quinta-feira, setembro 13, 2012

O dia do fim?

O Grito do Ipiranga – Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888).
 
Um governo só acaba quando uma alternativa nasce. Não uma alternativa teórica, que acontece depois de um milagre, mas uma maneira muito concreta de ir do ponto A para o B. E isso a oposição portuguesa não tem, e não quis ter até hoje. 

Não foi a primeira vez que um dia 7 de setembro foi uma grande derrota para um governo português. Em 1822, nas margens plácidas do Ipiranga, o rei de Portugal perdeu o Brasil. Cento e noventa anos depois, a oposição portuguesa quer pensar que este foi o dia em que Pedro Passos Coelho, ao anunciar o mais escandaloso roubo ao cidadão comum, perdeu o poder.
Mais devagar. Claro que há algumas semelhanças: aquele texto no facebook com que Pedro Passos Coelho tentou esconder o cargo de primeiro-ministro atrás do seu coração de pai foi um bocadinho como a carta de perdão que, segundo reza a história, foi enviada de Lisboa para os conjurados brasileiros e o seu líder Tiradentes. Só piorou as coisas. Em vez de deixar Tiradentes viver, a pena foi meramente comutada de “morte cruel” para “enforcamento”. Morreu um homem, nasceu um mito, e os portugueses estavam lixados. Ainda estão.
O problema aqui é que o fim de um governo não é uma coisa que caia do céu. Um governo só acaba quando uma alternativa nasce. Não uma alternativa teórica, que acontece depois de um milagre, mas uma maneira muito concreta de ir do ponto A para o B. E isso a oposição portuguesa não tem, e não quis ter até hoje. Sim, já sei! Quando esta crónica for publicada, receberei mensagens e terei comentários que me dirão o contrário: o partido X, o partido Y e o partido Z têm tudo escrito em três papéis diferentes. Bastará que os partidos dos outros se submetam ao papel do meu partido (perdão: a expressão consagrada por quarenta anos de tricas é “que cheguem a uma plataforma mínima de entendimento”) para que venha a nós o reino dos céus. Até lá, podemos continuar a fazer tudo como sempre fizemos.
E porque não? Simplesmente porque estes não são tempos comuns. Nunca, em tempos de democracia, foram tão roubados, prejudicados e deixados em risco os portugueses comuns. E desde sempre, em tempos de democracia, se habituaram os portugueses a contar com a politicazinha feita da mesma maneira: morra o mundo, venha a troika e as pragas do inferno, que nem assim se entende a esquerda portuguesa. Como tal, aquilo que em geral se interpreta como a paciência do cidadão português é simplesmente o seu desânimo.
Uma alternativa pode ser um extenso papel, com centenas de medidas, pessoal e intransmissível. Um caminho para uma alternativa é uma coisa muito mais simples.
Em primeiro lugar, os partidos de oposição devem declarar-se preparados para substituir o governo. Ou seja: devem assumir em público que para eles é mais importante disponibilizarem-se agora para o país do que saber se vão exercer o poder sozinhos ou juntos, em posição dominante ou não.
Em segundo lugar, os partidos da oposição devem concordar em encontrar-se e falar, sem precondições. Dizer que o outro partido precisa de renegar a mãe para atingir “a plataforma mínima de entendimento” ainda se pode entender em caso de formação de governo. Mas para falar?
Em terceiro lugar, os partidos da oposição devem construir a alternativa em público e, acima de tudo, com o público. Devem aceitar integrar-se numa sociedade mobilizada de que eles já não são a vanguarda. Sábado há manifestações em várias cidades do país (eu estarei em Braga). Dentro em pouco haverá o Congresso Democrático das Alternativas; há outros novos movimentos e iniciativas. Venham, não tenham medo de concordar.
O mais importante numa alternativa não é saber que ela existe mas é inalcançável; é participar nela e torná-la real. Quando virem um caminho aberto, os portugueses recuperarão a esperança. Caso contrário, o passado sete de setembro terá sido apenas o dia da corda na garganta — e não o do grito do Ipiranga.


nota: A raiva está por todo o lado: aqui, aqui, aqui e em mil sítios mais. As manifestações de sábado são o princípio do fim? Creio que não. Já escrevi aqui que não. Mas algo está a mudar. E textos como o de Rui Tavares são tão fortes, violentos e brutais como aqueles que se enchem de asneiras. Porque está cheio de liberdade. Porque exige opções. Porque pergunta por soluções. O dia do fim (deles) pode estar a chegar mas só depende de nós lutar para ter o dia seguinte.

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