quinta-feira, abril 19, 2012

a porta velha range sempre

é apenas mais um pequeno escritório perdido algures na cidade grande.
faz-se de folhas, balancetes, contas e folhetos. vive das cadeiras que se arrastam e do trim-trim toda a manhã. depois vem a tarde e algum sossego. sai cedo a senhora-mãe-recente e entra, subitamente, o estafeta-apressado-entre-dois-serviços-e-uma-cerveja. dois homens do antigamente trocam algumas palavras. breves. e coincidem sempre na posição. uns dizem que é da idade, outros da experiência. mas acredito piamente que seja apenas resultado da ausência de paciência. essa é a mais velha equação humana. a campainha não toca depois das quatro e, contudo, eu olho para a porta mil vezes. ela não toca. estranho hábito este, o de usar a visão para ouvir. 
depois mexo umas folhas, apago uns ficheiros no computador, arrumo uns dossiers, fotocopio umas notas soltas. encho o tempo com nenhures e espero. saem todos. fico só.
aumento o som na telefonia e oiço um tango antigo. sinto-me no passado, um pouco mais. gosto. sinto passos e umas chaves ansiosas no bolso. talvez alguém que se tenha esquecido de algo ou então talvez sejas tu. a chave roda e a porta velha range sempre.

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