domingo, março 18, 2012

E enquanto os brasileiros escrevem os portugueses contam tostões

1. Sento-me com uma amiga a almoçar em Lisboa e ela conta-me que está a viver com 300 euros por mês. Transfere-os todos os meses da conta-poupança para a conta-corrente. Isto é possível porque, aos 35 anos, continua em casa dos pais, no seu quarto de rapariga, onde agora tem o computador, primeira coisa que liga todas as manhãs. Vive com muito pouco e sente-se uma sortuda por ter bom ambiente familiar. Durante anos aguentou-se num emprego que detestava, largou-o finalmente para tentar escrever e traduzir. Da escrita ganha nada, a tradução varia entre sete e oito euros e meio por página. Um livro de tamanho médio, que lhe leva três meses de trabalho, representa mil e tal euros de remuneração. É assim que a literatura estrangeira está a ser traduzida em Portugal. À custa desta falta de alternativa.

2. Sento-me com outros amigos em Lisboa que escrevem, entre outras coisas, algumas penosas e mal pagas, algumas nunca pagas, milhares de euros ao ar. Não vem da crise, é uma exploração antiga: escrever não é trabalho e o tempo de quem escreve não é tempo. O tempo dos gestores é dinheiro, como o dos canalizadores, mas quem escreve não paga luz, não tem fome, não tem família, não precisa de seguro, de segurança social, nem, mais à frente, de pagar o funeral. Uma espécie de sobrehumano ao serviço da cultura. Portugal é assim um país de poetas ricos, escreveu Nuno Moura, poeta que podia dizer sobre isto o que nem imagino.
Em Portugal, poetas e prosadores são certamente tão ricos que não precisam de ser pagos quando vão daqui para ali, e fazem textos para colóquios, para revistas, para jornais, e são chamados para debates, para badanas, para prefácios — montras, em suma, em que se podem mostrar e de que portanto beneficiam. O que escrevem não tem preço e o tempo deles não se mede.
— Não há dinheiro que me pague — remata aquele meu amigo que nem quando cede ao sarcasmo deixa de ser o mais elegante.

3. Porque somos um país de poetas ricos e elegantes. Morremos à fome mas com elegância. Depois toda a gente lamenta e entretanto é de bom tom não falar naquele assunto a que João César Monteiro chamaria o dinheirinho.
Por pudor perdemos a vida. Não é digno, é só obsceno, gente que não sabe como viver amanhã, que todos os dias sabe o que perde, que não está a fazer o que tem para fazer aqui. E aqui é um lugar cada vez mais pequeno, onde os cidadãos elegem um governo e esse governo depois os manda emigrar, como se a sua única razão de ser não fosse servir os cidadãos.

4. Entre o fim dos anos 1990 e o começo de 2000, este país pareceu acreditar que talvez lhe coubesse fazer algo pela sua literatura. Quebrando o protocolo do pudor, o então instituto do livro ousou instaurar bolsas de criação literária. Portugal foi país-tema de grandes feiras internacionais em anos sucessivos: Frankfurt 97, Rio de Janeiro 99, Paris 2000. Pelo meio houve o Nobel para Saramago, 98. As traduções portuguesas explodiram — e é com o dinheiro das traduções, mais que dos direitos em Portugal, que os escritores conseguem, enfim, pensar nessa coisa extraordinária: viver da escrita. Muito do que agora está a ser colhido foi plantado então. Vejam os nomes de quem recebeu essas bolsas.

5. Para muitos escritores, uma bolsa paralisa, constrange, cada um saberá de si. Mas a possibilidade tem de existir para quem quiser recorrer a ela. Devia ser dever do estado, governo central e autarquias. Mais, num país como Portugal, que pouco melhor tem para oferecer que os seus criadores, devia ser uma estratégia.

6. Sento-me com outra amiga em Lisboa e ela conta-me que recusou idas e vindas e textos por não serem pagos, mas que isso não constituiu problema para quem a convidava, porque havia sempre gente para aceitar — como agora há cronistas a escrever de graça.
Eu vejo duas boas razões para escrever de graça. A primeira é quando alguém próximo nos pede. A segunda é quando reverte a favor de quem precisa. No primeiro caso trata-se de amizade, no segundo de voluntariado. O resto chama-se abuso.
O abuso não só perpetua o estado das coisas como o acentua. Cada vez que alguém acha natural não pagar a quem escreve está a dizer que a literatura é acessória, e a contribuir para que ela desapareça.

7. Em 2012, o Brasil está a viver plenamente o que Portugal julgou viver há 15 anos. Em 2013 será protagonista na feira de Frankfurt, a maior do mundo, prepara inúmeros programas paralelos e não é por acaso: nos últimos anos, os incentivos a quem escreve multiplicaram-se. Além do apoio às traduções, as embaixadas do Brasil pelo mundo convidam escritores brasileiros para encontros locais, de Washington a Istambul. Dentro do Brasil, governo federal, estados e municípios promovem bolsas, festivais, residências, edições ou turnés. As instituições habituaram-se a pagar pelo que pedem mesmo que se trate da divulgação do último livro do autor. Pagam o tempo que ele podia usar para escrever.
O resultado disto é que mais do que uma geração de escritores brasileiros emergiu, os mais velhos largando empregos, os mais novos não tendo que os arranjar. As compras governamentais às editoras, para alunos e professores, reforçam substancialmente muitos direitos de autor. E tudo o mais tende a ser pago: escrever uma badana, um prefácio, ir a um colóquio, a um festival.
Muita gente talentosa fica fora deste circuito e falta fazer quase tudo: ler no Brasil ainda é um luxo de poucos; fora best-sellers, as tiragens são baixas; as boas livrarias estão concentradas no eixo São Paulo-Rio. Mas, num momento em que tudo parece crescer no Brasil, há muitos estímulos públicos e privados para que a literatura também cresça.
A Petrobrás tem bolsas de criação literária anuais. Não sei de nada remotamente semelhante em Portugal. A PT criou um prémio literário enorme para autores lusófonos com obra publicada no Brasil. E quem não chega a publicar no Brasil? Bolsas e residências literárias regulares, conhecem?

8. A crise podia ser o começo e não a precipitação do fim. De um governo que acha natural despachar cidadãos para o estrangeiro não vejo o que se possa esperar. Mas talvez pudéssemos começar por perder o pudor, porque vergonha é que quem convida não fale em dinheiro, indigno é partir do princípio de que os escritores dão o seu trabalho, a única coisa pela qual podem ser pagos.

Alexandra Lucas Coelho in Pùblico, 18-3-2012

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