quarta-feira, setembro 26, 2012

às cinco da tarde, como no antigamente

são quase cinco. ligo o rádio velho do avô. a tarde está quente e o capilé está no frigorifico desde o almoço. deve estar bem fresco. devia ir buscá-lo mas tenho medo de perder o 11 inicial. o meu 11. o 11 do vizinho da frente. o 11 de quase todo o bairro. o meu avô sempre me disse que era um bairro de um clube só. eu sabia que não era bem assim, mas sabia também que a nossa segunda sede fora ali e era natural que tantos gritassem em  uníssono.
são quase cinco. procuro afinar melhor a transmissão. há sempre alguns ruídos inconvenientes e não posso perder nada. por uma questão de respeito ao clube foi sempre assim, cá em casa. penso na minha primeira recordação: o avô a ajustar o rádio e o 11 a sair da telefonia bem devagar. era pequeno. eu era tão pequeno que vejo apenas uma imagem bem distante e enfabulada. lembro-me da voz rouca do senhor alves da rádio dizendo os nomes e o meu avô a lançar os seus cognomes. é tão forte e intensa essa imagem que até creio que os jogadores estavam sentados ao meu lado. eu, o meu avô, o 11, o resto do plantel e todo um mundo de adeptos.
são quase cinco. tenho alguma sede. devia ter ido buscar capilé. agora já não dá. e o 11? surpresas? ou nem por isso? e o meu avô? o avô deveria estar aqui ao meu lado. preciso dele, mais do que um capilé fresco. preciso do meu avô. preciso mesmo. talvez ele me fizesse acreditar que este clube que jogará às cinco ainda é o nosso. talvez ele me mostre que o nosso clube tem uma história e não é apenas mais uma empresa-vendida-ao-marketing-e-aos-interesses-de-um-futuro-que-é-de-outros-e-não-dos-adeptos.
são quase cinco. hoje a bola vai rodar debaixo do sol. é dia. ainda é dia. é uma tarde quente, como antigamente. gosto disso. do sol a queimar o mais belo estádio do mundo e todo um mundo a ouvir o relato na telefonia dos seus avós. gosto de futebol, amo a bola e o meu benfica. assim, como no antigamente. tudo simples e puro.

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