quarta-feira, maio 02, 2012

Racionalidade e irracionalidade

© Pedro Vieira

A ver se nos entendemos: o que está em causa não é a racionalidade do comportamento das pessoas que foram às promoções do Pingo Doce. Foram, individualmente consideradas, inatacavelmente racionais. Se posso comprar barato quando tenho salário baixo, irracional é não aproveitar a oportunidade.
A questão é a irracionalidade coletiva de uma sociedade que tem salários baixos e por isso precisa de preços baixos. E que tem de esperar por promoções de um hipermercado, nas condições e no dia em que este entende fazê-las, para conseguir comprar o essencial. Esta irracionalidade promove a perda de exigência social (um homem como Soares dos Santos é visto como uma “amigo do povo” quando tenta esmagar os seus concorrentes), a perda de memória política (o 1º de Maio passa a ser “o dia do consumidor”), o caos nos comportamentos (luta-se para consumir o essencial) e a concentração económica nas mãos de quem se pode dar ao luxo de esmifrar os fornecedores.
Numa sociedade destruturada pela crise e pela distribuição pornograficamente desigual, o comportamento racional de cada individuo leva a uma irracionalidade coletiva que o empobrece ainda mais. Quem não compreende isto e faz exigências morais a cada cidadão, através de gestos individuais que seriam, para ele, economicamente incomportáveis, comete o mesmo erro dos que defendem que as promoções do Pingo Doce são excelentes para o “povo” ou que esperam que a caridade resolva a pobreza. Ignora tudo o que o episódio de ontem nos disse sobre os problemas sistémicos deste país e para onde eles nos estão a levar.
A pobreza não é uma escolha, é uma condição social. O combate contra a desigualdade não é um delírio de uma elite bem-pensante. É uma urgência política. O que há do inaceitável no que ontem aconteceu é como um Estado que desistiu de representar os interesses da maioria permite que uma empresa se aproveite da crise para violar todas as regras comerciais e sociais. As pessoas que lá foram, essas, apenas fizeram o que fazem todos os humanos a quem não sobram recursos: tentaram o que era melhor para elas.

Daniel Oliveira in Arrastão

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