terça-feira, outubro 30, 2012

onde está o teu deus?



© Zoran Lucić

era certo e sabido que todos os domingos eram dias santos. acordava manhã cedo e ia para o parque. sentava-se debaixo de uma árvore, que era sempre a mesma para lhe conhecer as manhas, ou as sombras, e esperava. acariciava a bola, rodava-a no dedo, ouvia o vento. era capaz de passar noventa minutos nisto. a ouvir passar o tempo. a sentir a natureza. a preparar-se. depois vinha o almoço apressado, que a caminhada de san telmo até la boca ainda era longa. noventa minutos, pelo menos. combinava sempre com  cherro, o vizinho com nome de velho ídolo. no caminho iam trocando nomes como a criança que procura o último cromo: calomino, mouzo, rattin, boyé. quase que podiam garantir que o vento que lhes abanava as roupas gastas era dos potentosos remates desses míticos fantasmas. um jogo depois, la bombonera, essa palavra redonda que o arrepiava. sempre. era a igreja dos ex-ateus, daqueles que se haviam convertido a um novo deus. onde está o deus de cada um?, perguntara-lhe o padre uma vez. dentro de cada um, ouviste?, continuara. mas ele sabia que não. sabia que deus está dentro das quatro linhas. que deus tem nome: maradona. un pibe, un dios. o seu deus. e agora pergunto: onde está o teu deus? onde estão os deuses de cada um? que religião é esta que sabe tão bem e se repete a cada noventa minutos? não quero saber, confesso.  apenas sei que amo a simplicidade que se encontra naquela linha de golo, naquele breve momento onde a ficção e o real se confundem entre duas memórias difusas, naquele diez inmortal.

Sem comentários: