terça-feira, janeiro 24, 2012

Houve um dia em que Corto Maltese vestiu a camisola do Benfica. Chamávamos-lhe Pablo Aimar.

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Não vi o jogo com o Gil (estava a trabalhar, olhando nervosa e frequentemente para o telemóvel à espera que o meu pai marcasse os golos via mensagem), mas segundo me dizem, parece que foi preciso Aimar entrar. Vejo o resumo e só me dão o terceiro golo, com Pablo a marcar e a levantar os braços, como quem só não quer incomodar. É impossível colocar toda a classe de Pablo Aimar num resumo. E quando penso nisso, sinto saudades. Antecipo as saudades que vou ter – e que portanto já tenho – de Pablo Aimar.

O meu primeiro deslumbre com o 10 argentino vestido à Benfica foi num Paços – Benfica (3-4 na Mata Real). Entrou no fim de um jogo confuso, que o Benfica insistia em não conseguir dominar. O cabelo desgrenhado e os calções que lhe parecem sempre demasiado grandes. O Paços bombeia bolas para a nossa área e uma sobra para Aimar, que tinha tudo para devolver docemente a um dos nossos defesas, para que este pudesse chutar a bola com sofreguidão. Aimar fingiu com o corpo esse movimento, os defesas do Paços lançavam-se já para saltar e esperar que o chutão do nosso defesa lhes batesse no corpo, quando Aimar se limitou a voltar-se, os defesas enganados, e ele com aquele ar de pirata, de gentil cavalheiro da fortuna, pronto a sair a jogar.
A jogada perdeu-se, mas houve ali poesia. Uma coisa bonita, desumana na sua impossibilidade de ser feita por qualquer um, mas ao mesmo tempo de uma estranha moralidade, trazendo ordem ao caos. Aimar é isso, o pirata que, através do engano, encontra a luz na desordem.


Corto Maltese é o pirata apaixonado pela ideia de estar apaixonado. Solitário e companheiro, há em Corto a bondade dos que defendem os mais fracos (como Maradona) e a malandragem da ópera de Chico Buarque. Um revolucionário sem partido, sempre pronto para ler um clássico ou para uma luta com facas. Depois acende um cigarro e desaparece na névoa. Pergunto-me, às vezes, onde estará Corto Maltese e se é verdade que desapareceu mesmo na Guerra Civil Espanhola.

Pablo Aimar é isso, é o Corto Maltese. Não nos diz ser do Benfica desde pequenino, mas mete o pé em cada bola como se tivesse vivido toda a vida no Terceiro Anel. Respeita mais do que ninguém os rivais, mas é o primeiro a querer enganá-los com aquele seu futebol tão ordeiro e tão mentiroso. Pela barbicha à D`Artagnan, pelas recepções de veludo quando a bola vem no ar, impossível de agarrar, vejo em Aimar essa poesia justiceira, que vai trazer o Benfica de volta. Na maneira como troca a bola com Saviola, com quem se entende de uma maneira criminosa, tudo em Aimar é inteligência (imagino Aimar e Saviola novos e juntos no Benfica e é como ler A Juventude de Corto Maltese e saber como Corto Maltese e Rasputine se conheceram).

Como Aimar, Corto não é o herói perfeito. Às vezes é cruel nas suas vinganças, muitas vezes parte corações pela melancolia da coisa, que aprecia bem mais do que finais felizes. Aimar nunca ganhou a Bola de Ouro, um Mundial, uma Champions, Corto nunca encontrou nenhum tesouro ou nenhuma princesa. E essa imperfeição, essa melancolia que os quase heróis também trazem, são a razão porque Pablo Aimar será sempre lembrado numa noite de copos no Bairro a falar de bola e porque muitos ainda esperam ver Corto em Lisboa (onde Pratt o desenhava, quando morreu).

E é por essa admiração que ontem fiquei triste por ter perdido o que o Mago trouxe ao jogo. Mais triste fico quando não sinto por parte da direcção do Benfica a urgência em renovar com este homem.
Pablo não ficará connosco sempre, como Corto não ficou com os irlandeses, nem com Cush, nem sequer com Rasputine. Mas não ficar com Pablo é não querer ler A Balada do Mar Salgado ou o Tango. E isso é simplesmente criminoso.

Hoje tenho saudades de Pablo Aimar. Tenho saudades da bola colada ao pé e daquilo que me trouxe. Vejo ainda, nitidamente, Aimar isolar-se frente a Rui Patrício e percebo tudo em banda desenhada. A anca vira-se para a direita, o pé direito aponta e há uma pequena pausa – do tamanho do Mundo – para que Patrício caia. A mentira do pirata completa-se e Aimar arranca para o outro lado. A bola, sempre amiga e companheira, por estranhas diabruras do destino ousou fugir-lhe. Pablo alarga a passada, cresce ao sentir as bancas já de pé, mas lembra-se dessa honra, desse código secreto que só os cavalheiros da fortuna conhecem. Aimar porventura não conhecia Cosme Damião, mas sabe que foi acarinhado e reabilitado pelos Benfiquistas e que a única coisa que pode e tem que fazer é retribuir (como Corto a caminho de Samarcanda). Então, deixa que um sportinguista se atire, acredite que a bola pode não entrar. E com o cheiro do mar e do Benfica a fazer-lhe voar o cabelo – sempre desgrenhado, sempre pirata – levanta a bola sorrateiramente. É golo. É o tango argentino. E no meio da loucura, da banda desenhada, das saudades do futuro, perguntamos a Aimar se já esteve apaixonado por um clube e ele, como Corto, responde-nos que sim, há muito tempo, e nós, embevecidos, acreditaremos sempre que foi pelo Benfica.
E eu vou ter, como ontem, saudades de sentir isso.

M. in Lá em casa mando eu

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