sexta-feira, fevereiro 17, 2012

é uma da noite

anne fecha a porta de casa. atira os sapatos para um canto. calça as pantufas. «as mais quentinhas de sempre», assim as elogiava a avó. devia ligar-lhe. não pode. já é tarde. abre o frigorífico. espreita. não há nada. umas beterrabas, uma fruta cortada, um queijo curado e o vazio. e o frio.
fecha a porta do frigorífico. pega num copo. bebe água. abre o congelador. algumas ervilhas saltam. espalham-se pelo chão. pisa algumas. há uma costeleta de porco, mas é demasiado pequena. também há medalhões de pescada. e cebola. aos pedaços e às rodelas, mas sempre muito gelada. como a vida que sopra lá fora.
a janela está aberta e «está uma corrente de ar daquelas», pelo menos assim dizia a avó. cereais. pode comer uns cereais. abre o frigorífico e tira o leite. não chega. e está azedo. tal como a relação com a avó. podre e decadente, resultado de estar sempre ausente. «quem rima sem querer...» diria a avó. ela dizia tanta coisa. e muitas delas acertadas. pois agora não dirá mais nada.
anne sente-se vazia. torna-se numa ausência prolongada, numa espécie de corrente de ar sem vento, num verso sem rima, numa hora da noite sem duas.

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