quarta-feira, janeiro 11, 2012

«É o nosso futuro e não o deles que está em causa.»

Estou-me a marimbar para a troika

Primeira informação do Banco de Portugal: este ano a recessão vai ser maior do que se esperava. A contração da economia não tem precedentes. E essa recessão resulta das medidas de austeridade decidas pelo governo e com forte impacto no consumo.
Segunda informação do Banco de Portugal: o governo vai ter de tomar mais medidas de austeridade (que Vítor Gaspar nega e ninguém acredita) porque receitas extraordinárias, como a que foi conseguida com os fundos de pensões dos bancos, significam mais despesas futuras para o Estado.
Fecha-se o ciclo perfeito: mais austeridade, mais crise, necessidade de receitas extraordinárias para cumprir o défice quando a economia abranda, mais despesas, mais défice, mais austeridade, mais crise. Ou seja, a receita contra a doença vai piorar a doença. Vamos morrer por causa dela.
Tudo aquilo que os críticos do caminho da austeridade para lidar com esta crise disseram confirma-se de forma ainda mais rápida e profunda do que o previsto. Não porque fossem visionários. Apenas porque era evidente.
Pergunta-se: qual é a alternativa? Há muitas e todas passam pela Europa. Se não for por aí, não debatemos alternativas mas inevitabilidades. A primeira: não vamos pagar a nossa dívida. Ponto final. Não é política, é matemática. O que fica para a política é se, havendo incumprimento, saímos dele vivos e capazes de recuperar. O tempo joga contra nós. Hoje já é tarde para exigir uma renegociação. Amanhã será ainda pior. Depois de amanhã pior ainda. Daqui a uns meses será inútil. Nada teremos para renegociar. Em vez de um acordo sério com os credores teremos as suas condições sem mais conversas. E as suas condições serão a nossa morte.
O que deputado Pedro Nuno Santos disse há umas semanas, e que tanta indignação causou, é mesmo a única saída. E os que então se mostraram tão melindrados terão de engolir as suas palavras e dar-lhe razão. A nossa única arma é mesmo esta: ou renegociamos a dívida - nas condições e prazos de pagamento e até nos seus montantes - ou não pagamos. É a bomba atómica? Não. Já se transformou em armamento convencional. É apenas isso que está em debate em relação à Grécia: ou há uma renegociação profunda da dívida ou ela não será paga. E a Grécia acabará por sair do euro.
É isto que estará em debate em Portugal. Quanto mais cedo assumirmos a inevitabilidade menos estreito será o caminho para a recuperação. Assumindo de uma vez por todas que a austeridade não resulta. Temos duas possibilidades: ou renegociamos já (e poderemos respirar um pouco), usando, se necessário, a ameaça do não pagamento, ou saímos do euro (o que será trágico, mas sempre nos dará novos instrumentos para sair da crise).
Está na hora de acabar com esta fantasia que nos está a atirar para a um poço sem fundo. E para nada: no fim, nem pagaremos o que devemos, nem teremos as contas públicas em ordem, nem reergueremos a nossa economia. Tudo o que estamos a fazer é inútil. Que alguém tenha a coragem de dar um murro na mesa e por fim a esta loucura. A troika não deixa? Como dizia o outro, estou-me a marimbar para a troika. É o nosso futuro e não o deles que está em causa.

Daniel Oliveira in Expresso

NOTA: Juntemos a este cenário negro as declarações de M. Ferreira Leite, ou todas as outras que todos os dias são vergonhosamente cuspidas na comunicação social, e ficamos aterrados. Não há futuro. Isto não é uma tese calamitosa. Nem um momento à Medina Carreia. É a realidade. Quem nos governa não representa o paradigma do neoliberalismo, espelha antes a total ausência de conhecimentos ou opinião económico-financeira. Esses senhores não seguem uma matriz política ou têm objectivos a longo prazo, querem apenas o melhor. Hoje. O lucro fácil, a cunha acessível, ou a vingança pessoal são o único objectivo. Há que ter medo. Muito medo. Não há pior que um louco que não segue regras. É que «é o nosso futuro e não o deles que está em causa». O que fazer então?

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