terça-feira, julho 24, 2012

«Feliz como pinto no lixo»


De quem é este lixo? Dos catadores? De todos nós? É todo o lixo que fazemos de todos? Somos todos lixo? Não há respostas certas, até porque 100 % não é 99%. Lixo Extraordinário é um documentário-soco-no-estòmago. E isso sim é certo. 100 % certo.

É sempre assim com a cinematografia ficcional ou outro trabalhos documentais do Brasil. Um país que cresce num ritmo desenfreado mostra sempre o seu outro lado. E isso é foda. O Brasil é pobre. Cresce muito mas para poucos. Até podem ser mais do que 1% a comer do bolo mas não parece. As favelas estão mais habitáveis, até a de Vik, mas não vão desaparecer. Não vão mesmo. 99 % de certeza.

É uma história dura. Rude. Mas não são os catadores que são frios e distantes. Nem feios, porcos e maus. Nada disso. É antes a nossa história. Porque eles são homens e mulheres que ousam ser felizes. Como pintos no lixo. São pessoas, muitas delas de classe média, a que algo correu mal. É assim tão simples. Basta 1% de azar.

Pode alguém de fora chegar e mudar a vida deles todos? É isso justo? Dar esperanças a quem já não as tem e ver nisso certezas que não existem? Há justiça num mundo de lixo?

Vejo a pobreza violenta e penso no mundo de merda que edificámos. Mandámos para o lixo tudo o que tinhamos de melhor: liberdade, democracia, evolução, e agora não há reciclagem possivel. Desistamos! Não são os políticos que precisam de reforma ou reciclagem. É todo um sistema que tornou os pobres mais pobres e os ricos mais estou-me-a-cagar-para-isso-já-que-o-dinheiro-não-pára-de-aumentar-na-minha-conta. Criam-se condomínios privados - há exemplo melhor do que o Brasil? - e esquecemos de olhar pela janela e reparar na pobreza que atinge hoje os valores de há 100 anos.

Vivemos numa lixeira. Estragamos comida, compramos coisas novas sem reparar as antigas, adquirimos o que não precisamos. Comprar. Comprar. Comprar. O impulso levado à loucura. Para quê? Vik não fala disto. Vik nem quer falar disto. Mas depois, depois ainda há quem se deixe levar pelas emoções e se aperceba que isto está tudo mal. Que há vidas de merda mesmo à porta das nossas cidades. Que até já passaram a portagem com via verde. E que urge fazer algo.

Lixo Extraordinário deixa-me com uma avassaladora questão: é hora de reciclar o mundo que temos ou ele é mesmo lixo e temos de fazer um novo?

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