segunda-feira, dezembro 10, 2012

O futuro é sombrio

Andamos tristes lá em casa, o Manel um pouco menos do que eu, é certo, porque gosta mais da vida e, além disso, já era crescidinho quando o doutor Salazar caiu da cadeira e, como tal, o retrato que tem à frente é-lhe, de algum modo, familiar. Mesmo assim, às vezes damos connosco, à noite, a olhar um para o outro bastante macambúzios: à nossa porta (maneira de falar), há cada vez mais homens com fome – e não da que se mata com um prato de comida, que aí ainda poderíamos ajudar (embora a caridade não seja solução), mas da que só se sacia com um trabalho que não existe, independentemente de os braços terem força para tudo e vontade de fazer. E nós, no meio dessa tristeza, publicando livros. Pobres livros... Depois da ilusão do Natal (e já será para poucos, bem sei), quem vai realmente poder comprar livros, goste ou não de ler, quando as mangas dos casacos dos filhos ficarem curtas e os sapatos apertados, apesar dos pés pequenos? Quem cometerá a ousadia de ler um livro novo quando Janeiro se eriçar de frio e a conta da electricidade começar aos gritos de alarme? Quantos dos nossos amigos e conhecidos, muitos deles grandes leitores, gente dos jornais e das televisões, individual e colectivamente despedidos, começarão o ano de 2013 (o 13 do azar) desempregados, ainda para mais com a consciência de que, na sua idade, pode ser (des)ocupação para muitos anos, enquanto o subsídio de desemprego – esse, sim – tem os anos contados? E que será então dos tradutores e revisores, das pessoas que trabalham nas gráficas, nas livrarias e nas editoras? Que será de mim e do Manel, por exemplo, se aquilo em que trabalhámos toda a vida, além de não pôr comida no prato de ninguém, fizer de nós mais dois com fome (maneira de falar), iguais a esses que todos os dias se vão acrescentando à nossa porta? A preto e branco vejo o retrato do futuro próximo. O Manel, que já viveu a sépia, entristece-se menos, aconselha-me a preocupar-me apenas quando (e se) esta ceifeira moderna bater à nossa porta. Sim, ainda temos casa e porta, é um facto. Muitos já as perderam. 

Maria do Rosário Pedreira in Horas Extraordinárias

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