quinta-feira, setembro 06, 2012

Os copos alheios

Serve mais um! E ele serve. Já nem lhe agradecem. A noite vai alta e os copos alheios enchem-se de frustrações alcoolizadas. Ele sorri. Conhece a mulher abandonada, o velho traído e as rugas da avó dos netos distantes. Um dia voltarão,garante-lhe. Ele sabe que não. Ninguém quer voltar àquela terra. Já não há terras. Ardeu tudo. Já não há animais. Morreram todos. Já não há sonhos. Tiraram-lhes a televisão. Nos copos alheios vêem-se os reflexos de pessoas. Ele gostaria de ver a essência de cada um nesses copos mas há muito que a modernidade citadina deixou aquelas pobres criaturas a morrer. A surpresa virá no fim, com uma autópsia incompreensível para o médico novo, acabado de chegar da cidade, morreram sem um sinal de cirrose. Apenas uma intrigante ausência de afectos.

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