sábado, setembro 08, 2012

Ai, Portugal, Portugal

«Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar»




7 de Setembro de 2012. Gostaria de pensar que este dia vai mudar a história de Portugal, mais especificamente, que pela primeira vez em muito tempo teremos um primado do social sobre a economia. Gostaria.
Mas tal como no passado, no famoso 12 de Março, nada mudará. Escrevi-o na altura (link) e, infelizmente, parece que acertei. Aquele momento não trouxe maior compreensão sobre o que se passava politica e economicamente em Portugal. Pelo contrário, milhões de pessoas optaram por personalizar a crise. Tal como aconteceu no passado com Pedro Santana Lopes. Tal como acontece quando ingenuamente se considera que o nazismo é Hitler e o fascismo Mussolini. Uma pessoa não faz a primavera.
E este é exactamente um dos aspectos que mais me indigna no actual cenário português, ver Passos Coelho ou Relvas como os culpados. Os únicos responsáveis. 
A crise vem de trás, tem razões que até podem ser explicadas por aspectos culturais, por deficiências recorrentes nos que são os investidores privados, pelo contexto internacional, pelos péssimos agentes políticos nacionais, pela incapacidade gritante de cada um de nós apresentar uma solução. Falamos demasiado nos cafés, nos blogs, no facebook, nos fóruns da TSF ou caixa de comentários do Record. E o que fazemos? Nada. Já que «é na mesa do café que toda a acção fica».
E a todo este cenário de marasmo, junta-se uma agenda. Sim, aquela palavra que se diz à estrangeira, para dar mais status e parecer que é coisa séria. E é. Muito séria. Não discuto a conceptualização de esquerda ou direita. Nem as soluções de Keynes ou Hayek. Esta agenda é muito mais prática do que isso. Não é uma agenda, é uma lista telefónica de amigalhaços. Uns porreirões é o que são. Os acordos deixaram de ser de cavalheiros mas de canalhas. Este é o primeiro grande problema: tudo é um potencial bom negócio para o amigo. Basta recuperar uma empresa estatal e depois vendê-la. Não tenham medo. Mesmo que corra mal haverá sempre uma rede de segurança. Assim fica fácil...
É sabido que se considera que o tempo em que vivemos é sempre o mais singular e único da História. É sempre assim. Tem sido sempre assim, ao longo da História. Eu gostaria de poder dizer que vivemos os piores tempos da História. Todavia, acho que não. Acredito sinceramente que até no século XX, descontando os óbvios períodos de guerra, houve crises e momentos de pobreza e incerteza maior. Se não é esse o problema, então porque sentimos esse aperto? A resposta é tão simples... Tivemos um projecto europeu com pernas para andar, em termos de avanços culturais e aceitação/conhecimento do próximo e do outro foram feitos avanços enormes; há um discurso universal sobre direitos humanos, sobre ecologia, sobre niveis de democratização. Tudo mudou. Tudo avançou. E agora tudo parece estar em causa. Por causa da economia. «É a economia estúpido», já se lia na tshirt do jovem revolucionário que varre Avante, Alive ou Festival de Sines, e, contudo, não é apenas a economia. É toda a forma como se pensou e definiu o sentimento de progresso.
As letras juntaram-se, as palavras acotovelaram-se, as frases encheram-me a cabeça, quase que me esqueci da razão porque precisei de escrever e com tudo isto o Passos Coelho parece ainda mais pequeno. Reles. Um zé-ninguém. Coitado, a culpa nem sequer é dele, só que a História avançará e preocupa-me mais o futuro. O meu e o nosso. Lembro-me da Grécia (link) e relembro a sensação de estarmos a passar uma fase com alguns dos mais incapazes políticos da história europeia, porém isso não é desculpa suficiente. Hoje somos muitos e, sobretudo, temos ferramentas que nunca tivemos. Não são precisas armas, nem mesmo pedras, basta fazer política. Bastará?

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