quinta-feira, novembro 15, 2012

Tudo no mesmo saco



Temos o saco de pano; o saco das compras; o saco de desporto; o saco azul; o saco do pão; o saco do (a)massapão (houve muito disso à volta da assembleia); o saco dos preconceitos. É de encher o saco.

Adoramos meter tudo no mesmo saco. Tomar o todo pela parte. Assegurar que uma andorinha faz a primavera. Fazer juízos de valor sobre tudo, «embora eu não seja de falar do que não sei». Podemos não ter estado lá e embora os relatos de quem lá esteve apontem uma coisa, a televisão outra, temos uma certeza inabalável do que aconteceu. Oh, se temos. Mais não seja porque temos uma história algures no passado que se adapta bem à medida do que aconteceu. (Na realidade não tem qualquer paralelo mas longe de mim falar do que não sei.)

O mundo divide-se em sacos. Ou será em pedaços? Partes? Bocados? Grupos? Etnias e religiões? Posso garantir que a culpa é dos ciganos, pretos, judeus, paneleiros, gordos, policias, nazis, comunas, tripeiros e políticos. De todos. Mas de todos mesmo. Menos dos que saem da norma. Da normalidade e vulgaridade. Crescemos a ler «todos diferentes, todos iguais» mas esse chavão só serve para colar no caderno, fazer conversa e comprar roupa nova da Benetton.

Repito: o mundo divide-se em sacos. O universo digital das redes sociais é um bom exemplo (não é o único nem representa todos, ok?) do que se passou ontem. Ou melhor, do que se passa hoje. Sinceramente, nem era necessário ter havido manifestação ou tumultos depois porque já todos tínhamos uma ideia. Já todos tínhamos posto o Outro no saco.

Num saco temos os «betinhos». São aqueles que não vão a manifestações nem fazem greves. Mais do que isso, acham que não serve para nada. Existem porque… nem sabem bem porquê. «Se eles trabalhassem em vez de andarem na boa vida o país estava bem melhor». Nesse saco também se podem guardar os que têm a certeza de que isto ia acabar com molho. «Aquilo é sempre muito violento. Nota-se que há ali gente que não está para fotografar nem beber uns copos. Ridículo.»

Noutro saco temos os que começaram a ir a manifestações porque a situação está insustentável. Desempregados ou precários. Insatisfeitos com a oferta partidária ou com o seu último voto. Com ou sem subsídio. Estão desiludidos com o sistema e tendem a confundir Estado com Governo. A culpa é de quem mesmo? Para os infelizes habitantes deste saco a culpa morre sempre solteira. E isso é perigoso. Muito.

Também temos o saco dos «profissionais da desordem». A polícia e os serviços secretos sabem bem que eles são. Sabem tudo sobre eles. Que são estrangeiros, que são portugueses, que se vestem de preto, que se vestem com cores, que têm organizações e associações para prepararem os ataques, que são anarcas, que são comunistas, que são skins, que são das claques, que são… Não deixa de ser curioso que se saiba tanto sobre eles e, contudo, não se faça nada para os impedir de estar nas manifestações. Se no mundo do futebol se obriga os perigosos arruaceiros a estar nas esquadras na hora do jogo, porque não se faz o mesmo aos «profissionais da desordem»?

O saco dos polícias é pesado. É pesado porque eles têm uma vida dura. Ganham indiscutivelmente mal para o que fazem e para as privações que sofrem. Se ganham mais do que muitos cidadãos? Claro, mas continuará a ser pouco. A polícia será sempre mal vista, pois é inevitável que haja sempre franjas com um discurso anti-sistema, e eles serão a face visível do mesmo. A polícia agiu bem nas últimas manifestações e exercícios de civismo dos portugueses. Muito bem, até. Contudo, ontem tudo foi diferente. Porquê? Será que o aumento de 11% lhes deu a volta à cabeça? Será que tal como no saco dos que vivem situações insustentáveis um dia a paciência chega ao limite? Será que 2 horas com pedradas em cima mói a cabeça a uma pessoa? É provável que seja tudo isto. Mas também é certo que houve violência policial. Houve excessos policiais (excepto para aqueles que estão no saco dos «betinhos» ou no saco da polícia).

E não há mais sacos? Se eu ou tu não fazemos parte de nenhum destes sacos é porque algo está errado, certo? Errado. Não te preocupes com isso, rapaz. Alguém há colocar-te num dos sacos. Nunca somos nós próprios que escolhemos e nos acomodamos ao saco que nos convém, é para isso que serve o saco. O saco dos preconceitos. O importante é que estejamos todos em sacos diferentes, que não exista unidade nem desejos comuns, pois só assim as manifestações estarão mais vazias, o país mais pobre e a derrota da democracia mais iminente.

E com tudo isto já enchemos o saco? Ou caímos todos em saco roto?

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