sexta-feira, junho 29, 2012

é hora de jogar à bola na rua

«O ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, foi na tarde desta sexta-feira insultado e cercado por populares na Covilhã.» in Público

Já ontem tinha sido assim ou parecido. Será que o «povo» está farto de não ter nome próprio nem apelido nas notícias do dia-a-dia-do-mês-que-não-acaba? Será que os desempregados estão fartos das filas no centro de emprego (o nome estará mesmo correcto?) e querem soluções concretas para os problemas reais? Será que as pessoas chegaram a um ponto limite, onde não há espaço para Baías nem Limas (link)? Será que tanto nos encheram a televisão de futebol que desta vez não haverá  prolongamento político e o jogo vai logo a penalties? Será que «amanhã» ganha quem mais merece?

quinta-feira, junho 28, 2012

Finalmente?

O Supremo Tribunal norte-americano deu luz verde à reforma da saúde promovida por Barack Obama. A decisão, anunciada nesta quinta-feira, foi tomada por cinco votos a favor e quatro contra. E representa uma importante vitória política para Obama, a quatro meses das Presidenciais de Novembro, porque esta legislação era uma das promessas que permitiram a sua eleição em 2008.

in Público

Será esta a maior vitória de Obama? Espero sinceramente que sim.

Quando Banksy passa para uma dimensão real

Nick Stern, foto­grafo ame­ri­cano, admi­ra­dor con­fesso de Banksy resol­veu recriar com mode­los algu­mas das ima­gens mais emble­má­ti­cas da obra de Banksy. A série dá pelo nome “You are nont Banksy e o  resul­tado é este:


(continuar)

quarta-feira, junho 27, 2012

Acções por demais necessárias

Como não percebo nada de estratégia, táctica, tácticas ou contra-tácticas, a minha solução para o Cristiano Ronaldo ganhar à Espanha passaria necessariamente por tentar anormalizar um jogo cujo desfecho natural, por conclusão decorrente ao somatório de valores individuais em campo, só pode descair para o lado da potência imperialista de Madrid. Apostaria no factor físico: Xavi parece-me todo roto, Iniesta está numa fase da carreira tão madura que já nem precisa de pensar para jogar bem (e isto é mau), Piqué continua enigmático (abandonou os passes verticais de 30 metros que, por serem feitos por um central, tanto desequilibram os processos defensivos dos adversários - e o jogo de Xavi beneficiou muito dos buracos que assim se abriam para ele depois meter o seu jogo em acção), Fabregas e Fernando Torres estão a amortizar a dívida física gasta início das suas carreiras; talvez Busquets e Silva sejam os únicos jogadores competentes dentro de forma (já que Jordi Alba, estando embora numa forma do caralho, não vale ele próprio um caralho, portanto nada a recear dali), mas estas são pessoas que não se tocam em campo, e portanto em nenhum momento as suas forças poderão entrar em fase e reforçar-se ao ponto de formar uma ameaça séria ao Cristiano Ronaldo. A minha ideia é aproveitar os míticos dois dias de descanso a mais - dois dias que nos repousam mas não diminuem a intensidade psico-motora (que mesmo que sem capacidade para produzir efeitos práticos, já se falou tanto neles que passaram a existir fora da caverna) - e a fadiga existencial das estrelas espanholas, para mandar o Cristiano Ronaldo para cima deles desde o primeiro momento. Proponho até uma meta: não começar a descansar antes de termos 3 ou 4 gajos com amarelos e afiambrado seriamente em 10 espanhóis. Um projecto destes tem que necessariamente ser levado a cabo nos primeiros 25 minutos, para não dar tempo ao árbitro de perceber o que é que se está a passar; também é importante que não fiquemos com esperanças, pois o Cristiano Ronaldo pode correr o risco de ceder à ilusão de que está tudo a correr bem (não está, contra a Espanha as coisas nunca estão à beira de correr bem ao Cristiano Ronaldo). Depois, ao fim desse tempo de tempestade tropical, a acalmia: recuar para a defesa, e esperar por eles da maneira como o Cristiano Ronaldo sabe e gosta e como só o Cristiano Roanldo gosta e sabe tirar proveito. Nas minhas contas, uma maquineta destas provocará um golo do Cristiano Ronaldo aos 70 minutos, contra nenhum sofrido. Chegamos pois ao locus em que, no meu entender, o Cristiano Ronaldo será posto perante a charada de mais difícil resolução deste campeonato: como evitar que, nestes últimos 20 minutos, os espanhois rematem à baliza bolas que não vão contra os postes ou o Rui Patrício, pois, como se tem vindo a comprovar, o Rui Patrício não é guarda-redes para fazer defesas de bolas que tenham a intenção de entrar na baliza seguindo caminhos que, no momento do remate, não vão coincidam com a sua posição (ao menos não é como o Ricardo, que assim que detetava a aproximação de um cruzamento ia à Fnac tratar de um problema com o cartão; no fundo, o Ricardo nos cruzamentos pré-figurou Paulo Portas no Governo). Como serão só 20 minutos, trabalhar a sorte é um caminho; mas também podemos retomar o plano dos primeiros 20 minutos, e voltar a afiambrar a sério. É aqui que eu acho ter uma maquiavilice para propôr: lembram-se que temos 4 ou 5 gajos amarelados, certo?; pois bem, escolhamos um deles e distribuemos-lhe a tarefa de voltar a re-afiambrar nos espanhóis; e até quando?; até à expulsão. Sim, proponho que o Cristiano Ronaldo jogue só com dez jogadores nos últimos 20 minutos de jogo. E Porquê? Porque, como se sabe, a Espanha não passa de um Barcelona desinfectado do Messi, e, se bem se lembram, se há coisa que o Barcelona se convenceu é que não sabe jogar contra dez. A falta da expulsão necessita de ser uma coisa bem feita: tem que provocar um tramatismo, e não uma lesão grave; tem que acontecer quando os espanhóis ainda têm uma substituição para fazer, ou então não provocar a saída do jogador alvo da falta (lembrem-se que é essencial estarmos com menos um). Esta é uma tarefa, como é óbvio, para o Cristiano Ronaldo João Pereira. O João Pereira é um dos melhores fazedores de faltas em actividade: é, primeiro que tudo, um impulsivo calculista: é capaz de andar seis meses a planear pisar a maça de adão de uma pessoa (fotografias dos filhos da vítima a sair da escola incluidas), mas depois quando o faz não restam dúvidas a ninguém que impulso eléctrico da acção nunca passou pelo cérebro; odeia profundamente o tronco e os membros das pessoas, mas nunca o ser humano; afiambra de modo doloroso, por vezes excruciantemente, mas nunca aleijou, nem nunca aleijará ninguém; é, em resumo, o maior açoiteiro desde o André (não confundir com azeiteiros, como Paulinho Santos ou Dani Alves), um génio da reprimenda física futebolística. No fundo, João Pereira é um reconhecido educador, e quando o Iniesta acordar da joelhada que o João Pereira lhe deu nas costas será possuído pela conclusão lógica: "a culpa foi minha". Agora, com menos um e o melhor jogador espanhol a coxear das costas, só temos que resolver o problema de quem vai fazer de defesa-direto na final.

 Maradona in A Causa foi Modificada

terça-feira, junho 26, 2012

Mini só no preço. Ou não...

A Câmara de Lisboa quer pagar quase 19.000 euros ao ex-presidente do Centro Cultural de Belém (CCB), António Mega Ferreira, por um estudo sobre os museus da cidade. in Público

Não era preciso ser uma compra com cartão de desconto mas podia ser menos mega, ou não? E assim evitavam-se os trocadilhos fáceis.

Silêncio que se vai fazer silêncio


O Festival Silêncio está prestes a invadir vários espaços da cidade

O Festival Silêncio pretende devolver o poder à palavra cruzando-a com as diferentes artes e sublinhando o papel vital desta na criação artística.
De 26 de Junho a 1 de Julho, a palavra inscreve-se na vida da cidade pela mão de escritores, artistas plásticos, encenadores, músicos, actores, cineastas que exploram essa íntima relação com a linguagem.
Seja qual for o seu modus operandi, é através da palavra que grandes nomes da cena literária e artística irão partilhar com o público a sua própria visão do mundo.
Dos concertos aos espectáculos multimédia, das conversas às leituras encenadas, do cinema à poesia, cruzam-se disciplinas, práticas e públicos.
Numa época em que se valorizam as imagens em detrimento das palavras, o Festival Silêncio pretende dar voz aos criadores num palco transversal aberto à reflexão e ao debate. (link)

Guia


António Zambujo

a ideia até era boa...

«O deputado socialista Ricardo Rodrigues foi condenado a 110 dias de multa de 45 euros por dia, o que perfaz 4950 euros. Rodrigues foi considerado culpado no caso do roubo dos gravadores aos jornalistas da revista Sábado.» in Público

Ricardo Rodrigues só queria o melhor para o jornalismo português. É tão frequente a revista Sábado produzir conteúdos estéreis e básicos que o deputado achou melhor cortar o mal pela raiz, ou silenciar o gravador pela raiz. Correu mal e agora são 110 dias sem ir ao Gambrinus. Pode ser que o M. Relvas o convide a almoçar e lhe ensine uns truques. Pode ser...

ao fio e ao cabo é tudo bola

quarta-feira, junho 20, 2012

Chant Of The Soil


From the album Nude Ants (Live At The Village Vanguard) 1980.

Tenor Saxophone, Soprano Saxophone -- Jan Garbarek/ Bass -- Palle Danielsson/ Drums, Percussion -- Jon Christensen/ Piano, Timbales, Percussion -- Keith Jarrett
Written By - Keith Jarrett/ Producer - Manfred Eicher/

é um trabalho desumano


© Slinkachu

«A recolha do lixo em Lisboa só estará normalizada na quinta-feira, disse hoje, terça-feira, o vereador do Espaço Público, depois de uma semana de greve dos motoristas e cantoneiros ter deixado as ruas da capital com muito lixo acumulado.»

in Público

cultura & portugal

«Considérer la culture comme un domaine parmi d’autre, ou comme moyen d’agrémenter la vie pour une certaine catégorie de personnes, c’est se tromper de siècle.»

Amin Maalouf in Le Dérèglement du monde

no futebol dizem que é uma entrada fora de tempo

«O Instituto do Desporto da Região Autónoma da Madeira (IDRAM) concedeu, já depois de ser extinto, 567 mil euros a clubes para apoio a deslocações de suas equipas que participam em competições fora da ilha.»

(continuar a ler)

Ilícitas são as drogas...

«Ao que o PÚBLICO apurou, o esboço proposto pelas duas técnicas sobre o caso considera que as ameaças admitidas pelo ministro de se queixar à ERC e aos tribunais se a jornalista Maria José Oliveira continuasse a fazer perguntas e a investigar o caso das “secretas”, no qual o nome de Miguel Relvas está envolvido, não podem ser consideradas pressões ilícitas, embora sejam moralmente condenáveis.»
(continuar a ler)

Se é apenas moralmente condenável, quiçá reprovável,  e ninguém se chateia realmente: carrega sr. ministro!

será que II

na ressaca da entrevista de chullage no bairro alto (rtp2) pergunto-me: será que faz sentido acreditar na actual democracia política? será que acções práticas, como voluntariado, não serão a melhor forma de lutar? será que a música e as palavras são armas demasiado poderosas para não ver que posso lutar por um outro mundo? será que... isto é tudo muito bonito mas não muda nada?

Será que



Será que ou não será que,o mundo verá que,
um brother terá que,não continuar sujeito a este ataque,
hipocrita,violento,pior do que a América no Iraque,
Onde média só põe crimes de brothas em destaque,

O governo faz jogo racista e o povo apoia tipo claque,
Skinheads em toda claque, será que,
este pais só aceita um emigrante se for um craque?
Que leve as quinas ao pódio e faça a tuga acreditar que,

Existe união ate que a televisão venha mostrar que,
Houve um arrastão e agora a população dirá que,
Não é divisão, emigração para rua já que,
Os nossos filhinhos não podem brincar seguros no parque,

Será que, não haverá uma merda que acontecera que,
Um gajo não seja o bote expiatório,
ou que com as culpas um gajo não arque,
Ou será que só a guerra fará que,

Um negro possa ser respeitado com a sua aparência,
raízes, cultura e sotaque,
Será que,a sociedade só conseguirá que,
um negro continue a ser explorado por desumanos

Ao estilo exacto, por preconceitos,
ser o ultimo atendido mas sempre o primeiro suspeito,
Na entrevista para o trabalho encontrem sempre defeitos,
Que nunca sejamos defendidos pelos fdp's eleitos!

Será que,irmaos nao se apercebem que há que,
Deixar que falar e sair para a rua em protesto
Porque é lá que, vamos acabar com o racismo, capitalismo
E todas as outras formas de saque.

Chullage in Rapressão 1

terça-feira, junho 19, 2012

dos livros, das livrarias e dos leitores

Estudo sobre setor da edição e livreiro em Portugal disponível on-line:

«Estudo do Setor da Edição e Livrarias 
e Dimensão do Mercado da Cópia Ilegal»
(link

segunda-feira, junho 18, 2012

os livros surgem do escuro...


...e papam-me os dias.

30

é impressão minha ou os trinta têm ficado marcados pela falta de palavras?

Festivais em tempos de crise

Que em tempos de crise, um evento de preço considerável como o Rock in Rio tenha imensa adesão de público e um acontecimento gratuito como Serralves em Festa tenha decréscimo significativo eis o não pode deixar de ser tópico de reflexão
Nos dois últimos fins-de-semana ocorreram sucessivamente dois mega festivais, o Rock in Rio Lisboa primeiro, o Optimus Primavera Sound no Porto depois.

O sucesso dos eventos foi impressionante: 346 mil espectadores para o Rock in Rio, com destaque para os 81 mil no último dia, com Bruce Springsteen, cerca de 70 mil para o Primavera Sound, sendo que neste caso, mais de 50 por cento dos espectadores terão vindo do estrangeiro, oriundos de mais de 40 países, entre os quais Espanha, Suécia, França, Itália, Alemanha e até Argentina, Brasil e Estados Unidos!

Um tal sucesso é por si só um acontecimento saliente, para mais na aguda de crise económica e social em que Portugal se encontra, sobretudo com os alarmantes números do desemprego, em especial dos jovens.

A 28-08-2011, no final da época dos festivais de Verão, vinha no PÚBLICO um artigo de Lucinda Canelas e Mário Lopes de sintomático título, "A crise chegou a todos menos aos festivais": "Em 2011, ano sem o muito mediático Rock In Rio, os festivais encheram-se de público, prosseguindo a tendência de curva ascendente. Dizem-no os números e dizem-nos os organizadores. A crise, garantem, não prejudicou e a explicação estará no preço dos bilhetes, mais competitivos do que os praticados em sala (o que atrai o público nacional) e inferiores em relação aos praticados nos festivais em Inglaterra, Estados Unidos ou Espanha, o que se reflecte na crescente afluência de público estrangeiro".

Mas, apesar de tudo, 2012 a crise agudizou-se, com uma taxa de desemprego de 15,2 por cento que chega a uns assustadores 36,2 por cento no que concerne aos jovens entre os 15 e os 24 anos, e com uma parcela significativa da população privada do 13º mês, bem como do 14º. Mais: por ironia, no último dia do Rock in Rio, 3 de Junho, o de Springsteen e dos 81 mil espectadores, o destaque do PÚBLICO era um trabalho alarmante sobre o trabalho precário e o desemprego entre os jovens. 
Acrescente-se que a entrada para um dia do Rock in Rio custava 61€ (sem falar já dos 240€ do bilhete VIP), e ainda outro facto: esse segundo fim-de-semana do Festival coincidiu com outro evento de relevo, no Porto, Serralves em Festa. Se o evento, que começou com 42.286 entradas em 2004, foi subindo a níveis impressionantes, até aos 102.507 visitantes em 2010, verifica-se agora um acentuado decréscimo, com 98.122 no ano passado e 84.835 neste. A quebra em 2011 foi atribuída à chuva, mas agora, e tanto quanto me pude aperceber, apenas houve uma tarde também de chuva, e no entanto o decréscimo foi bastante significativo. Que nestes tempos de dura crise um evento de preço considerável (mesmo que em termos relativos, e no binómio entre preço e quantidade de concertos, seja comparativamente baixo) como o Rock in Rio Lisboa tenha uma imensa adesão de público, enquanto um acontecimento de relevo cultural, muito diversificado e gratuito, como Serralves em Festa tenho um decréscimo significativo, eis o que não pode deixar de ser tópico de reflexão.

Perante estes dados, incorre-se facilmente em leituras simplistas, como a do panem et circencis, do pão e do circo, dos espectáculos para distrair as "massas". Por outro lado, tem sido defendido que é em períodos de crise que mais necessários são o "refúgio" de acontecimentos culturais, e que é significativo que na situação presente de crise geral na Europa a cultura seja o raro caso de um sector economicamente florescente, representando já 4,5 por cento do PIB, com 8,5 milhões de empregos, e área que em breve, com o programa "Europa Criativa", terá um reforço de 37 por cento do orçamento comunitário, em 2014-20 - e estes já são dados a atender.

Mas não se pode também escamotear que persistem fortes preconceitos ideológicos em relação aos consumos culturais de massas. À direita, há a tendência para os encarar como "degenerescência" do que seria a "cultura autêntica" e mesmo como "depravação" dos costumes, tradição prosseguida por ensaístas conservadores como Allan Bloom em A Cultura Inculta ou mesmo Harold Bloom em O Cânone Ocidental. À esquerda é clássica a "denúncia" da "alienação", da "reificação, fetichização e mercantilização" dos objectos culturais, das "indústrias culturais" como Adorno e Horkheimer analisaram em A Dialética do Iluminismo, de resto, e sobretudo no que diz respeito ao primeiro, numa perspectiva altiva, elitistista e mesmo conservadora e classista, do "classismo" de intelectuais perante as "culturas de massas".

Porque a análise não será profícua nessa perspectiva "altiva", entendo que devo clarificar a minha própria posição: se a esmagadora maioria da música pop/rock me parece indigente, quando Bruce Springsteen foi o primeiro artista a ser anunciado para o Rock in Rio cheguei a equacionar estrear-me nessas andanças (em 30 anos o único mega-concerto de rock a que assisti foi o de Springsteen no Estádio de Alvalade em 1993), e tenho grande admiração por uma cantora e compositora que chegou a estar anunciada para o Primavera Sound, Bjork. Assim, não creio ter um preconceito de princípio que inevitavelmente enquinaria esta reflexão.

Ora, há desde logo um fenómeno que é da maior importância considerar. Se desde os anos 50, com o aparecimento das "culturas da juventude", o rock foi uma das suas maiores manifestações, uma das suas características fulcrais, a de ser do domínio do efémero, vem a ser consideravelmente matizada. Hoje, e esse é um facto cultural da maior relevância, o pop/rock tem o seu "panteão clássico", tal como na música erudita há um cânone clássico. Atravessando décadas, diversos músicos tornaram-se lendas vivas. Mais: desde há uns anos há uma persistente tendência para a re-união, o reencontro de antigos grupos, dos Stooges de Iggy Pop aos Police, e agora até mesmo aos Beach Boys, a confirmar-se a digressão do grupo, incluindo o seu elemento mais importante, Brian Wilson. Casos há em que isso pode ser patético, como os The Who, no Pavilhão Atlântico há cinco anos, cantando o hino My Generation ("I hope I die/ before I get older"), com um Pete Townshend então com 62 anos!

Para citar os casos mais salientes e que actuaram em Portugal em anos recentes, Leonard Cohen (que voltará em breve), Bob Dylan e Neil Young, nasceram respectivamente em 1937, 1941 e 1945. O que era uma "cultura de juventude" transformou-se num fenómeno intergeracional, de resto acentuado por uma "indústria da nostalgia" que tem de ser tida em consideração, e esse é um factor relevante à compreensão dos 81 mil espectadores para Springsteen - mesmo pagando 61€ por pessoa, enquanto no Porto a gratuitidade não impedia a quebra do afluxo à Festa de Serralves.

Mas o Rock in Rio foi também um case study em termos mediáticos, com a inacreditável promoção da SIC Notícias e da SIC Radical, e mesmo da Rádio Renascença, Emissora Católica Portuguesa como há que lembrar. Ouvindo por acaso a segunda, dei-me conta de discursos como o de esse factor intergeracional representar uma "valorização da família"(!) ou de o festival ter sido "uma resposta positiva à crise que o país atravessa", de resto motivo retomado também pelos organizadores, com o presidente Roberto Medina a dar os "parabéns que esta multidão é o sinal de que o povo português dá a volta por cima", e isso são já discursos promocionais e ideológicos inaceitáveis.

Augusto M. Seabra in Ípsilon

segunda-feira, junho 04, 2012