segunda-feira, fevereiro 11, 2013

do tempo verbal

miguel não gosta do fim dos domingos. ele sabe bem o que virá depois e, por isso, entrega-se ao silêncio. luísa já o conhece, evita as perguntas e troca as palavras por olhares cúmplices. ambos gostam de um bom livro, de um vinil sem riscos e um chá frutado na caneca das avós. assim fazem durar os domingos, até o frio ser muito e a cama chamar por luisa. ela deita-se sempre do lado esquerdo, chama-o uma e duas vezes e nada. miguel fará tempo, lerá mais dois ou três capítulos, preparará o pequeno-almoço e a roupa dela, voltará ao sofá, ficará absorto a ouvir o tic tac do relógio do escritório - ouve-se melhor à noite -, e depois decidirá que vai deixar de usar o futuro nas suas palavras, poucas palavras. amanhã, amanhã será mais uma segunda. mais um dia sozinho sem ela. sem emprego nem esperança. não há amanhã nem futuro para quem só vive o ontem. para quem perde o presente em filas na segurança social e manifestações sem resultados. não é amanhã, é hoje que deixa de usar o futuro.

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