terça-feira, janeiro 31, 2012

com ou sem defesa?

A Defesa de Ana Drago

O ódio queirosiano e salazarista em relação ao parlamento e à vidinha representativa é uma marca da nossa cultura (sim, Eça e Salazar eram farinha do mesmo saco neste ponto). Nos últimos meses, este populismo tem batido vários recordes e tem sido o ganha-pão do jornalismo-que-dá-ao-povo-aquilo-que-ele-quer-ouvir. Na semana passada, por exemplo, Ana Draga foi queimada nesta pira queirosiana, porque, imaginem, usou um motorista para ir a Guimarães. Quem diria, ah? Quem diria que um representante da nação tem acesso a coisas que um cidadão normal não tem? Só mesmo neste país, não é verdade?
Pelo que percebi, Ana Drago é o segundo lisboeta que não conduz (o primeiro sou eu), logo, usou um motorista do BE ou do parlamento para ir a Guimarães em trabalho. Levantou-se logo uma onda de choque contra Drago. Esta deputada não vai ganhar 40 mil euros na EDP e não anda por Paris depois de ter arruinado o país, mas teve de ouvir o calão anti-partidos: "mas porque é que não vai no seu carro?"; "porque é que não vai de comboio?". De facto, como é que uma representante do país tem a lata de andar de motorista? Como é uma representante do país tem o descaramento de fazer o seu trabalho fora da assembleia? Os deputados têm de ficar quietinhos, lá no gabinete da assembleia. Ou não. Se calhar, também devíamos acabar com isso, porque é escandaloso que os deputados tenham secretárias (a senhora e a mesa) pagas por todos nós, não é verdade?
Este populismo anti-partidos está a passar alguns limites, e está a confundir as coisas. Uma coisa é debater uma redução do salário dos deputados ou mesmo a redução do número de deputados. Outra coisa, bem diferente, é cair em cima de qualquer gasto remotamente principesco de um deputado. É bom não esquecer uma coisa: a democracia é um regime caro; não há democracias grátis. A conversa do "deputado é um bandido com motorista" esquece esta evidência e faz demasiadas tangentes à conversa que elevou Salazar ao poder. Convém evitar isto, porque o Estado Novo era mesmo um regime baratucho, e o tuga adora uma bela loja dos trezentos. 

Henrique Raposo in Expresso

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