terça-feira, janeiro 08, 2013

Amanhã não é domingo

Está um frio dos diabos na rua. As duas velhotas da paragem encostam-se e perguntam-lhe se não se quer juntar a elas. Acena que não. Nem uma palavra. Baixa a cabeça e dá uma vista de olhos no telemóvel. Nada. E a bateria que já é pouca. Está um frio dos diabos. Mas ao menos não chove. Há vento. Duas e três rabanadas de vento,  daquelas que cortam o ar e não trazem calda de açúcar. Tem saudades do Natal, parece que foi numa outra vida. Na sua outra vida. Está um frio dos diabos. Nunca havia frio na casa dos avós. Era uma casa pobre, rude, honesta, tudo como o avô queria. Era um bom homem, o avô. Cordato e trabalhador. Um exemplo. Um filho do antigamente, daqueles tempos em que havia respeito. O avô gostava muito do respeito. O respeitinho é bonito, dizia. Era impossível não concordar. Não, não obrigado. Não preciso. Mesmo. Não tenho frio., repetiu após mais uma insistência. Mas tem. Está um frio dos diabos. E o autocarro que não vem. Está atrasado. Vê o telemóvel e nada. Nunca há nada. Nem mesmo bateria. Está um frio dos diabos. Está cada vez mais frio. Faz frio. E nunca mais é domingo. Nunca mais é domingo e pode visitar o avô. Tem saudades do avô. Não havia frio quando se agarrava ao avô. Não há mais avô, só frio. Está um frio dos diabos na rua.

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