quinta-feira, fevereiro 28, 2013

handwrite

tate modern, 2013

alice

alice tem os olhos verdes. os olhos do pai, as pestanas da mãe e o olhar melancólico do avô. deixou de ser criança há quatro anos, aliás, se calhar nunca o foi. cresceu entre berros, silêncios e ausências, viveu a morte das duas avós e sentiu o triste beijo dos presentes que não substituem nada. alice tem os olhos verdes. todos se lembram dela. menina inteligente, bem comportada, focada. sabia o que queria para o amanhã. distância, apenas isso. um adeus, mesmo que não-definitivo, ao seu passado. aos seus seus que eram tão pouco seus. alice tinha apenas dezasseis anos e trazia já consigo o cansaço de ver o fim. tinha uns belos olhos, daqueles que ninguém esquece e, contudo, isso não lhe servia de nada. a alice era uma menina simples, uma companhia esperada entre os dois comboios semi-rápidos. hoje não vi alice, tenho pena, o céu está menos verde.

window of opportunity


Camden Market, 2013

tema aleatório #2

brasil. amarelo, verde, azul e branco. capoeira, futebol e dança. novela, literatura e cinema. brasil não é irmão, nem primo, nem afilhado. somos demasiado diferentes e ainda bem. alegria e tristeza, amazônia e cacém, favela e serra da estrela, vinicius e marco paulo, gil vicente e marcelo rossi. não somos irmãos, não, meu irmão. brasil, estás aí longe e eu assim apanhado de surpresa. o que escrever sobre o brasil? o que pensar sobre o brasil? passo a vida a falar na argentina, num sonho, num desejo, num querer, e esqueço-te. posso tratar-te por tu, brasil? «O sal das minhas lágrimas de amor Criou o mar que existe entre nós dois Para nos unir e separar Pudesse eu te dizer A dor que dói dentro de mim Que mói meu coração nesta paixão Que não tem fim Ausência tão cruel Saudade tão fatal Saudades do Brasil em Portugal». leio vinicius e sinto a sua voz bêbeda no meu ouvido. quem és tu, brasil? eu sei essa, cara, é a bossa nova que sempre tocou lá em casa. esquece a cor, o futebol, a capoeira, a novela, brasil é apenas e só uma coisa: música. brasil é o vinil de domingo na casa da minha avó. 

tema aleatório #1

a obrigatoriedade de escrever é uma coisa tramada. somos impelidos, compelidos, até expelidos, se calhar não somos expelidos mas expelimos, tenho a certeza de que expelimos muitas palavras e ideias que não deviam sair. olho para o meu lado direito e pergunto: então escrevo sobre o quê? mamas. mamas? sim, seios. se és homem... ok, mas preciso de fazer pesquisa. research. investigación. new tab. google.com. mamas. eeeeelá! vídeos e mais vídeos. só vídeos. quer dizer, eu sei o que são mas queria uma definição séria para tornar o assunto mais formal. mama latim mamma) s. f. 1. [Anatomia] Órgão glandular dos mamíferos que segrega o leite, geralmente atrofiado nos machos e segregador de leite na mulher e nas fêmeas dos outros mamíferos. = GLÂNDULA MAMÁRIA, TETA, ÚBERE. agora sim, seriedade. portanto, onde é que íamos? já sei, mamas. mas, olha lá, e tenho de escrever muito é? não. enquanto não se tornar sério, não. menos mau. sabes que devias pôr uma pitada de humor. nas mamas? não, no texto. ah, ok. sillêncio (ou ecrã em branco). sinto que o meu código binário é só composto por zeros. boa! mamas e informáticos, uma dupla poderosa. o quê? sim, acho que fazem sentido. eu não. então não escrevas mais. ufa. ainda bem. posso só escrever mais uma coisa? podes, claro. acho que mamas são mamãs, mas sem acento. a sério? sim! esquece, passa já para o próximo... está bem.

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Não é Godóte, é God. Obrigado, Senhor!


 À Espera de Godóte de Samuel Beckett

p.s.: blá, blá, blá, é feio gozar, blá blá, blá.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Muda de vida

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti a latejar
Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será te ti ou pensas que tens... que ser assim
Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será te ti ou pensas que tens... que ser assim
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti a latejar


António Variações

Os números divulgados esta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam que a taxa de desemprego pulou para os 16,9% no último trimestre de 2012, valor que compara com os 14% apurados no final de 2011. A evolução do desemprego ao longo do ano e os números do último trimestre ameaçam as previsões do Governo para o corrente ano. No Orçamento do Estado, o executivo espera fechar 2013 com uma taxa de desemprego de 16,4%. A taxa de 16,9% tem por detrás uma população desempregada que já ultrapassa as 923 mil pessoas. Comparando com o último trimestre de 2011, o INE dá conta de mais 152 mil desempregados. E, entre o terceiro e o quarto trimestre do ano passado, 52 mil pessoas declararam estar sem emprego.

in Público

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

o problema das redes sociais é que roubam muito tempo

O Papa Bento XVI anunciou nesta segunda-feira que resigna à liderança da Igreja Católica, segundo a agência noticiosa italiana Ansa. A imprensa italiana diz que saída será a 28 de Fevereiro. 

entre criar grupos, seguir pessoas, escolher filtros, meter likes aleatoriamente e contar o número de caracteres, é sabido que não sobra muito tempo para viver. e o próximo usa orkut ou não?

«Cavalo bom de picado não fazem dois rastros»

Por que é a carne picada nos supermercados europeus afinal é de cavalo? As autoridades francesas estão a investigar e começam a descobrir uma fraude internacional. A Findus sueca está na berlinda.
in Público

Afinal, o cavalo bom de picado é mesmo picado... no talho ou na Roménia. Que se lixe a saúde e a vida do consumidor, queremos é preços baixos. Até porque a cavalo dado não se olha o dente.

fevereiro-frame-a-frame III


© Florian Ritter

do tempo verbal

miguel não gosta do fim dos domingos. ele sabe bem o que virá depois e, por isso, entrega-se ao silêncio. luísa já o conhece, evita as perguntas e troca as palavras por olhares cúmplices. ambos gostam de um bom livro, de um vinil sem riscos e um chá frutado na caneca das avós. assim fazem durar os domingos, até o frio ser muito e a cama chamar por luisa. ela deita-se sempre do lado esquerdo, chama-o uma e duas vezes e nada. miguel fará tempo, lerá mais dois ou três capítulos, preparará o pequeno-almoço e a roupa dela, voltará ao sofá, ficará absorto a ouvir o tic tac do relógio do escritório - ouve-se melhor à noite -, e depois decidirá que vai deixar de usar o futuro nas suas palavras, poucas palavras. amanhã, amanhã será mais uma segunda. mais um dia sozinho sem ela. sem emprego nem esperança. não há amanhã nem futuro para quem só vive o ontem. para quem perde o presente em filas na segurança social e manifestações sem resultados. não é amanhã, é hoje que deixa de usar o futuro.

sábado, fevereiro 09, 2013

a maria ana

cabelos escuros, olhos claros, pele morena e um sorriso. um sorriso sem fim. maria ana podia ser uma menina dos anos setenta, gostar do rock e do roll, das roupas vistosas e coloridas, falar do estrangeiro como se fosse um amigo próximo. quem a conhecesse melhor diria que era uma menina no passado com muito futuro. esqueçam a maria ana telefonista ou a maria ana modista, maria ana seria uma produtora de eventos. era uma coisa nova.  desembaraçada, falava com todo o mundo e tinha sempre uma solução. respeitavam a sua opinião e elogiavam-lhe a calma e organização. maria ana trautearia sempre algo enquanto trabalhava. música, ela seria a nota desconhecida na pauta nova. música, a toda hora, sempre no tempo. maria ana deixaria mil homens loucos de paixão. seriam daqueles amores intensos, cheios de flores, poemas de rima fácil, cartas do ultramar e promessas de casamento na nova igreja lá da terra. maria ana, uma bela menina que não existe. dirão que é pena, que é uma triste provocação do destino e do acaso, talvez, mas eu tenho uma bem melhor. obrigado, Mariana. parabéns!

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

simplesmente maria

o baú das recordações guarda sempre tanta coisa. são roupas, livros, histórias, fotografias e memórias. são peças de um passado. são peças do passado, como o simplesmente maria. estreia hoje na barraca e estará até 24. a não perder! (link)

As coisas que não entram na cabeça do senhor Ulrich



Quando um deputado apelou a Fernando Ulrich para que pedisse desculpas pelas suas frases sobre a austeridade e os sem-abrigo, o banqueiro respondeu: "Não sei porque alguém se choca, quando falei dos sem-abrigo. Não é uma falta de respeito, pelo contrário, na minha cabeça era um sinal de respeito pelas pessoas que já viveram nessa situação tão dramática." E acrescentou: "Aquela situação eu também posso vir a passar ou a minha família." E não pediu desculpas, porque não recebe "lições de sensibilidade social de ninguém".

Não vou desenvolver sobre as várias pérolas com que este senhor nos tem oferecido. Acho que toda a gente com o mínimo de equipamento cerebral percebe a bestialidade das coisas que o senhor vai dizendo - ainda me lembro quando propôs que os desempregados trabalhassem à borla para o seu banco. E, pela reincidência, fica claro que é isso mesmo que falta a este senhor: capacidades cognitivas medianas.

Também não faço questão nenhuma que peça desculpa a ninguém. Fernando Ulrich não foi eleito por ninguém, não representa ninguém, não deve desculpas a ninguém. É apenas um banqueiro. O que ele diz e pensa é para mim absolutamente irrelevante. Nunca me sentaria à mesa com este senhor para saber as suas opiniões. Nunca leria uma entrevista sua para saber o que acha da situação do País. Nunca me deslocaria a uma conferência para saber das suas reflexões sobre política e economia. Infelizmente, a comunicação social e o País transformaram estes analfabetos políticos em oráculos da Nação. E dá nisto.

O que me interessa, nesta matéria, é apenas uma certa curiosidade antropológica. É mais ou menos como analisar o comportamento dos concorrentes da Casa dos Segredos. Porque será que, quando vê um sem-abrigo, a cabeça pouco sofisticada do senhor Ulrich pensa que um dia ele também pode vir a estar assim? Pensará o banqueiro que todos, sem exceção, estão expostos da mesma forma à austeridade e a todos ela pode atingir com a mesma violência? Não é provável que, no fundo do que reste da sua alma, acredite que, daqui a dois ou três anos, ele pode mesmo estar a dormir debaixo das arcadas do Terreiro do Paço. Não é provável que não saiba, até por experiência própria, que quem nasce no privilégio e vive do privilégio está defendido das desventuras da vida. Mas, teoricamente, Ulrich acredita que todos somos mesmo iguais. O que quer dizer que acredita que os sem-abrigo ou tiveram menos talento ou tiveram apenas mais azar do que ele. Porque acredita que o que teve e tem na vida não resulta de um privilégio mas de um direito por ele conquistado.

Nada vou explicar ao senhor Ulrich, até porque duvido que o compreenda. A insensibilidade social crónica não é uma questão de classe. Há gente rica e com consciência do seu privilégio, há gente pobre que se enriquecesse seria igual ao senhor Ulrich. É uma questão cultural. Quem não tem mundo não sabe dos outros. E é muito mais ignorante do que um analfabeto. E se alfabetização nunca vem tarde, tentar explicar o óbvio a quem numa vida inteira não o percebeu é uma perda de tempo.

Mas, pelo menos para nós, vale a pena recordar que enquanto o Rendimento Social de Inserção e o subsídio de desemprego eram cortados, o Estado pediu 12 mil milhões emprestados à Europa para o injetar em vários bancos. E, entre eles, o banco do senhor Ulrich. Que, com esse dinheiro que os contribuintes lhe arranjaram, o senhor Ulrich compra dívida pública portuguesa. E que isso lhe permite apresentar excelentes resultados num banco que estava em estado comatoso. Ou seja, os lucros do senhor Ulrich são o que falta aos sem-abrigo. Não resultam do seu talento mas da sua capacidade (e dos restantes banqueiros portugueses e europeus) chantagearem os Estados e manobrarem os decisores políticos. Isto, depois de terem levado a Europa e o mundo Ocidental, pela sua ganância irresponsável, ao colapso.

A diferença entre o senhor Ulrich e um sem-abrigo, entre o senhor Ulrich e qualquer pessoa que viva realmente do seu trabalho, entre o senhor Ulrich e o cidadão comum, é que ele tem esta capacidade de pôr o Estado a trabalhar para si enquanto os restantes são abandonados à sua sorte.

Mas há uma diferença mais profunda. E dessa o senhor Ulrich não tem culpa. Vivemos numa sociedade desigual. E a desigualdade começa no berço. Conheço ricos e pobres descerebrados. Conheço ricos e pobres irresponsáveis. Conheço ricos e pobres sem qualquer talento. Os ricos com todas estas características conseguem, regra geral, acabar um curso, arranjar um emprego por via duma boa rede social a apetrechar-se do mínimo de instrumentos para não serem indigentes. E mesmo que não consigam, uma mesada familiar ou um emprego conseguido por favor resolve o problema. Um rico próximo de atrasado mental sai-se, regra geral, melhor do que um pobre muitíssimo capaz.

Não me fico pela riqueza, para não me deixar de fora. Nasci numa família sem cheta mas culturalmente privilegiada. E isso deu-me instrumentos iniciais melhores do que outros tiveram. Logo, menos merecedor de qualquer coisa que tenha conseguido na vida. E isso dá-me, e tendo não o esquecer, obrigações éticas acrescidas perante os outros.

Porque, e agora sei que até o senhor Ulrich será capaz de me acompanhar, não nascemos todos iguais em deveres e direitos. Nem todos temos de provar, da mesma forma, o que valemos, nem todos temos de pagar o preço dos nossos erros. Não estou, note-se, a pessoalizar neste banqueiro. Não sei nem tenho interesse em saber grande coisa sobre ele. Sei que Ulrich provém de uma família abastada pelo menos desde o século XVIII que se juntou a outra família abastada, na pequena rede empresarial que orbitou em volta da ditadura. Sei que antes de se dedicar aos negócios fez umas perninhas no jornalismo e na política. Sei que foi um dos promotores do Compromisso Portugal, um grupo de gestores que defendia menos Estado para nós e que acabou a pedir mais Estado para eles. E sei que o seu antecessor no BPI se chamava Artur Santos Silva e que, sendo uma pessoa de quem geralmente discordo, reconheço haver entre os dois um abismo cultural e intelectual.

Estou a falar de uma coisa mais geral: o privilégio. O privilégio que vem do berço e que deveria dar a quem não o mereceu responsabilidades sociais acrescidas. Mesmo em alguns países com uma organização social e económica distante da que eu defendo existe esta ideia: a de que quem é privilegiado tem o dever de devolver parte do que tem à sociedade. Em Portugal, devolvem conselhos, arrogância e este género de parvoeiras.

E é esse privilégio que livrará sempre o senhor Ulrich de viver debaixo da ponte. Não apenas o privilégio de ser rico. Mas um mais insidioso do que esse: o privilégio de mandar no Estado que manda em nós. O privilégio que lhe permitepôr os contribuintes a pagar juros à troika para lhe emprestarem dinheiro a para ele nos emprestar a nós e nós lhe pagarmos juros a ele. O privilégio que permitiu a um dos seus ramos familiares, de quem herdou parte da sua fortuna, ter a proteção do Estado Novo e prosperar mais um pouco com o condicionalismo industrial. O privilégio de, em ditadura ou em democracia, ter a proteção que o Estado, nos momentos difíceis, nos nega a todos nós. Um privilégio que torna estas frases especialmente insuportáveis.

Não, não quero nenhum pedido de desculpas do senhor Ulrich. Quero apenas de volta, já e depressa, os 1500 milhões de euros que o Estado pediu emprestado à troika para pôr no seu banco. São nossos e chegavam e sobravam para tirar os sem-abrigo da rua. Devolva-os e pode continuar a dizer os disparates que entender.

Daniel Oliveira in Expresso

terça-feira, fevereiro 05, 2013

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

fevereiro-frame-a-frame I


© Senol Zorlu

e se o bom aluno morrer de cansaço?


As medidas do Governo de contenção da despesa no sector da saúde fizeram com que Portugal acabasse por cortar o dobro do que era exigido no memorando de entendimento com a troika, diz um relatório da OCDE.

Esta é uma das principais conclusões do relatório “Health Spending Growth at Zero – Which countries, which sectors are most affected?”, que acaba de ser publicado pela Organização para a Cooperação de Desenvolvimento Económico (OCDE) e que compara os cortes no sector da saúde em vários países. A OCDE ressalva que este relatório limita-se a analisar as tendências e não a discutir a eficácia das medidas ou o seu efeito no estado de saúde da população. O relatório refere que a Alemanha foi o único país da OCDE que não registou um abrandamento na taxa de despesa em saúde em 2010, em comparação com os anos anteriores.


é cortar, é cortar, é cortar. corta-se na despesa e perdem-se muitos dos avanços no sistema de saúde que foram conseguidos nas últimas décadas. abandonámos a base das tabelas de mortalidade infantil, de doenças coronárias, etc., mas até quando? tenho medo, tenho demasiado medo que o bom aluno acabe por morrer de cansaço. morrer só e sozinho, à espera da ambulância que não chega.