quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Racismo e patriotismo: modos de usar


I'am a Patriot, Pearl Jam

Quando escrevo sobre o governo angolano e a sua corrupção desavergonhada, que tem como principais vítimas os próprios angolanos, há sempre alguém que me acusa de racismo. Quando digo que não quero a importação, para Portugal, dos modos de agir da elite económica angolana, sou xenófobo. Recentemente, houve mesmo um angolano que me chamou "racista" e "descendente de negreiros". Como é o caso, a acusação vem de quem confunde a cor da pele de alguém com a história colonial do País onde vive. Quando escrevo sobre o criminoso comportamento do Estado de Israel para com o seu vizinho palestiniano, impedindo-o de ter um Estado próprio e tratando-o como uma raça sub-humana, não escapa: há sempre alguém que me acusa de antissemitismo e me compara com a mais reles escória que a humanidade conheceu ou com o fundamentalismo islâmico, que tem tanto a ver comigo, ateu até à medula, como qualquer fundamentalismo religioso. A acusação costuma vir de quem confunde muitos milhões de fieis de uma determinada religião com o comportamento de uns grupos minoritários e radicais. Quando escrevo sobre o comportamento europeu, incluindo o português, em relação aos imigrantes (e como os europeus vão, se a crise se agudizar e muitos tiverem de partir, pagar cara a sua arrogância), passo a ser um esquerdista politicamente correto, sempre pronto a carregar o fardo do homem branco, um militante anti-ocidental e um racista ao contrário. Quando escrevo sobre o comportamento imperial dos Estados Unidos nas últimas décadas há sempre alguém que me acusa de ser anti-americano primário com saudades dos abjectos regimes do leste europeu. A acusação costuma vir de quem muda as suas exigências morais conforme a potência que está em causa. Quando critico a falta de democracia no Irão, a ditadura cubana, os abusos do caudilhismo chavista ou a exploração dos trabalhadores na China há sempre alguém que me acusa de ser um idiota útil do imperialismo americano e, claro está, de algum tipo de racismo latente. A acusação costuma vir de quem acha que os americanos são, pela sua natureza, a origem de todos os males no planeta. E não se importa de apoiar regimes criminosos, desde que estejam do lado contrário da barricada. Quando escrevo sobre o comportamento irresponsável do governo alemão nesta crise europeia e a sua aparente falta de memória sobre as condições que permitiram mais de meio século de paz na Europa há sempre alguém que me acusa de chauvinismo. Geralmente, as mesmas pessoas que fazem generalizações depreciativas sobre os gregos ou os portugueses. Apesar da dificuldade em ser, ao mesmo tempo, antissemita e anti-germanófilo, capacho dos americanos e anti-americano, politicamente correto e racista, ateu e islamista, quero ver se consigo, de uma vez por todas, pôr um ponto final nesta forma de debater. Não tenho nada contra nenhum povo, cultura ou religião. Nem a favor. Os povos são a sua história (cheia de contradições) e as suas circunstâncias. Não são homogéneos. Não há uma cultura ocidental, não há uma rua árabe, não há um sonho americano, não há um sentimento judeu, não há um racismo alemão, não há um atraso africano e por aí adiante. As sociedades são, todas elas, conflituais e contraditórias. Cabem nelas muitos povos, muitas culturas e muitos confrontos. As criticas que faço ou são a governos concretos, que determinam políticas de Estados, ou a hegemonias que, em determinado momento, dominam o sentir maioritário de um povo. Não acho que o expansionismo ou o trabalho estejam inscritos no DNA dos alemães. Não acho que os judeus sejam vilões ou heróis para todo o sempre. Não acho que os povos do sul da Europa sejam vítimas das potências europeias ou incorrigíveis preguiçosos. Assim como não acho que os portugueses sejam especialmente tolerantes ou especialmente desorganizados. Resumindo: não acho que aqueles que hoje são vítimas das circunstâncias não passem a ser, se para isso tiverem oportunidade, os piores dos carrascos das desgraças alheias. E vice-versa. Os debates sobre a natureza dos povos (que às vezes até se socorrem de argumentos biológicos, climáticos ou de outra qualquer patranha) ou a superioridade ou inferioridade das suas culturas não me dizem nada. Não dou para esse peditório. E é por ser profundamente antirracista que critico, sem pedir desculpas, o Estado de Israel. E é por não achar nada sobre "os americanos" que não tenho de fazer introitos idiotas sobre o seu magnifico cinema para criticar o seu comportamento imperial. E é por não gostar deste jogo de espelhos que critico a ditadura castrista sem ter de gastar dez parágrafos a falar do estúpido embargo americano. E é por assumir que sempre fui coerentemente anticolonialista, e por isso inconfundível com quinhentos anos de exploração, que não meço palavras para falar do regime cleptocrático que governa Angola. E é por ser um cidadão do Mundo que nenhum argumento em defesa de soberanias nacionais alguma vez me impedirá de criticar qualquer ofensa aos direitos humanos por parte de qualquer Estado. E é por ser europeísta que responsabilizo o governo alemão (este, com rostos e nomes) pela desgraça de um projeto que tinha de ser democrático e incluir todos os povos. Estou, isso posso garantir, cada vez mais cansado da desonestidade intelectual de tantos debates, que nos querem obrigar a ignorar as nossas convicções pelo medo de estereótipos e chantagens. Sim, estou zangado com Alemanha. Com o seu Estado e com o seu governo. E isto não muda um milímetro do que penso dos alemães: gosto muito de uns, não gosto nada de outros e a maioria deles nem conheço. Passa-se, aliás, exatamente o mesmo com os portugueses. E se nunca me faltaram críticas aos mitos lusotropicalistas, que nos vendem uma falsa tolerância histórica do colonialismo português, ou ao patrioteirismo vazio com que tantos políticos adoram pavonear-se, também desprezo esta autoflagelação nacional que uma certa elite gosta de vender para continuar a ver o povo de cabeça baixa. Talvez seja reação, mas por estes tempos sou mesmo um patriota. Como sempre, tudo depende das circunstâncias.

Daniel Oliveira in Expresso

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