quinta-feira, setembro 27, 2012

O sr. Franco e o sr. Salazar



Confesso que odeio as expressões «isto era bem melhor no tempo de Salazar» ou «isto nem no tempo de Salazar». Embora exponham ideias opostas ambas incorrem num grave erro: negam ou esquecem a violência que flagelou tantos portugueses.

Os tempos que vivemos são negros. Muito. Todavia, e felizmente, não chegámos ainda à situação que foi vivida em Portugal e Espanha durante muitos anos. Demasiados.
Discute-se muito (e há muito) que não há democracia em Portugal e isso tem sido um perigoso erro. Portugal não tem falta de democracia, pode é ter uma democracia pouco saudável. Isso verifica-se na pouca independência da comunicação social, na dificuldade de fazer algumas investigações e julgar esses crimes, no descrédito em relação aos partidos e movimentos políticos, em mil outras coisas mais. Mas ainda há democracia, felizmente (e repito esta palavra). Felizmente, ainda podemos falar, e que melhor exemplo que as críticas que varrem as redes sociais. 

Porém, vivemos tempos negros. Em Espanha proibiram algumas pessoas de rumar a Madrid, em Portugal foi «afastado» um jovem que atirou uns insultos ao primeiro-ministro (imagino o que fariam aos 60 mil adeptos que atacam as mães dos Xistras e afins). Estes dois pequenos gestos não são pequenos. São gigantes. São perigosos. Muito.

A Europa atravessa um momento deveras delicado e, infelizmente, é liderada por uns experts do excel incompetentes e teóricos. Um terror. Pois esses labregos da matemática e da alta finança (isso existe mesmo?) perceberam há muito que isto está a dar buraco. Que as suas projecções e quadros teóricos estão errados e não são aplicáveis à actualidade. Porque os tempos são outros e a economia já não tem as mesmas variáveis do início do século XX. Eles (os maus, sim, isso existe mesmo) perceberam que fizeram tudo ao contrário mas não vão desistir. Não vão abandonar o barco sem responder com força física (e armada) à luta pelos direitos dos trabalhadores, dos desempregados, dos reformados e de todos os sonhadores (porque o futuro para muitos é apenas uma miragem inalcançável).
Eles não vão desistir sem luta e tenho a certeza de que o sr. Franco e o sr. Salazar teriam o maior orgulho nas pessoas que hoje comandam os seus países. E isso é negro.

1 comentário:

il _messaggero disse...

João,

A política e o modo de condução e gestão dos bens públicos ainda é norteada na existência de "um nós" versus "um eles", como se duma variável estratégica se tratasse, num simples jogo de xadrez, com um oponente bem definido.

Hoje em dia, existem muitas variáveis que os governantes não dominam de todo, pese no domínio da ilusão, no chamado jogo eleitoral - clamam a plenos pulmões que tudo farão e a tudo acorrerão, tentando convencer o eleitor de que dispõem um claro controle de todas as variáveis em jogo, quando realmente não as dispõem.

Essa "mentira", tantas vezes consentida pelo eleitorado, começa face à ausência de uma real resposta, a ser posta em causa. Daí em parte o progressivo afastamento dos cidadãos da dita "política". O descrédito é enorme.

E isso pode abrir portas a algo que pode não ser necessariamente bom.