sexta-feira, janeiro 13, 2012

#11 Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.

«Um dia ela voltou a repetir-me que ia ter com o outro. E saiu de casa. Nessa noite revolvi-me no mais atroz ciúme. Queria percorrer o muceque à procura dela, imaginei matar os dois, sei lá mais quê! Depois compreendi que a nossa vida era finalmente monótona, os rasgos de amor tinham acabado no primeiro ano, e Leli era insaciável. Decidi que a devia reconquistar. Ela voltou na manhã seguinte, desfeita. Contou-me que não tivera coragem de ir ter com o outro, dormira na casa duma amiga. Compreendi que ela estava bastante presa a mim, mas que era necessário ter uma experiência negativa de outro lado, para poder ser reconquistada.

– E então empurraste-a...

– Exacto. Disse-lhe que não queria mais nada com ela, ia arranjar uma outra mulher. Isso libertou-a de mim, mas, ao mesmo tempo, chocou-a. O facto de me perder fê-la imediatamente vacilar. Dominei a vontade que tinha de lhe dizer a verdade e expliquei-lhe que nessa noite reflectira e que, afinal, ela já não me interessava. Leli não sabia que fazer. Vi-a desamparada. Nesse momento senti que a vencera, era só uma questão de tempo.

– Porque não a recuperaste logo ali?

– Era preciso consolidar a vitória. Ela foi viver com o outro. Era um empregado dos correios, metido a intelectual, extremamente vaidoso. E vazio, no fundo. Eu encontrava Leli frequentemente, comportava-me com ela como o melhor amigo, o confidente. À sua frente tomei a personalidade dum libertino, compreensivo com tudo e todos. No primeiro mês, Leli não me pertenceu, pertencia ao outro. Mas observei nela a desilusão cavar-se, à medida que o tempo passava e conhecia melhor o outro. Inconscientemente ela tinha de fazer a comparação comigo, o novo homem, agora adulto, que à sua frente surgia. Foi com requinte que me moldei à personalidade que lhe devia apresentar. E ela começou a lamentar a escolha. Eu aparecia frequentemente com raparigas e sentia o ciúme dela avivar-se. Leli sempre fora uma comediante, mas conhecia-a bem de mais para ser enganado: Leli tinha ciúmes de qualquer miúda que eu olhasse com interesse. Era cedo ainda para actuar. Deixei-a desiludir-se completamente do outro. Jantávamos juntos quase todos os dias e ela confidenciava-me as suas amarguras. Eu, sub-repticiamente, levava-a a aperceber-se da vaidade do outro, das suas pretensões, das suas ideias atrasadas. O pequeno-burguês-tipo. Leli não era pequeno-burguesa, teria mais defeitos de grande-burguesa que de pequeno-burguesa.

– Poça! Foi preciso sangue-frio... Até fizeste uma análise de classe?

– Não, isso sou eu agora a explicar, naquele momento não o seria capaz de fazer.

Sem Medo tirou os pés da água e esfregou-os distraidamente.

– A partir do segundo mês, era já certo que Leli estava farta dele. Só sexualmente ainda havia uma certa ligação entre eles. Era nesse domínio que eu teria de agir. Chegou uma noite em que ela confidenciou que iria arranjar um amante. Comigo nunca o fizera, porque me respeitava. Mas a ele... Disse-o de uma maneira superficial, talvez mais para saber a minha opinião. Nessa noite convidei-a a minha casa. Pus discos, dançámos e, por fim, ataquei-a. Só se apercebeu do que acontecia depois já de termos feito amor. Procurou ainda lamentar-se, mas eu disse-lhe que era o mais natural, que nada tinha a reprovar-se. Fizemos amor durante a noite inteira. No dia seguinte, ela foi buscar as suas coisas à casa do outro.»

Pepetela

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