domingo, março 17, 2013

Magic Position


imagem via ccb

Cólicença, cólicença. São estes lugares. Não? Ah, são estes. Vês, ainda nem começou.  Falta entrar tanta gente. Olha ali, que engraçado, são pessoas dentro de uma gaiola, não é? Estes Praga são mesmo loucos. E o ecrã lá atrás? Deve ser para ver o Lost. Sabes que A Tempestade é o Lost com uns diálogos mais marados. Não, não estão todos mortos, mas também têm um acidente e vão parar a uma ilha onde há forças e energias estranhas.

Não, A Tempestade não é o Lost. Nem mesmo a leitura e interpretação da última peça de Shakespeare pelos Praga procura aludir em momento algum à série da moda. Mais uma vez, tudo começa antes mesmo de começar, Joana Barrios interpela aleatoriamente o público.e André e. Teodósio, qual Deus omnisciente, partilha os pensamentos de cada um. Assim, todos nus, despidos em frente a estranhos. E se Joana não for Joana mas antes Miranda? E se André não for André mas antes Próspero?  Se «este barco for um laboratório de experimentação e ao fim de tantos anos estiver na altura de ir para o mainstream», onde começa então a ilusão?

Como encenar A Tempestade? Como reproduzir uma tempestade? Ideias, propostas, vídeo (link), acção. Vento, chuva, nevoeiro, Purcell, Xinobi e Moulinex. Eis a tempestade perfeita. E uma ilha perdida para o depois. Próspero recebe todos de braços abertos, conta com a ajuda da sua filha lunática, Miranda, e do seu escravo labrego, Caliban. É a ideologia do observador, a apologia do bizarro. Próspero vê tudo, pensa muito e age minuciosamente. Tudo é pormenor nesta peça, Próspero pensa em tudo, não, André pensa em tudo: onde Ariel era espírito do ar, aqui é técnico de som, luz, efeitos, càmara, acção. Ariel é personagem de Tempestade, de Pequena Sereia, e de uma lavagem que preserva as cores. Esta tempestade é uma viagem a um mundo de enganos e mentiras. As excentricidades continuam com a sensualidade fat fat fat da Kate Moss possivel, com o dueto ao piano do par romântico pai-e-filha,  com o crioulo do noivo inglês, com o Thriller de Cláudia Jardim. Não há normalidade nas palavras nem no gestos, é o total abandono do dicionário. «Há que injectar gramática», que esta ilha não é poesia e «isto não é uma metáfora».

O teatro Praga bombardeia-nos com imagens, palavras, cor, música, luz e muitas dúvidas  desde 1995. São muitos anos e muitas parábolas que não são metáforas. «Isto não é uma metáfora» mas podia e devia ser a representação realista de um barco que todos os dias se afunda um pouco.  Naquela gaiola inflexível  vemos o isolamento, o deles e o nosso. «Isto não é uma metáfora», repito.  A Tempestade pode não ser um jogo de aparências, porém,  é certo que os Praga descobriram há muito a sua Magic Position: It's you / Who puts me in the magic position, darling now / You put me in the magic position / To live, to learn, to love in the major key.  


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