segunda-feira, outubro 29, 2012

Jardim

Ainda te lembras daquela idade em que tudo era um sorriso? Chovia toda a tarde e, nem por isso, saíamos do jardim municipal. Era o baliza à baliza e o vira-costas, a apanhada e o polícia e ladrão. Fizemos daquele lugar ermo, o centro do mundo. O nosso. Debaixo daquela árvore, os beijos foram a primeira descoberta do amor, enquanto as discussões mostravam o lado inesperado da amizade. Naquele lago vimos reflexos do nosso futuro. E não gostámos. Não compreendemos nada. Era um jardim pacato. Sereno como a vila que nos viu crescer. Eu gostava de ser ali. De recriar os verbos e conjuga-los à nossa forma. Ao nosso jeito. Inocente. Como uma criança matreira. Hoje chove. Hoje chovemos. Sim, hoje somos chuva. Hoje caimos na relva. Entranhamo-nos no verde. Hoje o cheiro a terra é o nosso suor. Hoje somos um pouco mais passado. Sou a ausência que veio com o teu adeus. Num inverno como este. Como estas frases curtas. Já não há continuidade. Só há chuva. Nesta minha casa. Com vista para o nosso jardim. Húmido de lágrimas presas.

1 comentário:

Antígona disse...

e mais outro! :):) este merece um beijo :)