segunda-feira, janeiro 02, 2012

segundo dia

era o segundo dia do ano, mas parecia que era já um ano velho. o frigorífico vazio olhava para miguel com um ar reprovador e silenciosamente perguntava-lhe porque não ia ele às compras. não sabia responder. chegava tarde todos os dias. era já noite quando os seus outros dias começavam. a sua mulher dormia há horas e até a tv parecia num mute suspeito. chegava do atelier sempre muito depois da meia-noite e já raramente se falavam. viviam inconciliáveis vidas unidas por um colchão que já os fizera muito feliz: pedro. um amor de filho, com apenas 10 anos e mil e um sorrisos por oferecer. não era por ele que estavam juntos. não era pelos caracóis louros que ela deixava pousar delicadamente no travesseiro. não era pelo cheiro doce que enchia a casa pela manhã. não era pelas promessas eternas que haviam trocado quando ainda eram uns catraios. não era por nada. era por tudo. pelo medo que tinha de mudar. naquele momento já lhe bastava o medo sem fim que lhe apertava o coração. era todo um novo projecto. eram novas pessoas. era todo um admirável mundo novo. e ele sem encontrar forças para admirar. não era por nada. era o nada. que lhe enchia o peito e tirava o ar. o mesmo ar que enchia os caixotes. vazios. como a sua vida. amanhã miguel acordará mais cedo e procurará sorrir como antes enquanto toma o pequeno-almoço em família. até lá vai acabar por adormecer enquanto faz o zapping que tanta falta lhe faz na vida.

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