suas as palavras que ela levava para a cama. fazia amor com elas. enrolava os seus pés frios nelas. e não lhes prendia o coração. as palavras não tem dono. as palavras são do primeiro poeta que as evocar. sempre foi assim. ele sabia disso. e limpava-lhe as lágrimas com um lenço vermelho.

terça-feira, janeiro 24, 2012

O olhar de Theo Angelopoulos


O Olhar de Ulisses, 1995

Angelopoulos, an award-winning Greek filmmaker known for his slow and dreamlike style as a director, was killed in a road accident Tuesday while working on his latest movie. He was 76. via AP

Houve um dia em que Corto Maltese vestiu a camisola do Benfica. Chamávamos-lhe Pablo Aimar.

Photobucket

Não vi o jogo com o Gil (estava a trabalhar, olhando nervosa e frequentemente para o telemóvel à espera que o meu pai marcasse os golos via mensagem), mas segundo me dizem, parece que foi preciso Aimar entrar. Vejo o resumo e só me dão o terceiro golo, com Pablo a marcar e a levantar os braços, como quem só não quer incomodar. É impossível colocar toda a classe de Pablo Aimar num resumo. E quando penso nisso, sinto saudades. Antecipo as saudades que vou ter – e que portanto já tenho – de Pablo Aimar.

O meu primeiro deslumbre com o 10 argentino vestido à Benfica foi num Paços – Benfica (3-4 na Mata Real). Entrou no fim de um jogo confuso, que o Benfica insistia em não conseguir dominar. O cabelo desgrenhado e os calções que lhe parecem sempre demasiado grandes. O Paços bombeia bolas para a nossa área e uma sobra para Aimar, que tinha tudo para devolver docemente a um dos nossos defesas, para que este pudesse chutar a bola com sofreguidão. Aimar fingiu com o corpo esse movimento, os defesas do Paços lançavam-se já para saltar e esperar que o chutão do nosso defesa lhes batesse no corpo, quando Aimar se limitou a voltar-se, os defesas enganados, e ele com aquele ar de pirata, de gentil cavalheiro da fortuna, pronto a sair a jogar.
A jogada perdeu-se, mas houve ali poesia. Uma coisa bonita, desumana na sua impossibilidade de ser feita por qualquer um, mas ao mesmo tempo de uma estranha moralidade, trazendo ordem ao caos. Aimar é isso, o pirata que, através do engano, encontra a luz na desordem.


Corto Maltese é o pirata apaixonado pela ideia de estar apaixonado. Solitário e companheiro, há em Corto a bondade dos que defendem os mais fracos (como Maradona) e a malandragem da ópera de Chico Buarque. Um revolucionário sem partido, sempre pronto para ler um clássico ou para uma luta com facas. Depois acende um cigarro e desaparece na névoa. Pergunto-me, às vezes, onde estará Corto Maltese e se é verdade que desapareceu mesmo na Guerra Civil Espanhola.

Pablo Aimar é isso, é o Corto Maltese. Não nos diz ser do Benfica desde pequenino, mas mete o pé em cada bola como se tivesse vivido toda a vida no Terceiro Anel. Respeita mais do que ninguém os rivais, mas é o primeiro a querer enganá-los com aquele seu futebol tão ordeiro e tão mentiroso. Pela barbicha à D`Artagnan, pelas recepções de veludo quando a bola vem no ar, impossível de agarrar, vejo em Aimar essa poesia justiceira, que vai trazer o Benfica de volta. Na maneira como troca a bola com Saviola, com quem se entende de uma maneira criminosa, tudo em Aimar é inteligência (imagino Aimar e Saviola novos e juntos no Benfica e é como ler A Juventude de Corto Maltese e saber como Corto Maltese e Rasputine se conheceram).

Como Aimar, Corto não é o herói perfeito. Às vezes é cruel nas suas vinganças, muitas vezes parte corações pela melancolia da coisa, que aprecia bem mais do que finais felizes. Aimar nunca ganhou a Bola de Ouro, um Mundial, uma Champions, Corto nunca encontrou nenhum tesouro ou nenhuma princesa. E essa imperfeição, essa melancolia que os quase heróis também trazem, são a razão porque Pablo Aimar será sempre lembrado numa noite de copos no Bairro a falar de bola e porque muitos ainda esperam ver Corto em Lisboa (onde Pratt o desenhava, quando morreu).

E é por essa admiração que ontem fiquei triste por ter perdido o que o Mago trouxe ao jogo. Mais triste fico quando não sinto por parte da direcção do Benfica a urgência em renovar com este homem.
Pablo não ficará connosco sempre, como Corto não ficou com os irlandeses, nem com Cush, nem sequer com Rasputine. Mas não ficar com Pablo é não querer ler A Balada do Mar Salgado ou o Tango. E isso é simplesmente criminoso.

Hoje tenho saudades de Pablo Aimar. Tenho saudades da bola colada ao pé e daquilo que me trouxe. Vejo ainda, nitidamente, Aimar isolar-se frente a Rui Patrício e percebo tudo em banda desenhada. A anca vira-se para a direita, o pé direito aponta e há uma pequena pausa – do tamanho do Mundo – para que Patrício caia. A mentira do pirata completa-se e Aimar arranca para o outro lado. A bola, sempre amiga e companheira, por estranhas diabruras do destino ousou fugir-lhe. Pablo alarga a passada, cresce ao sentir as bancas já de pé, mas lembra-se dessa honra, desse código secreto que só os cavalheiros da fortuna conhecem. Aimar porventura não conhecia Cosme Damião, mas sabe que foi acarinhado e reabilitado pelos Benfiquistas e que a única coisa que pode e tem que fazer é retribuir (como Corto a caminho de Samarcanda). Então, deixa que um sportinguista se atire, acredite que a bola pode não entrar. E com o cheiro do mar e do Benfica a fazer-lhe voar o cabelo – sempre desgrenhado, sempre pirata – levanta a bola sorrateiramente. É golo. É o tango argentino. E no meio da loucura, da banda desenhada, das saudades do futuro, perguntamos a Aimar se já esteve apaixonado por um clube e ele, como Corto, responde-nos que sim, há muito tempo, e nós, embevecidos, acreditaremos sempre que foi pelo Benfica.
E eu vou ter, como ontem, saudades de sentir isso.

M. in Lá em casa mando eu

sábado, janeiro 21, 2012

Esse olhar que era só teu



Dead Combo

o paraíso aqui tão perto

em apenas uma semana descobri o paraíso, maravilhei-me e caí na real. hoje, e aos poucos, ele vai voltando. eu acredito. acredito que mais tarde ou mais cedo aqueles que diziam que acreditavam vão perceber que perdem muito tempo com batalhas nos campos errados. o mundo mudou. o mundo tem muito poder. e não há volta a dar. eu vi o paraíso aqui tão perto e acredito. que amanhã ou depois estará tudo igual.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Hoje. Eugénio.

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.


Eugénio de Andrade (19.01.1923-13.06.2005)

sexta-feira, janeiro 13, 2012

tu queres ver...

 
que os mercados não ligam nenhuma às políticas (recessivas) dos governos? e só querem mesmo é fazer dinheiro...

nota: fotografia via le monde

quando o telefone toca

via RipoffComicz

nota: obrigado, Carlos!

#11 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

«Um dia ela voltou a repetir-me que ia ter com o outro. E saiu de casa. Nessa noite revolvi-me no mais atroz ciúme. Queria percorrer o muceque à procura dela, imaginei matar os dois, sei lá mais quê! Depois compreendi que a nossa vida era finalmente monótona, os rasgos de amor tinham acabado no primeiro ano, e Leli era insaciável. Decidi que a devia reconquistar. Ela voltou na manhã seguinte, desfeita. Contou-me que não tivera coragem de ir ter com o outro, dormira na casa duma amiga. Compreendi que ela estava bastante presa a mim, mas que era necessário ter uma experiência negativa de outro lado, para poder ser reconquistada.

– E então empurraste-a...

– Exacto. Disse-lhe que não queria mais nada com ela, ia arranjar uma outra mulher. Isso libertou-a de mim, mas, ao mesmo tempo, chocou-a. O facto de me perder fê-la imediatamente vacilar. Dominei a vontade que tinha de lhe dizer a verdade e expliquei-lhe que nessa noite reflectira e que, afinal, ela já não me interessava. Leli não sabia que fazer. Vi-a desamparada. Nesse momento senti que a vencera, era só uma questão de tempo.

– Porque não a recuperaste logo ali?

– Era preciso consolidar a vitória. Ela foi viver com o outro. Era um empregado dos correios, metido a intelectual, extremamente vaidoso. E vazio, no fundo. Eu encontrava Leli frequentemente, comportava-me com ela como o melhor amigo, o confidente. À sua frente tomei a personalidade dum libertino, compreensivo com tudo e todos. No primeiro mês, Leli não me pertenceu, pertencia ao outro. Mas observei nela a desilusão cavar-se, à medida que o tempo passava e conhecia melhor o outro. Inconscientemente ela tinha de fazer a comparação comigo, o novo homem, agora adulto, que à sua frente surgia. Foi com requinte que me moldei à personalidade que lhe devia apresentar. E ela começou a lamentar a escolha. Eu aparecia frequentemente com raparigas e sentia o ciúme dela avivar-se. Leli sempre fora uma comediante, mas conhecia-a bem de mais para ser enganado: Leli tinha ciúmes de qualquer miúda que eu olhasse com interesse. Era cedo ainda para actuar. Deixei-a desiludir-se completamente do outro. Jantávamos juntos quase todos os dias e ela confidenciava-me as suas amarguras. Eu, sub-repticiamente, levava-a a aperceber-se da vaidade do outro, das suas pretensões, das suas ideias atrasadas. O pequeno-burguês-tipo. Leli não era pequeno-burguesa, teria mais defeitos de grande-burguesa que de pequeno-burguesa.

– Poça! Foi preciso sangue-frio... Até fizeste uma análise de classe?

– Não, isso sou eu agora a explicar, naquele momento não o seria capaz de fazer.

Sem Medo tirou os pés da água e esfregou-os distraidamente.

– A partir do segundo mês, era já certo que Leli estava farta dele. Só sexualmente ainda havia uma certa ligação entre eles. Era nesse domínio que eu teria de agir. Chegou uma noite em que ela confidenciou que iria arranjar um amante. Comigo nunca o fizera, porque me respeitava. Mas a ele... Disse-o de uma maneira superficial, talvez mais para saber a minha opinião. Nessa noite convidei-a a minha casa. Pus discos, dançámos e, por fim, ataquei-a. Só se apercebeu do que acontecia depois já de termos feito amor. Procurou ainda lamentar-se, mas eu disse-lhe que era o mais natural, que nada tinha a reprovar-se. Fizemos amor durante a noite inteira. No dia seguinte, ela foi buscar as suas coisas à casa do outro.»

Pepetela

Já vivi nesse país e não gostei

O primeiro-ministro anunciou que íamos empobrecer, com aquele desígnio de falar “verdade”, que consiste na banalização do mal, para que nos resignemos mais suavemente. Ao lado, uma espécie de contabilista a nível nacional diz-nos, como é hábito nos contabilistas, que as contas são difíceis de perceber, mas que os números são crus. Os agiotas batem à porta e eles afinal até são amigos dos agiotas. Que não tivéssemos caído na asneira de empenhar os brincos, os anéis e as pulseiras para comprar a máquina de lavar alemã. E agora as jóias não valem nada. Mas o vendedor prometeu-nos que… Não interessa.
Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os “remediados” só compravam fruta para as crianças e os pomares estavam rodeados de muros encimados por vidros de garrafa partidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, se tentassem ir às árvores. Um país onde se ia ao talho comprar um bife que se pedia “mais tenrinho” para os mais pequenos, onde convinha que o peixe não cheirasse “a fénico”. Não, não era a “alimentação mediterrânica”, nos meios industriais e no interior isolado, era a sobrevivência.
Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam ou deixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (como é que vão fazer agora os desempregados de “longa” duração, ou seja, ao fim de um ano e meio?). Nessa mesma terra deambulavam também pela rua os operários e operárias que o sempre branqueado Alfredo da Silva e seus descendentes punham na rua nos “balões” (“Olha, hoje houve um ‘ balão’ na Cuf, coitados!”). Nesse país, os pobres espreitavam pelos portões da quinta dos Patiño e de outros, para ver “como é que elas iam vestidas”.
Nesse país morriam muitos recém-nascidos e muitas mães durante o parto e após o parto. Mas havia a “obra das Mães” e fazia-se anualmente “o berço” nos liceus femininos onde se colocavam camisinhas, casaquinhos e demais enxoval, com laçarotes, tules e rendas e o mais premiado e os outros eram entregues a famílias pobres bem- comportadas (o que incluía, é óbvio, casamento pela Igreja).

Na terra onde nasci e vivi, o hospital estava entregue à Misericórdia. Nesse, como em todos os das Misericórdias, o provedor decidia em absoluto os desígnios do hospital. Era um senhor rural e arcaico, vestido de samarra, evidentemente não médico, que escolhia no catálogo os aparelhos de fisioterapia, contratava as religiosas e os médicos, atendia os pedidos dos administrativos (“Ó senhor provedor, preciso de comprar sapatos para o meu filho”). As pessoas iam à “Caixa”, que dependia do regime de trabalho (ainda hoje quase 40 anos depois muitos pensam que é assim), iam aos hospitais e pagavam de acordo com o escalão. E tudo dependia da Assistência. O nome diz tudo. Andavam desdentadas, os abcessos dentários transformavam-se em grandes massas destinadas a operação e a serem focos de septicemia, as listas de cirurgia eram arbitrárias. As enfermarias dos hospitais estavam cheias de doentes com cirroses provocadas por muito vinho e pouca proteína. E generalizadamente o vinho era barato e uma “boa zurrapa”.
E todos por todo o lado pediam “um jeitinho”, “um empenhozinho”, “um padrinho”, “depois dou-lhe qualquer coisinha”, “olhe que no Natal não me esqueço de si” e procuravam “conhecer lá alguém”.
Na província, alguns, poucos, tinham acesso às primeiras letras (e últimas) através de regentes escolares, que elas próprias só tinham a quarta classe. Também na província não havia livrarias (abençoadas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian), nem teatro, nem cinema.
Aos meninos e meninas dos poucos liceus (aquilo é que eram elites!) era recomendado não se darem com os das escolas técnicas. E a uma rapariga do liceu caía muito mal namorar alguém dessa outra casta. Para tratar uma mulher havia um léxico hierárquico: você, ó; tiazinha; senhora (Maria); dona; senhora dona e… supremo desígnio – Madame.
Os funcionários públicos eram tratados depreciativamente por “mangas-de-alpaca” porque usavam duas meias mangas com elásticos no punho e no cotovelo a proteger as mangas do casaco.
Eu vivi nesse país e não gostei. E com tudo isto, só falei de pobreza, não falei de ditadura. É que uma casa bem com a outra. A pobreza generalizada e prolongada necessita de ditadura. Seja em África, seja na América Latina dos anos 60 e 70 do século XX, seja na China, seja na Birmânia, seja em Portugal.
 
Isabel do Carmo in Público

Business as Usual

 
Em 2010, o orçamento do exército grego representava cerca de sete mil milhões de euros. Ou seja, mais de 3% do PIB, um número que, no seio da NATO, só é ultrapassado pelos Estados Unidos. É verdade que, em 2011, o Ministério da Defesa reduziu as novas aquisições de material em 500 milhões de euros. Mas isso terá apenas como efeito aumentar as necessidades futuras, segundo um especialista na matéria.

Entre os parceiros da Grécia dentro da UE, são raros os que defendem abertamente uma paragem completa e duradoura dos projetos militares de Atenas. Como Daniel Cohn-Bendit, líder dos Verdes no Parlamento Europeu, que pensa que as hesitações europeias dissimulam sólidos interesses económicos.

Ora, o principal beneficiado com a política grega de armamento é, justamente, o grande pagador da União Europeia, a Alemanha. Segundo o Relatório sobre a Exportação de Armas em 2010, que acaba de ser publicado, a Grécia é, depois de Portugal – um outro país próximo da falência – o maior comprador de equipamento militar alemão. Os jornais espanhóis e gregos fizeram eco de um rumor segundo o qual Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, ainda no final do passado mês de outubro, convidaram, à margem de uma cimeira, o primeiro-ministro grego de então, Georges Papandreu a honrar os contratos de armamento existentes, e até mesmo a concluir contratos novos.(...)"

Os critérios que regem a contenção desta crise são tudo menos solidários. Ver igualmente o documentário "Debtocracy".

via Bobina e Desbobina

the joy of books

#10 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso.

Herberto Helder, in Os passos em volta, Assírio & Alvim, Lisboa, 1994

As Coisas

quarta-feira, janeiro 11, 2012

#9 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.


Parece que este blog fez seis anos no passado dia sete. Creio que nem vale a pena dizer mais nada... Ou vale. Este blog tem sido um constante primeiro amor. E isso é um começo tão bom como aqueles que começam com um beijo, mesmo quando não começam com um beijo.

«É o nosso futuro e não o deles que está em causa.»

Estou-me a marimbar para a troika

Primeira informação do Banco de Portugal: este ano a recessão vai ser maior do que se esperava. A contração da economia não tem precedentes. E essa recessão resulta das medidas de austeridade decidas pelo governo e com forte impacto no consumo.
Segunda informação do Banco de Portugal: o governo vai ter de tomar mais medidas de austeridade (que Vítor Gaspar nega e ninguém acredita) porque receitas extraordinárias, como a que foi conseguida com os fundos de pensões dos bancos, significam mais despesas futuras para o Estado.
Fecha-se o ciclo perfeito: mais austeridade, mais crise, necessidade de receitas extraordinárias para cumprir o défice quando a economia abranda, mais despesas, mais défice, mais austeridade, mais crise. Ou seja, a receita contra a doença vai piorar a doença. Vamos morrer por causa dela.
Tudo aquilo que os críticos do caminho da austeridade para lidar com esta crise disseram confirma-se de forma ainda mais rápida e profunda do que o previsto. Não porque fossem visionários. Apenas porque era evidente.
Pergunta-se: qual é a alternativa? Há muitas e todas passam pela Europa. Se não for por aí, não debatemos alternativas mas inevitabilidades. A primeira: não vamos pagar a nossa dívida. Ponto final. Não é política, é matemática. O que fica para a política é se, havendo incumprimento, saímos dele vivos e capazes de recuperar. O tempo joga contra nós. Hoje já é tarde para exigir uma renegociação. Amanhã será ainda pior. Depois de amanhã pior ainda. Daqui a uns meses será inútil. Nada teremos para renegociar. Em vez de um acordo sério com os credores teremos as suas condições sem mais conversas. E as suas condições serão a nossa morte.
O que deputado Pedro Nuno Santos disse há umas semanas, e que tanta indignação causou, é mesmo a única saída. E os que então se mostraram tão melindrados terão de engolir as suas palavras e dar-lhe razão. A nossa única arma é mesmo esta: ou renegociamos a dívida - nas condições e prazos de pagamento e até nos seus montantes - ou não pagamos. É a bomba atómica? Não. Já se transformou em armamento convencional. É apenas isso que está em debate em relação à Grécia: ou há uma renegociação profunda da dívida ou ela não será paga. E a Grécia acabará por sair do euro.
É isto que estará em debate em Portugal. Quanto mais cedo assumirmos a inevitabilidade menos estreito será o caminho para a recuperação. Assumindo de uma vez por todas que a austeridade não resulta. Temos duas possibilidades: ou renegociamos já (e poderemos respirar um pouco), usando, se necessário, a ameaça do não pagamento, ou saímos do euro (o que será trágico, mas sempre nos dará novos instrumentos para sair da crise).
Está na hora de acabar com esta fantasia que nos está a atirar para a um poço sem fundo. E para nada: no fim, nem pagaremos o que devemos, nem teremos as contas públicas em ordem, nem reergueremos a nossa economia. Tudo o que estamos a fazer é inútil. Que alguém tenha a coragem de dar um murro na mesa e por fim a esta loucura. A troika não deixa? Como dizia o outro, estou-me a marimbar para a troika. É o nosso futuro e não o deles que está em causa.

Daniel Oliveira in Expresso

NOTA: Juntemos a este cenário negro as declarações de M. Ferreira Leite, ou todas as outras que todos os dias são vergonhosamente cuspidas na comunicação social, e ficamos aterrados. Não há futuro. Isto não é uma tese calamitosa. Nem um momento à Medina Carreia. É a realidade. Quem nos governa não representa o paradigma do neoliberalismo, espelha antes a total ausência de conhecimentos ou opinião económico-financeira. Esses senhores não seguem uma matriz política ou têm objectivos a longo prazo, querem apenas o melhor. Hoje. O lucro fácil, a cunha acessível, ou a vingança pessoal são o único objectivo. Há que ter medo. Muito medo. Não há pior que um louco que não segue regras. É que «é o nosso futuro e não o deles que está em causa». O que fazer então?

terça-feira, janeiro 10, 2012

#8 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.


Black, Pearl Jam

elogio?

«"A decisão foi tomada pela direcção da UEFA e o clube foi informado ontem por carta. As imagens contrariam os valores de respeito e tolerância que a UEFA promove. A UEFA tem uma política de tolerância zero em relação à violência e as imagens mostram, no mínimo, uma posição ambígua quanto à violência provocada por adeptos", pode ler-se no esclarecimento do organismo que tutela o futebol europeu.»
in Público

elogio
(latim elogium, -ii , epitáfio)

s. m.
s. m.
1. Palavras em louvor de alguém; panegírico; louvor; encómio.encômio.
2. [Irónico] [Irônico] Censura.
in Priberam

Só se foram elogiados no segundo sentido...


Beco sem saída

«Vale a pena fazer as contas. Para um PIB estimado de 170.000 milhões de euros, aquele défice de 4% equivale a cerca de 6.800 milhões, o que parece um número excelente. Mas não se pense que existe aqui qualquer mérito. O que de facto devemos atribuir ao Governo é um défice de 12.800 milhões de euros, que correspondem a 7,5% do PIB, já depois dos cortes nos salários e do aumento dos impostos. É um dos piores desempenhos de que há memória em Portugal.»

Merece ser lido na íntegra o artigo de Daniel Amaral, no Diário Económico de ontem (a que cheguei através do Câmara Corporativa). Para além de deixar clara a relação causal entre a crise financeira de 2008 e a crise da dívida soberana (ver gráfico, adaptado, que aqui se reproduz), o autor demonstra a impossibilidade de se alcançar a meta do défice, estabelecida para 2012, sem mais uma ofensiva austeritária sobre os contribuintes e a economia, num país que já está no limite da exaustão.

A implosão social deste governo terá lugar quando a generalidade dos portugueses perceber, com meridiana clareza, a contraproducência dos sacrifícios que lhes andaram, andam e andarão a ser pedidos. E o estrondo será tanto maior quanto mais nítida se tornar a percepção do desastre a que conduziu o entusiasmo da maioria PSD/PP por uma austeridade inútil, socialmente iníqua e economicamente catastrófica.

Nuno Serra in Ladrões de Bicicletas

Os avençados da Nação

Pedro Vieira in Irmão lucia

"Ó Manuel, a CGD nunca deu dinheiro, dava prestígio. Quem ia para administrador tinha status. Agora vocês abandalharam o banco todo! Meteram lá o Vara e o Bandeira [presidente do BPN e vice-presidente da CGD]! Abandalharam aquilo tudo! Meteram lá o aparelho que controla os movimentos de crédito da CGD. A Caixa está ao serviço de interesses!" Eduardo Catroga contou, há mais de um ano, que terão sidos estas as palavras que dirigiu a Manuel Pinho quando se falava do antigo ministro da Economia para dirigir o banco do Estado. O cavaquista Eduardo Catroga foi o autor do programa eleitoral do PSD. Um programa que era mau mas que nem sequer foi cumprido.

Paulo Teixeira Pinto é autor da proposta de revisão constitucional do PSD. Uma revisão que era escandalosa mas que nem sequer foi feita. O governo optou por violar diariamente a Constituição existente sem que o Presidente fizesse nada. Paulo Teixeira Pinto queria o fim da justa causa para despedimento subsituido-a para uma vaga "razão atendível". Saiu do BCP por razão atendível. Não precisou dela para entrar na EDP.

Celeste Cardona não diz nada há anos. Tornou-se na girl honorária do CDS. Deixa de fazer agora companhia a Nogueira Leite na Caixa Geral de Depósitos, onde chegou sem currículo e com a promessa de uma carreira promissora.

Ilídio Pinho foi patrão de Passos Coelho quando este fazia um intervalo no deserto profissional. Não preciso de dizer mais nada.

A este grupo juntam-se o antigo governador de Macau e ministro da República nos Açores, Rocha Vieira, e o antigo ministro das Finanças, Braga de Macedo, os dois vindos do tempo de Cavaco Silva.

Estas são as pessoas que o governo enfiou na EDP. Foi esta a moeda de troca para vender a parte que era nossa do monopólio energético nacional. Os acionistas escolheram pessoas próximas do poder. Porque é assim, nesta absoluta promiscuidade entre a política e as empresas, que se fazem negócios em Portugal. E depois perguntam: porque não somos competitivos? E sabem como resolver o problema: obrigar os outros a trabalhar meia hora de borla por dia.

Apenas uma diferença em relação aos governos anteriores: estes são os homens que, nos últimos anos, nos explicam que o emprego seguro tinha chegado ao fim. Que defendem a meritocracia. Que cospem no papel do Estado (aquele que se faz com transparência e regras claras, não este que vive da troca de favores e de cromos) da economia. Que olham para os portugueses como se eles fossem um meninos mimados habituados a vida fácil. Vivem num País muito especial. Nesse País, não há carreiras, não há mérito, não há a ansiedade do desemprego e da penúria. Há acumulação de mesadas. Seja no público ou no privado, vivem entre a política e os negócios para se pendurarem no trabalho dos outros. São os avençados da Nação. Recebem um rendimento máximo garantido por nos venderem a austeridade que nunca irão conhecer. Liberais de pacotilha, vivem de expedientes enquanto afundam, há décadas, as esperanças de um povo que trabalha.

PS - Vi ontem António José Seguro a lamentar a confusão entre a política e os negócios. As suas declarações foram feitas em Braga e ao seu lado estava Mesquita Machado. Podia ter escolhido melhor os figurantes para a sua indignação.

Daniel Oliveira in Expresso

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Macaquinhos do Chinês

Pedro Vieira


As nomeações para a EDP são um mimo. Catroga, Cardona, Teixeira Pinto, Rocha Vieira, Braga de Macedo... isto não é uma lista de órgãos societários, é a lista de agradecimentos de Passos Coelho. O impudor é tão óbvio nas nomeações políticas que nem se repara que até o antigo patrão de Passos, Ilídio Pinho, foi contratado.
Estava a correr bem de mais... Um grande negócio para o Estado, uma privatização que reforça a EDP, a gestão reconduzida. Mas a carne é fraca. É sempre fraca. Só falta uma proposta na Assembleia Geral da EDP: mudar o nome de Conselho Geral e de Supervisão (CGS) para o de Loja do Governo.

É extraordinário como uma empresa em vias de total privatização se consome na absurda politização. E é surpreendente: a recondução de António Mexia fora uma demonstração de isenção de Passos Coelho: este Governo não gosta de Mexia nem do poder da EDP (basta ler a entrevista de hoje do secretário de Estado da Energia neste jornal) mas quando os chineses perguntaram se o queriam, Passos não se opôs - remeteu a decisão para os accionistas. Ingenuidade do primeiro-ministro? Não, ingenuidade nossa. A troca foi esta lista de famosos da política. Porquê?

Eis porquê: primeiro, os chineses concebem as estruturas de poder ancoradas no Estado, pelo que acharão normal a sofreguidão de emissários políticos; segundo, os chineses trabalham em ciclos longos, pelo que os próximos três anos de mandato são, como na anedota, um "deixa-os poisar" que deixará crer que não os novos donos não vêm controlar. Mas o mais importante é outra coisa: o CGS representa os accionistas da EDP e muitos, aflitos que estão, também querem vender aos chineses. O triângulo amoroso produziu esta aberração.

Para ser isto, o CGS da EDP devia ser extinto. Este órgão, criado para gerir o equilíbrio entre o Estado e privados, tornou-se numa loja de vendedores e vendidos. Paradoxalmente, o Conselho de Administração Executivo seria mais independente se o CGS fosse extinto e funções como as de auditoria e remunerações fossem transferidas.

António Mexia não é desta loja, ser convidado para um novo mandato é uma grande vitória sua, mas ele sai mais fraco: tem um Governo hostil, aceitou nomes na comissão executiva impostos pelos chineses e está apoiado em accionistas que estão de saída (BES, Mello, BCP).

Voltemos às nomeações. Podíamos dizer que não está em causa o mérito pessoal de cada uma destas pessoas, mas está. Porque o mérito que está a ser recompensado não é o técnico ou sentido estratégico, é o da lealdade e trabalho político. É Catroga (ainda assim, o único aceitável) ter suado por Passos como "ministro sombra", é Teixeira Pinto ter feito a proposta de revisão constitucional, é Braga de Macedo ter feito uma estratégia para a internacionalização que foi triturada por Portas.

É curioso, mas Miguel Relvas, tendo a fama de "apparatchik" que tem, está a fazer as coisas bem. Na RTP, manteve a administração de Guilherme Costa, que tem gente essencialmente próxima do PS. Já Passos reincide na fórmula tenebrosa da Caixa Geral de Depósitos, reforçando a dose: dois cavaquistas (Catroga e Rocha Vieira), dois passistas (Braga e Teixeira Pinto) e um CDS (Celeste Cardona, a mulher mais polivalente de Portugal, já foi ministra, banqueira e agora será conselheira na Energia).

Duas linhas para Ilídio Pinho: é um grande empresário, está ligado ao Oriente e não precisa deste cargo para nada. Precisam talvez as suas empresas. E é pouco recomendável ver metido nisto o accionista e membro dos órgãos da Fomentivest, onde trabalhava Passos Coelho. O próprio devia sabê-lo - e não aceitar.

Por esta lógica, ainda veremos Ângelo Correia ou José Luis Arnaut assomarem numa das próximas nomeações (a próxima é já a Portugal Telecom). O problema é que, enquanto isso, milhões de portugueses estão a perder salários, empregos, a pagar mais impostos, mais pelas rendas ou pela saúde. Estas nomeações são uma provocação social. Porque enquanto muitos tratam da sua vida, alguns tratam da sua vidinha.

As nomeações da EDP, como antes as da Caixa, são um mau sinal dentro da EDP e da Caixa, e são um mau sinal do País. Já não é descaramento, é descarrilamento. A indignação durará uns dias, depois passa, cai o pano sobre a nódoa. A nódoa fica. Quem é mesmo o macaquinho do chinês?
Pedro Santos Guerreiro in Jornal de Negócios

#7 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.







PALÁCIO

DO

CARRIÃO 


2012 - ?








ilustração de Ricardo Machado

Á noite

Não estou a dizer que a vida é boa
Prefiro dizer que foi má
porém também não estou a dizer isso.


Apenas desejo três instrumentos:
esquadro, tesoura, navalha


de modo a que possa medir e cortar
as coisas que podem ser medidas


deixando o resto para a noite cortar,
para os animais que então emergem.

LENNART SJÖGREN
trad. João Luís Barreto Guimarães

in Poesia & Lda.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

#6 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

WAR IS PEACE
FREEDOM IS SLAVERY
IGNORANCE IS STRENGTH

George Orwell in 1984

A subserviência dos jornalistas perante o poder económico

Guardo para o Expresso em papel desta semana a minha opinião sobre o caso Jerónimo Martins. A um triplocomendador devemos garantir um estatuto especial. Por agora, queria apenas escrever sobre a reação de alguns jornalistas e comentadores ao caso.
Perante a justificada indignação de muita gente, mais por a figura em causa se ter dedicado, no último ano, a repetidas lições de patriotismo a políticos e cidadãos do que por o caso em si, os relações públicas da Jerónimo Martins tiveram a vida facilitada. Dali vieram apenas os primeiros "esclarecimentos". Ainda o caso não era caso e já abundavam notícias contraditórias, explicações de fiscalistas e artigos de opinião que oscilavam entre as acusações a um Estado que teima em ainda cobrar alguns impostos a grandes empresas e o derradeiro e infantil argumento de que "os outros fazem o mesmo". Sempre que está em causa um grande empresário a cena repete-se: a reação em defesa da sua honra é imediata e empenhada.
Nada de mal. Todos têm direito ao contraditório (e é dele que nasce o esclarecimento público), mesmo quando a defesa da incoerência de comportamentos parece difícil. O que espanta é que este empenhamento pelo pluralismo na defesa do bom nome de quem é criticado não se alargue a todos os sectores da sociedade e seja sempre muito mais militante quando estão em causa pessoas com um enorme poder económico.
Por causa deste caso, estive a rever entrevistas na imprensa e na televisão feitas a Alexandre Soares dos Santos. Como costumo prestar pouca atenção aos conselhos que esta gente dá à Nação - cada um dá atenção a quem quer e, com todo o respeito por merceeiros, não os considero mais habilitados do que qualquer outro cidadão para o debate político -, tinha matéria para rever. Fiquei atónito. Não se pode dizer que tenha lido e ouvido entrevistas. Os jornalistas (quase sempre de economia) pedem conselhos e dizem frases para as quais esperam a aprovação do senhor. É uma amena cavaqueira onde nada de difícil, embaraçoso ou aborrecido é perguntado. Nunca é confrontado com contradições, incoerências ou dificuldades. Nada se pergunta sobre a relação da sua empresa com os produtores nacionais, com os seus trabalhadores ou com o Estado. E havia tantas coisas para perguntar. Não se trata de uma entrevista a um empresário, com interesses próprios, mas a um "velho sábio" que o País deve escutar com todo o respeito.
Trata-se de um padrão e não de um tratamento especial ao dono da Jerónimo Martins. Se ouvirmos as entrevistas a banqueiros ou outros grandes empresários acontece o mesmo. O que me leva a perguntar: de onde vem esta bovina subserviência de tantos jornalistas perante o poder económico, que não tem paralelo com qualquer outro poder, sobretudo com o poder político?
Explica-se de três formas: dependência, concorrência e imitação.
A dependência é a mais simples de explicar e talvez a menos relevante. A comunicação social não depende do poder político. Não é ele que lhes paga as contas. Depende de quem detém os órgãos de comunicação social e de quem neles anuncia. Claro que há notícias más para os empresários. Se não houvesse, dificilmente teríamos alguma pergunta embaraçosa a fazer a este senhor. Mas perante este poder o jornalista pensa duas vezes, vê os dois lados da questão e procura todas as fragilidades da informação que dispõe - coisa que, sendo outros os sujeitos, tantas vezes se esquece de fazer. Isto, claro, se for sério. Se não o for fecha o assunto na gaveta e não pensa mais no assunto.
A concorrência tem mais a ver com o poder político. A ideia de que a comunicação social é um contrapoder é absurda. E a de que é um quarto poder é um equívoco. Os media não são um poder autónomo, são um salão onde se cruzam os vários poderes. E o poder político também. Por isso, é com este, que tem a legitimidade representativa que falta aos jornalistas, que os jornalistas concorrem.
A imitação vive mais do simbólico. Os jornalistas são uma classe muito particular: a proximidade que têm dos poderes - que os namoram e seduzem - dá-lhes a ilusão de poder. A sua fragilidade profissional (cada vez maior, com a crescente proletarização da profissão) torna-os extraordinariamente fracos. A sua osmose com o poder dominante fá-los repetir o discurso hegemónico de cada momento. E esse discurso é definido pelo poder mais forte de cada momento. E esse poder é, hoje, o económico e financeiro. Sendo de classe média, o jornalista de economia tende a pensar como um rico. Não representando ninguém, o jornalista de política tende a pensar como se fosse eleito.
É por tudo isto que devemos ter em atenção três premissas. A primeira: a independência do jornalista não depende de quem é o seu empregador. Nem a empresa privada garante maior autonomia que o Estado nem a coragem de um jornalista depende do seu patrão. Ou tem, ou não tem. A segunda: sendo a comunicação social fundamental para a democracia ela não substitui a democracia. A opinião de um jornalista não é mais descomprometida e livre do que a de qualquer outra pessoa, incluindo os agentes políticos tradicionais. E a opinião publicada (a minha incluída) não é a mesma coisa que a opinião pública. A terceira: os jornalistas não têm como única função fiscalizar o poder político, mas fiscalizar todos os poderes. Incluindo o seu. Quando não o fazem tornam-se inúteis.

Daniel Oliveira in Expresso

quinta-feira, janeiro 05, 2012

O Cognitariado de Mariano Gago

Aumentou nos últimos anos o número de trabalhadores de investigação científica. A questão que hoje se coloca a estes trabalhadores é, no entanto, preocupante: qual será o seu futuro?

A resposta não está escrita no céu e em parte depende da força que os próprios conseguirem fazer valer. Esta força terá que assumir necessariamente uma dimensão colectiva. O tempo das soluções individuais já passou. Se é que essas alguma vez chegaram a ser solução.

O mais urgente, neste preciso momento, parece-me ser construir espaços comuns de discussão que reúnam a comunidade de investigadores. Estes espaços não existem por várias razões. Queria apenas elencar três: docentes e bolseiros reunirem-se separadamente, os primeiros nos seus sindicatos e os segundos nas suas associações; sindicatos de docentes e associações de bolseiros com pouca capacidade de mobilização dos seus representados; e representados em que só raramente estão incluídos docentes sem emprego ou bolseiros sem bolsa.

Uma reunião capaz de colocar ao mesmo nível os diferentes tipos de investigadores será um primeiro passo para um debate que será demorado. Um bom ponto de partida para nesse debate atalhar caminho é o balanço da política científica dos últimos anos, particularmente associada ao legado de Mariano Gago e ao ciclo de investimento europeu subjacente ao protagonismo do seu ministério.

Para colocarmos as coisas de um modo simples, ainda que desajeitado, a pergunta pode ser assim formulada: devemos dizer bem ou dizer mal do legado de Mariano Gago?

Se lermos as notícias que nos chegam de boa parte da comunidade científica, a resposta parece clara: dizer bem de Mariano Gago. E não custa adivinhar, perante o novo governo, e o futuro mais sombrio que com ele se avizinha, que a tendência nos próximos tempos seja para enfatizar ainda mais positivamente aquele passado.

A maior parte dos que elogiam Gago serão, no entanto, investigadores integrados no sistema académico. Dessa posição é mais fácil julgar o tempo de Mariano Gago como uma época de ouro, pois foi então que os investigadores integrados passaram a dispor de um conjunto importante de recursos, o que lhes permitiu dedicar mais e melhor tempo à ciência. Acontece, porém, que entre aqueles recursos se encontravam e encontram não apenas microscópios, bibliotecas e fundos, mas também um número considerável de outras coisas, especificamente nomeadas como bolseiros. E é preciso dizer que muitas vezes tanto o ministério como os investigadores integrados olharam e olham os bolseiros como recursos humanos e não como trabalhadores com direitos ou colegas de profissão.

Não surpreenderá, por isso, se do ponto de vista dos bolseiros os anos de Mariano Gago sejam também tempos de sombra, tratados como mão-de-obra barata, precária e descartável por faculdades, governo e União Europeia, sem direito a contratos de trabalho, sem direito a subsídio de desemprego, sem direito a descontar condignamente para a segurança social e sem direito, em vários casos, a ver a lei ser cumprida – por exemplo a questão da obrigatoriedade de integração dos pós-doutorados nos conselhos científicos. Enfim, é preciso dizer que o progresso da ciência se fez com base num regime de exploração laboral muito pouco civilizado. Se ministros houve cujo sucesso dependeu da aposta numa condição precária, é preciso dizer que Mariano Gago foi um deles.

A expressão comunidade científica, sem dúvida muito elegante, não deixa por isso de ser equívoca neste caso. Pressupõe uma relação horizontal entre os seus membros que está longe de existir num mundo universitário onde os factores de diferenciação se acumulam, do catedrático ao bolseiro, do vínculo definitivo de uns à ausência de vínculo laboral de outros, dos salários elevados às vidas pobres. E é também por isto que hoje nós, trabalhadores da ciência, do mais ou menos graduado, precisamos de saber construir um projecto político capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo: aumentar o investimento do Estado na ciência e conseguir uma distribuição mais igual dos recursos disponíveis na dita comunidade. Para que tantos não continuem a escrever os artigos para os outros, como os operários que para os outros construíram as cidades onde nunca chegaram a viver.

José Neves in Vias de Facto

#5 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

01.XII.10 - 06.I.12

Sabe bem pagar tão pouco

O clube de fãs de Alexandre Soares dos Santos ataca em força na blogaria. Que há por aí um "histerismo" dos media, uma "hipocrisia". Enfim, só posso dizer: têm toda a razão. E então quando vêm os partidos do Governo lamentar a atitude de ratazana abandonando o barco do merceeiro do Pingo Doce, mais convencido fico. É claro que ele pode mudar a cabeça da holding para muito bem entender, é livre de o fazer e tem legitimidade económica (o que quer que seja que esta expressão signifique) para isso. O que é chato é ter andado tanto tempo a aparecer em "planos inclinados" e outras salubridades do género, apregoando uma moral patriotinha e cretina e apelando aos sacrifícios dos portugueses e a um maior esforço dos seus clientes e trabalhadores - até porque os lucros da empresa que dirige têm de manter-se constantes. Mas quem, no lugar dele, não se poria daqui a andar? Fantástico argumento; aplicado até ao absurdo, faria com que o país apenas ficasse com os aleijados, doentes e crianças. (E os políticos e jotinhas que gravitam o poder.) Enquanto não sai o próximo número da excelsa colecção barretiana da benemérita fundação do Pingo Doce, até podemos ir sugerindo medidas a este Governo (ou outro) para evitar esta fuga de capital para mais aprazíveis paragens: por que não uma sobretaxa sobre as empresas cujas holdings ou subholdings estejam sedeadas em países estrangeiros? Ou então, benefícios fiscais para quem decidir mudar-se para (ou ficar) cá. Isto, é claro, se a progressão fiscal nos rendimentos singulares for mais acentuada. Será que assim, com um regime fiscal parecido com o da Holanda* - impostos baixos para as empresas e altos para rendimentos, o que lhes permite manter um Estado Social forte e sustentado sem limitar a livre iniciativa - os nossos "liberais" ficariam contentes? Melhor ainda: voltaria Soares dos Santos ao país, caso houvesse algum Governo que tivesse a coragem de implementar esta revolução fiscal? 

*Para uma comparação mais directa com o nosso país, ver aqui. Enquanto em Portugal os impostos sobre o rendimento singular variam entre os 10.5% e os 40%, na Holanda, a variação vai de 0 a 52%. Para além do mais, a diferença não é assim tão grande no IRC: 20 a 25% na Holanda e 25% aqui. Competitividade é, definitivamente, isto.


Sérgio Lavos in Arrastão

quarta-feira, janeiro 04, 2012

#4 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.


Dimokransa, Mayra Andrade

«(...) Maioriâ sta tudu kontenti
Ku avontádi na dimokrasiâ (...)»

três dias pela frente são três dias a mais do que antes.

estes são os três dias que ninguém quer ver no calendário. são o sentir que o chão desaparece por debaixo dos nossos pés. nada mais existe. não falo de sonhos. nem daquelas utopias lá longe. daquelas que se escrevem em livros que tão poucos leem, e menos ainda executam.
não tragas a bomba para aqui. nem as palavras inflamadas. hoje quero apenas ouvir o teu lamento e encontrar uma palavra que ajude. que torne a ausência em presença. o medo em força.
são três dias pela frente. e nem sei se eles são mesmo três dias. se são dias ou noites em branco. a incerteza é assim: uma antimatéria desconhecida. falo de sentimentos e impressões, deixo as certezas matemáticas de parte. à parte. tal como te sentes. um livro velho a ser guardado numa prateleira empoeirada. é o fim da livraria. é o fim do percurso. talvez não. digo-te que não. e, contudo, não sei.
hoje o frio faz mais frio. o sol é mais céu azul de inverno e menos calor. é uma estrela que não faz sentido elogiar. hoje o dia escorreu pelo relógio abaixo. tal como as lágrimas que se cruzaram entre corredores e caixotes preenchidos à pressa. hoje as mesas ficaram mais vagas, as cadeiras mais a mais.
é tão negra a realidade, que não há mais roubos que façam sentido. as palavras que tiro a eito, que ceifo páginas fora, são vãs. não passam nada. que interessa a economia, a política, a dicotomia esquerda-direita, se tudo pode mudar de um dia para o outro. não sou eu. ou até sou eu. é a sensação de impotência no olhar do outro. a rua está ali. ao abrir da porta, ao tocar do telefone.
não nascemos preparados para isto. para os adeuses inesperados. são três dias pela frente. são três dias a mais do que antes.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

segundo dia

era o segundo dia do ano, mas parecia que era já um ano velho. o frigorífico vazio olhava para miguel com um ar reprovador e silenciosamente perguntava-lhe porque não ia ele às compras. não sabia responder. chegava tarde todos os dias. era já noite quando os seus outros dias começavam. a sua mulher dormia há horas e até a tv parecia num mute suspeito. chegava do atelier sempre muito depois da meia-noite e já raramente se falavam. viviam inconciliáveis vidas unidas por um colchão que já os fizera muito feliz: pedro. um amor de filho, com apenas 10 anos e mil e um sorrisos por oferecer. não era por ele que estavam juntos. não era pelos caracóis louros que ela deixava pousar delicadamente no travesseiro. não era pelo cheiro doce que enchia a casa pela manhã. não era pelas promessas eternas que haviam trocado quando ainda eram uns catraios. não era por nada. era por tudo. pelo medo que tinha de mudar. naquele momento já lhe bastava o medo sem fim que lhe apertava o coração. era todo um novo projecto. eram novas pessoas. era todo um admirável mundo novo. e ele sem encontrar forças para admirar. não era por nada. era o nada. que lhe enchia o peito e tirava o ar. o mesmo ar que enchia os caixotes. vazios. como a sua vida. amanhã miguel acordará mais cedo e procurará sorrir como antes enquanto toma o pequeno-almoço em família. até lá vai acabar por adormecer enquanto faz o zapping que tanta falta lhe faz na vida.

#2 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

via site do Banksy!

O primeiro dia


Dom Quixote. Parece que o ou a Dom Quixote estão decididos a marcar a minha vida.

domingo, janeiro 01, 2012

#1 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

Serão 31 músicas, poemas, fotografias, textos, curtas. Serão 31 recordações que me marcaram desde a primeira vez.


«Naquela altura eu não percebia as mulheres. Aliás, agora também não. Nem os homens. Nem os animais. O que percebo melhor, e não é dizer muito, são as minhas dores.»

Primeiro Amor, de Samuel Beckett