quarta-feira, abril 11, 2012

noite-manhã-demasiado tarde

vive naquele palácio de esquina. é tão ancião como o velho que observa, da janela entreaberta, os pombos todo o santo dia. as janelas convidam o sol a entrar e ele avança, lentamente, pelos longos e profundos corredores. até lá ao fundo. até à mancha de humidade escondida. e depois há o calor no seu corpo cansado. e há a garganta que se contorce em violentos espasmos, feito moribundo à espera do fim. há noites suadas que não acabam no despertador electrónico, no rádio noticioso ou no telefonema distante. a noite não acaba e a temperatura não desce. sente o inferno a queimar as suas entranhas, sente as pinceladas de bosch em cada passo que dá à procura de água, e sente...-se só. a manhã não desce, o calor não acaba, está tudo trocado e não sabe o que procurar. se o sossego de um adeus, se a frescura de um banho gelado. pega na arma velha, do seu avó republicano, e decide atirar. ou ele ou o pássaro primaveril. só quer tudo menos aquele inferno quente a lembrar a praia do estrangeiro. dispara e apenas ecoam as asas dos pombos. é demasiado tarde para ser noite.

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