sexta-feira, dezembro 28, 2012

do real

É mais um final de tarde, de mais um dia longo, demasiado longo. Há cansaço em todos os corpos. A carruagem vai enchendo, a temperatura subindo, as conversas desaparecendo. M. fecha os olhos e deixa-se ir. Abandona a vergonha do bater da cabeça e o respirar pesado. Parece mais velho do que é, e talvez mais pobre. Gasto, certamente gasto. Acordou cedo. Como sempre. Como todos os dias de todas as semanas. Sempre. Como sempre. Deixa-se ir. Ouve vozes ao fundo, estas facilmente se confundem com o sonho. Há festa, alegria, comida - lembra-se bem da comida, ah!há comida boa - e amigos no sonho. Sente-se bem nessa outra vida. Será outra vida? Os barulhos em volta aumentam. Há risos e alguns insultos, mas o sonho corre bem. Ou escorre. Porque tudo é tão fluido e natural. Está numa praia. Bonita e serena. Como a mulher que o observa. E faz calor. Muito calor. É um dia de verão daqueles muito quentes. Muito mesmo. Dói. Dói-lhe a alma por não ser real aquele sonho. Dói-lhe o corpo por serem reais os animais que lhe pegaram fogo. É tarde. Tudo acaba cedo. Como o seu sonho. Como a sua vida.

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