quinta-feira, setembro 13, 2012

Quando o navio começa a ir ao fundo

A esta altura do campeonato, não restam muitas dúvidas sobre o significado político de Pedro Passos Coelho. A mensagem que nos dirigiu no Facebook, na qual veio queixar-se das suas próprias acções, deixou-me nas mãos apenas uma dúvida: Passos Coelho é o cúmulo da inutilidade ou é o expoente máximo do cinismo? Por generosidade, por algum excesso de condescendência, e também para manter a urbanidade necessária a que esta crónica chegue a conhecer a luz do dia, proponho que aceitemos o seguinte: a mensagem que Passos Coelho nos dirigiu foi sincera. Admiti-lo tem duas vantagens. A primeira é que descobrimos o próprio Passos Coelho consumido pela sua mais conhecida tirada de psicologia étnica: afinal, quando julgou os portugueses piegas, era ao espelho que se via. Admiti-lo tem, em segundo lugar, o conveniente de podermos tomar a mensagem como uma declaração de morte política, neste caso peculiarmente declarada pelo próprio cadáver. É que, se Passos Coelho nos diz que o que está a fazer é contra aquilo que ele próprio quer fazer, resta-nos concluir o seguinte: estando nós a ser governados em modo de piloto automático, nada perderemos se nos livrarmos do fardo que é remarmos para um homem do leme que só pode o que não quer.

Devo dizer, entretanto, que a queda abrupta de um homem não é coisa que, por si só, me agrade. Em primeiro lugar, porque a queda de Passos Coelho, em si mesmo, nada resolve. Pode ser celebrada, pode ser festejada, é um ponto de partida indispensável, mas por si só nada resolve, tal como, por si só, nada resolveu a queda de José Sócrates. O que é importante, sim, é lutarmos por uma democracia política económica. E se isso passa por derrubar quem dá o nome e a cara a esta engrenagem, passa também por um exercício crítico muitas vezes minucioso. Dou-vos o exemplo de um texto da imprensa de ontem, no qual, falando--se das eleições holandesas com a naturalidade que o consenso político-ideológico reinante no espaço publicado permite, se escrevia: “Nem só de temas pesados como a economia ou a Europa vivem as eleições holandesas. Há propostas mais ou menos originais, desde acabar com a propriedade privada de terrenos (…)”. Peço desculpa, mas discutir os limites à propriedade privada é assunto de economia. Se me disserem que não é tema para ser debatido numa revista de otorrinolaringologistas ou nas eleições para o comité técnico da Federação Portuguesa de Hóquei em Patins, aceito; agora, que é questão de economia, é.

Em segundo lugar, o espectáculo da queda de Passos Coelho é desagradável porque o estardalhaço que o processo ameaça espoletar poderá ser particularmente útil à fuga às responsabilidades de todos os que nos convenceram a entrar nesta aventura austeritária. Não me preocupam tanto, confesso, os casos de fuga mais espalhafatosos, como o de António Nogueira Leite, figura de alta tecnocracia, vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos, secretário de Estado de um governo PS nos anos de 1990 e actualmente membro do Conselho Nacional do PSD, que disse, há um ou dois dias, num momento indubitavelmente cristalino, que não tardava muito e se pirava daqui para fora. Estampou-se, espero. Preocupa-me, sim, o caso mais subtil de Paulo Portas. Por simpatia, os jornalistas e os comentadores tendem a chamar habilidade, capacidade táctica, maquiavelismo (pobre Maquiavel…) à capacidade de sobrevivência de Portas, mas pergunto se não é tempo de os jornalistas, e todos nós, começarmos a perceber que, se queremos olhar a “situação” de frente, não é Passos Coelho que deve despertar todas as fúrias. Há pessoas na vida política portuguesa que passam por todas as guerras e delas nunca saem feridas. São as primeiras que devemos atirar aos tubarões. No dia 15 de Setembro sairei à rua contra a troika, contra o governo do PSD, mas também contra o governo do CDS-PP.

José Neves in jornal i

Sem comentários: